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"Quando chegámos não havia ninguém a viver na Baixa, era uma cidade fantasma". Os três nomes por trás da Ando Living

Charles Wanecq, William Tonnard e Hakan Kodal chegaram a Lisboa quando "ninguém a conhecia". Hoje com a Ando Living, têm mais de 10 prédios de alojamento local de luxo no centro histórico.

Sâmia Fiates
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Inês Lacerda
photography

Da segurança, à comida, dos preços baixos à receção calorosa, Lisboa definitivamente conquistou o público estrangeiro, mas há cerca de 12 anos os franceses Charles Wanecq e William Tonnard dizem ter encontrado uma Baixa “abandonada”, com edifícios devolutos e comércio fechado. Viram na “cidade fantasma” uma oportunidade de negócio, e juntaram-se ao empresário turco Hakan Kodal, que já tinha 20 anos de experiência no mercado de investimentos imobiliários. Desde então, arrecadaram 400 milhões de euros em vários fundos de investimento e compraram imóveis em zonas como o Chiado, Santos e Alfama, criando uma das principais marcas de apartamentos de serviços de Portugal.

Atualmente a Ando Living tem 15 edifícios em funcionamento — 14 em Portugal e um na Turquia. Até o final do ano estão previstas três novas aberturas, na Comporta, em Lisboa e no Porto, além de duas clubhouses, uma na Avenida da Lisberdade e outra em Istambul. A marca conta ainda com 19 projetos em desenvolvimento, que devem abrir até o final de 2029. Além da Turquia, a Ando Living já chegou ao Reino Unido. No início de 2025 o grupo comprou a operadora de apartamentos com serviços, a CityApartments, de Londres. A  empresa tem um plano de internacionalização, e quer chegar a países como França, Itália e Grécia, alcançando 6 mil apartamentos na Europa até 2028. Cada edifício remodelado representa milhões de euros de investimento — no final de 2025, quando começou a comercializar o Pedras Negras House, localizado entre a Sé e a Baixa, na Rua das Pedras Negras, a Ando Living divulgou que o projeto é resultado de um investimento de 15 milhões de euros.

Para tornar todas estas ambições realidade, o modelo de negócios ataca em três frentes: captação de investimentos, promoção imobiliária e hotelaria. O grupo é composto por uma operadora de alojamentos locais, a LovelyStay; uma empresa de gestão de investimentos e promoção imobiliária, a OptylonKrea; a marca de apartamentos de serviços Ando Living; e ainda a CityApartments, uma empresa de gestão de Airbnb de apartamentos para negócios que continua a operar em Londres. Através da OptylonKrea, que conta com mais de 700 investidores de 42 países e 400 milhões em capital próprio em fundos de investimento regulamentados, o grupo consegue financiar a compra e a remodelação dos edifícios — um dos fundos assessorados pela empresa adquiriu o edifício da Zara, na rua Augusta, em 2023, na maior transação de uma loja de comércio de rua em Portugal até a altura.

Depois de remodelados e prontos a habitar, os apartamentos são comercializados pela marca Ando Living, que vende cada unidade já mobilada, por valores que começam um pouco abaixo de um milhão de euros e podem ascender até os 3,5 milhões. As vendas são associadas a um contrato de exploração, que garante um retorno para os proprietários de até 6% do valor da venda. Na teoria os investidores são donos dos imóveis e podem usá-los quando quiserem — entretanto, o mais comum é terem cerca de duas semanas para ocuparem o apartamento por ano, e receberem os rendimentos agregados à disponibilização da propriedade ao regime de alojamento local. É a LovelyStay que trata da administração do negócio de hotelaria, ocupando-se das reservas, entrega das chaves, serviço de housekeeping, entre outros.

