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(A) :: Ainda temos o Ronaldo

Ainda temos o Ronaldo

Antes, os adversários diziam: “Eix! Eles têm o Cristiano Ronaldo!” e tremiam. Agora dizem: “Eix! Eles ainda têm o Cristiano Ronaldo!” e o terror é maior.

José Diogo Quintela
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Está quase! Faltam 24 horas para a nossa estreia no Mundial e nunca estive tão esperançado num resultado histórico. Desta vez, podemos mesmo ganhar o caneco. Portugal tem uma das melhores equipas do torneio, toda a gente sabe. Mas, ainda mais importante, tem a equipa mais confiante que me lembro de ver em campo. E eu vi jogar o Brasil de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká, vi a França de Zidane, Henry, Djorkaeff e Trezeguet, vi a Espanha de Xavi, Iniesta, Silva e Villa. Equipas arrogantes, cheias de bazófia, mas nada que se compare à fanfarronice da nossa selecção.

Tudo bem que, nos últimos anos, habituámo-nos a entrar nestes campeonatos sem medo de ninguém, de peito feito frente à Alemanha ou à Inglaterra . Só que desta vez é diferente. É outro nível de gabarolice. Antes, Portugal jogava com o melhor do mundo e por isso acreditava que podia ganhar a qualquer adversário. Agora, tem de jogar com um tipo que ainda se julga o melhor do mundo e, apesar disso, a equipa acredita que pode ganhar a qualquer adversário. É a diferença entre crença racional e fé absurda, entre acreditar em Nossa Senhora de Fátima e em querer pô-la a guarda-redes no lugar do Diogo Costa.

Melhor do que ter o melhor do mundo é contar com jogadores que acreditam tanto nas suas capacidades que é-lhes indiferente terem de levar com um avançado que já não tem condições para estar ali, mas que exige ser titular, nunca ser substituído e marcar os livres. Os colegas borrifam nisso.

É tal a prosápia de Bruno Fernandes, Vitinha, João Neves, Nuno Mendes e Bernardo Silva, que estão mesmo convictos de que conseguem ganhar assim. Como é evidente, essa atitude põe as outras equipas em sentido. Vamos assistir a isso já amanhã. Os nossos adversários vão entrar em pânico. O que não é fácil, se pensarmos que se trata do Congo. Os congoleses vivem na miséria, em guerra permanente, abrem a porta de casa e levam logo com ébola. É um povo que já passou por muito, não se abala facilmente. Mas quando virem o nosso 11, vão-se assustar. Antes, os adversários diziam: “Eix! Eles têm o Cristiano Ronaldo!” e tremiam. Agora dizem: “Eix! Eles ainda têm o Cristiano Ronaldo!” e o terror é maior. Uma selecção que se dá ao luxo de alinhar com Ronaldo, tem de ser fortíssima. É como o pavão: se tem uma cauda tão grande e inútil, que custa tempo e energia a manter, chama a atenção dos predadores e dificulta a fuga, então é porque o bicho tem uma forma física sensacional. O Ronaldo é a cauda de pavão da nossa equipa.

Se os nossos jogadores dissessem “até ganhamos com dez!”, já era gabarolice. Mas a presunção é tal que ainda dizem mais: “até ganhamos com o Ronaldo!” Pior que jogar com menos um é jogar com um que atrapalha. É que a equipa podia fingir que o CR7 não está lá. Ignorá-lo, para não perturbar. Mas, não! A segurança que têm nas suas qualidades é tanta que optam por usá-lo à mesma. Passam-lhe a bola. Solicitam-no. Fartam-se de lhe fazer cruzamentos para a área. São tão bons que alguma das desmarcações perfeitas que executam vai acabar por ressaltar na canela do Ronaldo e entrar.

Quando era miúdo e jogava à bola com os meus amigos, eu era uma espécie de Ronaldo. Ao fazer linhas, a equipa do melhor jogador também tinha de ficar comigo, para equilibrar.

A autoconfiança dos nossos jogadores é admirável. Para se perceber melhor o nível da convicção, isto é como se a Ferrari desenvolvesse um carro com o melhor motor de sempre, o melhor design de sempre, equipado com os melhores pneus de sempre e afinado pelos melhores mecânicos de sempre. Depois, acreditava tanto na máquina que ia buscar o Jackie Stewart para a pilotar.

Há tempos, numa entrevista, Ronaldo disse que tem 41 anos, mas corpo de 28. Tem razão. De facto, parece cada vez mais novo. Mas não é só a nível físico, é também a nível emocional. Neste momento, além do cabedal de jovem adulto, tem o feitio de um miúdo mimado de 11 anos que é o dono da bola. Tem de jogar sempre, se não amua.

Aparentemente, não há na selecção ninguém capaz de lhe dizer: “Desculpa, Cristiano, não dá para jogares de início. Mas não te preocupes, na segunda parte saltas do banco”. O que, vendo bem, não é mau de todo. Ao menos, começam a reconhecer que ele já não consegue saltar. É um princípio.