Charles Wanecq, o espírito aventureiro e empreendedor

O puzzle parece funcionar a todo vapor, mas o caminho até aqui já soma mais de dez anos. O primeiro a chegar em Lisboa, ainda em 2014, foi Charles Wanecq. O francês tinha 29 anos na altura, e vinha de um passado no mercado financeiro em Paris e Nova Iorque. “Queria regressar à Europa e achei que havia uma abertura nos países do sul. Queria criar um projeto que unisse hospitalidade e imobiliário. E havia uma oportunidade em Portugal, porque não existiam muitos projetos nestas áreas ainda, o país ainda estava a recuperar da crise. Ao falar sobre o tema em Nova Iorque, vi que havia pessoas interessadas num novo projeto como este. Estava muito atraído por Lisboa e então quando cheguei para visitar, a ideia ficou ainda mais óbvia”.

Questionado sobre se já tinha trabalhado no meio, Wanecq é direto: “Não, absolutamente. Venho do mercado financeiro”. Entretanto, o elemento de “espírito livre” do trio assume também que procurava “alguma aventura, ir a mais lugares e fazer coisas novas. Quando cheguei percebi que tinha um desafio em mãos, e isso também deu-me energia”. Energia também foi preciso para completar as suas aventuras: das provas de triatlo a pedalar de Lisboa ao Algarve de bicicleta, que assume ser “bonito, mas um pouco perigoso”. “Nesta cidade realmente posso respirar. Para uma capital europeia, os prédios não são assim tão altos. Há o sol, o rio e a comida leve. E estamos a 10 minutos de uma natureza verdadeira.”

Apesar de não ter experiência direta com o mundo imobiliário, Wanecq pode ter herdado as capacidades de liderança do pai, e o gosto pela remodelação de prédios históricos da mãe. Charles Wanecq é filho de François Wanecq, um empresário francês que assumiu cargos de direção em empresas como a Saint Gobain, multinacional que produz vidros; a Arjowiggins, escocesa produtora de papel; e que foi CEO da Vesuvius, empresa britânica de produção de peças de metal para a indústria siderúrgica, por quase 20 anos. Há 11 anos que François Wanecq tem uma empresa de atividades imobiliárias.

a mãe de Charles Wanecq administra um castelo no interior da França. Marguerite Wanecq conta a um podcast da RCF como os seus pais recuperaram o château de Marcilly-sur-Maulne nos anos 1970, numa altura em que “ninguém se preocupava com os castelos”. O castelo foi construído no século XV e pertenceu à família Sennetère. Posteriormente, em 1608, foi adquirido e remodelado por Charles Fouquet, Tesoureiro da França em Tours, com base no projeto do arquiteto Jacques Androuet du Cerceau. Uma das residentes do castelo, no século XVII, foi a Marquesa Marie Magdeleine de Vassé, apelidada de “a Diaba”. “Nos anos 1970 a minha mãe estava à procura de uma casa no interior  e apaixonou-se por esta propriedade”, explica Marguerite Wanecq, que diz ser “muito apegada” ao castelo, assim como os três filhos, que visitam a propriedade “todas as férias”. Apesar de não viverem no castelo, François e Marguerite Wanecq habitam a propriedade pontualmente, durante as férias ou aos fins de semana, em situações “sociais”. O castelo está aberto para visitas do público durante o verão, quando é possível também alugar um quarto para dormir na propriedade centenária.

Charles Wanecq tem duas irmãs — Caroline, CEO de uma empresa de recrutamento; e Camille, designer de interiores com experiência em hotéis de Paris e Ibiza, e que já trabalhou em projetos associados a marcas como a Hermès ou a Cartier. Aliás, a irmã também é a diretora de design de interiores e arquitetura da Ando Living, responsável por criar a estratégia para os ambientes das várias residências do grupo.

William Tonnard, o ponderado e analítico

Foi o amigo de longa data, William Tonnard, que terá impulsionado Charles Wanecq a perceber o potencial de Lisboa. Já se conheciam há mais de dez anos e trabalhavam ambos no mercado financeiro, mas Tonnard vivia em Hong Kong. “Comecei a falar sobre isso quando ele ainda estava em Hong Kong. Mas quando fomos a uma festa de despedida de solteiro de um amigo em comum no Porto é que ele me disse: ‘Há definitivamente uma carência de projetos na área da hotelaria. Sem dúvida que há uma oportunidade de criar algo em Portugal, deves investigar mais’”, recorda Wanecq.

William Tonnard veio para Portugal em agosto de 2015, quando os dois franceses fizeram o primeiro investimento no que se tornaria mais tarde a Ando Living. “Demorei um ano para vir para Lisboa. Charles estava a fazer o trabalho de campo enquanto eu fiquei em Hong Kong a fazer algumas análises, depois do meu expediente de trabalho. Na altura trabalhava num banco, mas sabia que queria empreender. Até que vim passar alguns dias e percebi que o que estávamos a fazer fazia todo o sentido”.

Este instinto empreendedor também poderá ser de família. William Tonnard é filho de Jean-Claude Tonnard, que fundou em 1976 com o irmão, Alain, a Audika, a primeira rede de aparelhos auditivos francesa, e que hoje está presente em 25 países — incluindo Portugal. O grupo foi vendido em 2015 para a fabricante de aparelhos auditivos neerlandesa Demant, mas manteve o nome e muitos membros da família ainda estão na administração e no Conselho Diretivo. Atualmente é o irmão mais velho, Michael, a ocupar o cargo de CEO na empresa, enquanto a irmã mais nova, Laetitia, que cursou marketing em Lisboa, dedica-se à promoção de eventos dentro do mesmo grupo.

Contudo, William Tonnard decidiu seguir carreira nas finanças, e desde 2010 o francês vivia em Hong Kong, onde trabalhava com ações no BNP Paribas. Assume que a história da família, “influencia-o profundamente”, destacando que o exemplo do pai e do tio “deu-me a motivação para me tornar um empreendedor com a Ando Living. Num setor diferente, mas com o mesmo espírito: criar, construir com paixão e deixar um legado”, escreve, numa partilha no LinkedIn em 2025. Curiosamente William Tonnard permaneceu em Hong Kong até o mesmo ano em que a empresa da família foi vendida — quando decidiu abraçar o desafio lançado pelo amigo e arriscar o novo negócio em Portugal. E para o perfil analítico de Tonnard, a figura legal do “alojamento local”, criada em Portugal em 2008 e com regras simplificadas em 2014, foi um dos maiores atrativos. “Acho que Portugal foi dos primeiros países europeus a criar uma legislação para esta não ser uma área cinzenta. É preciso pagar impostos, declarar, pedir uma licença, mas se pode operar. E isso deu-me segurança para abrir um negócio aqui”.

Wanecq e Tonnard criaram entre 2014 e 2015 a LovelyStay, especializada na automatização dos serviços de gestão de alojamento local, e a Optylon Capital, com foco em fundos de capital privado para promoção imobiliária. “Criámos a LovelyStay com o intuito de administrar as propriedades nas quais estávamos a investir, mas enquanto não tínhamos retorno com os empreendimentos, passámos a pedir às pessoas para que nos dessem os seus imóveis para que nós administrássemos. Começámos do zero para um, dois, cinco, e hoje temos mais de 1500 unidades. Foi um caminho longo, mas é preciso começar em algum lugar”, explica Tonnard.

Com os dois negócios a correr em paralelo, em 2018 Charles Wanecq e William Tonnard envolveram-se na fundação do Yamba, um clube de praia holístico na praia da Bolina, na Costa da Caparica, que chegou a ser listado no Top 10 Beach Clubs in the World pela Condé Nast Traveler, mas em 2021 foi destruído por um incêndio. Na altura William Tonnard partilhou um link para uma arrecadação de fundos para a reconstrução do clube, que entretanto foi substituído pela Casa Reîa em 2022, num projeto idealizado pelo fundador da Astral, Sacha Gielbaum, neste caso em parceria com o amigo Emil Stefkov, fundador The Group NYC. Nesta fase, entretanto, Wanecq e Tonnard já estavam totalmente envolvidos na promoção da Ando Living, a marca que representava a união da expertise da dupla francesa em gestão de investimentos e operação de alojamento local à experiência do empresário turco Hakan Kodal no setor imobiliário de luxo.

Hakan Kodal, a voz da experiência

“Às vezes digo que sou os cabelos brancos necessários para o negócio”, brinca Hakan Kodal, o terceiro fundador do grupo. O encontro entre os franceses e o turco deu-se em 2016, quando perceberam que, de acordo com Wanecq, “havia uma população turca muito centrada na Europa”, e que cresciam as “oportunidades com os vistos Gold”. “Vi que os dois tinham percebido o potencial, eram empreendedores, já viviam cá, e na altura eu estava à procura de diversificação“, explica Kodal. Foi quando a fusão entre a Optylon Capital e a Krea Real Estate aconteceu. “Já tinha 20 anos de experiência no mercado imobiliário. Fui CEO de um fundo de investimentos imobiliários listado na bolsa de valores de Istambul. E depois tentei comprar uma empresa em parceria com a Morgan Stanley. Não aconteceu, então, com a Merril Lynch, comecei a Krea. Fizemos muitas coisas mas depois da ‘Black Monday’ de 2008 decidiram deixar o negócio. Foi quando passei a procurar oportunidades internacionais.”

O curriculo de Kodal é longo. Licenciado em telecomunicações pela Universidade de Istambul, tirou uma formação na Ecole Superieure de Commerce de Paris entre 1989 e 1991 e trabalhou no mercado das finanças no banco turco GarantiInvestment, que em 2019 passou a chamar Garanti BBVA; e na consultora Coopers & Lybrand, que em 1998, depois de uma fusão, deu origem à PwC. A partir de 1997 Kodal entra de vez no universo imobiliário, gerenciando uma das maiores empresas de investimentos imobiliários da Turquia, a Yapı Kredi Koray. Em 2007 o empresário criou o fundo imobiliário com a divisão de investimentos do Bank of America — e ao mesmo tempo passou a ser uma voz ativa no meio, ao criar entidades na Turquia, como a Associação Nacional de Companhias de Investimentos no Mercado Imobiliário (GYODER); o Urban Land Institute (ULI) na Turquia, a Federação de Centros Comerciais e Comércio da Turquia (TAMPF) e o Conselho de Centros Comerciais da Turquia (AYD).

O inglês de Kodal, isento de sotaque e muito mais articulado do que o dos sócios, denuncia os largos anos a trabalhar com o mercado norte-americano, e as várias viagens profissionais que fez ao longo da vida. Mas Portugal foi uma novidade para alguém com tanta experiência no mercado imobiliário. “Andei por todo lado, mas Lisboa foi o meu último destino. Um dos meus parceiros recomendou-me. Disse: ‘é uma cidade incrível e muito atrativa para o mercado imobiliário, porque é mesmo muito barato‘. Em 2016 ninguém conhecia Lisboa, não era o lugar onde estavam a investir”. Mas foi afinal um ex-chefe de Paris que recomendou Charles Wanecq. “Disse-me: ‘Se for a Lisboa, o filho de um grande amigo meu, Charles, é como você. Vem dos bancos, mudou-se para o imobiliário, é empreendedor. Tem que conhecê-lo’”. Kodal conheceu Wanecq e Tonnard e em dois meses os franceses já estavam a visitar Istambul. “Ao fim de três meses fizemos o primeiro lançamento em Istambul. Um dos dois projetos que assinámos, fizemos o rebranding e vendemos”.

O envolvimento no novo negócio em Lisboa coincidiu com o nascimento do filho mais novo. Apesar das várias visitas ao longo dos anos, só uma década depois é que Kodal e a mulher, Aysegul Yesilgun, também consultora de investimentos imobiliários, decidiram firmar raízes em Lisboa, mais precisamente num imóvel renovado no Rato. “Depois de morar em muitos lugares, percebemos que este é um dos lugares onde encontramos pessoas como nós. Há algumas cidades em que se sente o cheiro do dinheiro, vê-se a ostenção. Mas aqui as pessoas são mesmo cool. A cidade está a tornar-se cada vez mais sofisticada, mas de uma forma melhor do que qualquer outra cidade europeia”, diz Kodal, que destaca alguns dos benefícios de viver em Lisboa: “Em 20 minutos estamos na praia, há muitas atividades para as crianças, é uma cidade muito amigável. Podemos fazer quatro atividades no mesmo dia — o meu filho joga basquetebol pela manhã, à tarde consigo ir ao ginásio a pé, depois jogamos ténis juntos e ao fim da tarde ainda podemos ir à praia e regressar para o jantar. E no dia seguinte, em 10 minutos de carro, estou a jogar golf.”

Desporto, restaurantes e a vida como locais

Quase 40% da população da região metropolitana de Lisboa é composta por nacionais de outros países, aponta o Relatório de Migrações e Asilo de 2024. Só em Lisboa serão mais de 200 mil pessoas, numa população com mais de 575 mil habitantes. Mas a cidade não era assim em 2014. “Era uma cidade fantasma quando nos mudámos. O centro histórico não era propriamente um lugar a visitar. Houve muito progresso em Lisboa nos últimos cinco anos. Encontrar investidores brasileiros, libaneses e norte-americanos conforta a nossa decisão, porque Lisboa era mesmo uma escolha muito aleatória naquela época“, recorda Charles Wanecq. “O estilo de vida, o tempo ensolarado, as praias maravilhosas, a qualidade de vida, é tudo verdade. Mas as pessoas às vezes falham em dizer o quão aberto o país está para novos negócios. É preciso destacar todas as oportunidades nos últimos 10 anos para novas atividades, a facilidade com que se pode executar e contratar pessoas”, pondera William Tonnard.

A viver em Lisboa há mais de 10 anos, hoje os dois franceses fazem uma vida de locais. Wanecq vive no Príncipe Real, corre à beira do Tejo e pedala, a treinar para provas como o Iron Man; enquanto Tonnard vive em Campo de Ourique e no momento concilia os compromissos profissionais exigentes com os desafios de ser pai de um bebé de três meses. E foi esse sentimento de pertença que os levaram a criar o conceito da Ando Living. “Os nossos investidores têm um pouco esta vida híbrida de passarem vários momentos do ano em diferentes países porque a sua profissão assim o permite”, explica ao Observador Elisabete Pinheiro, diretora de marketing da Ando Living. “O conceito original é também estar nas cidades, nestes bairros mais vibrantes, com muita energia, com muita cultura local, que tenham muito para oferecer, genuinamente”, explica, ao descrever as parcerias com prestadores nos arredores das residências, como ginásios ou cafés, que complementam os serviços integrados, como housekeeping, concierge e até babysitting, num estilo boutique-hotel.

A empresa prepara o salto para as Clubhouses, com a primeira a inaugurar ainda este ano na Alexandre Herculano. Elisabete Pinheiro classifica estes empreendimentos como uma flagship. “Vão reunir um conjunto de comodidades ou amenities, os serviços e os espaços partilhados, num único local. Restaurante, bar, ginásio, piscina, uma concept store, entre outros”, explica, justificando que é preciso haver entre duas a três residências na área para justificar a abertura de uma clubhouse. “Independentemente do tipo de imóvel, o que é um pilar essencial do conceito é a criação de experiências autênticas nestes bairros vibrantes, ligando os viajantes à cultura local e também à comunidade Undo Living, aos ‘friends of Ando’, que estão localizados em Portugal, sejam eles estrangeiros ou portugueses, e que têm as mesmas afinidades, a mesma forma de estar na vida.”

Mas quem são os ‘friends of Ando’, que se integram na rede criada para os investidores? “A ideia não é que seja um clube privado. Diferentemente de outros conceitos que já existem, nós gostamos de ter as nossas portas abertas. Obviamente, para nós, é importante que as pessoas sejam naturalmente selecionadas, por terem uma forma de estar e afinidades semelhante aos nossos viajantes e investidores. Mas isso acontece naturalmente pela oferta do nosso programa cultural”, assinala Elisabete Pinheiro. Este programa é formado por exemplo por sessões de cinema em parceria com a comunidade de cineastas O Quadro; jogos de padel no Club 7; degustações de vinho com a Howard’s Folly Wine, produtora de Estremoz; masterclasses de mariscos e ostras com o chef Elísio Bernardes, do restaurante Sea Me; e eventos pontuais em parceria com artistas e profissionais locais. “Como é que se entra nesta comunidade? Pode ser através dos nossos parceiros e também um pouco do passa-a-palavra”, diz a diretora de marketing, que esclarece que não existe uma adesão nem o pagamento de mensalidade, por exemplo, para fazer parte da rede.

O envolvimento “local” está também no design dos espaços. As residências da Ando Living têm 70% dos projetos de decoração montados com peças feitas em Portugal. Isso inclui itens da GRAUº Cerâmica ou obras de arte da dupla Farinha Rosa, mas também cortinas, tapetes, ou flores. “Nos nossos projetos nas zonas históricas da cidade, é muito importante também preservar o património existente. Portanto, apesar de haver esta linha de ADN de design da marca, nós vamos sempre procurar os detalhes do bairro, do edifício e da cultura portuguesa, e dar sempre um toque diferente, genuíno, a cada edifício, que faz parte também desta experiência local”, diz Elisabete Pinheiro.

William Tonnard mostra-nos uma fotografia do teto trabalhado de um dos apartamentos da Ando Living na baixa. “Adoramos estas características. Quando olhamos para a performance dos apartamentos, aqueles que têm características históricas ou locais, como azulejos, pedras, tetos trabalhos, detalhes da arquitetura pombalina, vendem e alugam melhor, porque representam aquilo pelo que as pessoas são atraídas”.

“Nunca convertemos um edifício de residentes locais para oferecer ao turismo”

O “renascimento” da Baixa celebrado pelos fundadores da Ando Living acontece paralelamente a um aumento nos preços das casas nestas zonas. Para Wanecq, Tonnard e Kodal, a valorização dos imóveis na região é natural, e de certa forma fazia parte da estratégia do negócio já no início, há mais de dez anos. A reagir à narrativa de que são os estrangeiros a empurrar os verdadeiros lisboetas para fora da cidade, defendem que todos os edifícios que compraram e remodelaram estavam devolutos ou eram escritórios. “Provavelmente já investimos em 20 projetos. Nenhum deles era residencial. Todos eram ruínas ou antigos escritórios. Nunca convertemos um edifício de residentes locais para oferecer ao turismo”, diz Hakan Kodal. “É claro que não estamos a construir edifícios residenciais e dedicados ao mercado local. Mas a crise habitacional existe porque há falta de oferta e falta de resposta por parte da administração. E não somos nós a empurrar as pessoas para fora dos bairros — quando chegámos não havia ninguém a viver na Baixa. A maioria das lojas estavam fechadas, a cidade parecia um bocado abandonada. O primeiro prédio que comprámos, podíamos tentar vender por qualquer preço, ninguém queria viver lá, é muito turístico”, defende ainda Charles Wanecq. “A reconstrução ajuda a desenvolver a região. Com mais visitantes, há mais investimento, as pessoas podem empreender, abrir restaurantes, lojas e marcas, há mais emprego. O PIB quase dobrou dentro deste período e a taxa de desemprego foi de 17% a 5%”.

Kodal atira ainda que a preocupação com o centro de Lisboa é “provavelmente o menor dos problemas para a crise habitacional”. “Não há oferta em outros lugares onde as pessoas possam construir residências de verdade e também obter apoio do governo, subsídios para terrenos mais baratos. Este não é apenas um problema de alguns incorporadores ou marcas a trazer a comunidade internacional. É sobre a cidade inteira“. William Tonnard completa: “O centro histórico está a ser feito para o público internacional, mas não significa que Lisboa não tenha espaço para o mercado residencial. Campo de Ourique, por exemplo, é fantástico. Tente colocar um hotel em Campo de Ourique, e ficará vazio”.

Até há três anos, Wanecq, Tonnard e Kodal viajavam com frequência para vários destinos internacionais a promover as oportunidades imobiliárias que davam direito à nacionalidade portuguesa. No Linkedin publicavam eventos em cidades como Nova Iorque, Honk Kong, Moscovo, Londres, Genebra. Através da Optylon Krea, o grupo oferece a chance de investir em fundos que serão aplicados em hospitalidade, o que dá direito à residência sem a necessidade de efetivamente viver na cidade — a exigência é de permanecer em território português por 14 dias a cada dois anos.

Questionados sobre as alterações recentes à Lei da Nacionalidade, e as mudanças dos últimos anos relacionadas à regulamentação dos alojamentos locais e dos vistos Gold, os três sócios são diplomáticos. Elogiam a legislação portuguesa, que dizem ser recetiva a investimentos estrangeiros e novos negócios; normalizam as burocracias enfrentadas no setor da construção civil, apesar de enfrentarem anos para terem licenças aprovadas; mas lançam farpas discretas às políticas que afetaram especialmente os detentores de vistos Gold, que agora precisam esperar 10 anos pela nacionalidade portuguesa. “Claro que pode impactar os investidores, porque entram num programa de negócios que os permite vir uma semana por ano, mas é o tempo que os faz apaixonarem-se pela cidade e terem vontade de desenvolver o país. E confiam no fundo em que estão a investir. Percebemos que a imigração possa ser um problema para o país, mas provavelmente menos de 10% dos imigrantes são investidores que têm residência através de programas de investimento. Agora o tempo foi extendido, mas no geral o sentimento é de que ainda vale a pena esperar mais”, diz Hakan Kodal, que depois esclarece que os vistos Gold não são o foco do negócio: “Ano passado foi apenas 10%. 90% do negócio é hotelaria”.

Para os três, as mudanças também não interferem nos planos futuros. Wanecq, Tonnard e Kodal acreditam que Lisboa vai continuar a atrair estrangeiros. Pessoas com poder de compra cada vez mais alto, que procuram um estilo de vida que não existe em outras cidades europeias e querem a segurança e os preços (ainda) baixos comparados com outros centros urbanos. E para convencer os viajantes a tornarem-se investidores, levam-nos a uma variada lista de restaurantes — de clássicos portugueses como o Canalha, Outro Tempo Bar ou o Cortesia; de petiscos como o Bar Alimentar; o o Sala de Corte, especializado em carnes maturadas; o rooftop do Monaverde para jantares mais festivos, assim como os restaurantes do chef Olivier da Costa; o Furnas do Guincho ou Monte Mar para almoços em Cascais; e ainda restaurantes tradicionais como o Solar dos Presuntos. “A depender do perfil, sempre há um restaurante com a gastronomia e o estilo que os investidores gostam. Esta oferta não existia há 10 anos“, comenta Kodal. “A comida sabe melhor em Portugal”, assinala Wanecq, que tem a confirmação de Tonnard. “Quando cheguei e comi um tomate senti como se fosse um alimento totalmente novo”, comenta, apesar de assumir ter um problema: “sou intolerante a coentros”.

À mesa, as conversas decorrem em várias línguas, mas especialmente em inglês. “É um país extremamente acolhedor, todos falam inglês ou francês. Na verdade, com as pessoas mais velhas falamos em francês e com os mais jovens em inglês. Talvez por isso estejamos um pouco ‘preguiçosos’ em aprender o português”, brinca Tonnard. “Até podemos pedir coisas em português, mas os portugueses respondem sempre em inglês, porque têm um inglês mesmo muito bom”, elogia Wanecq, que aliás é o único que assume ser capaz de manter reuniões breves em português. Questionados sobre qual é a frase em português que mais gostam, as respostas parecem denunciar os seus perfis, que consideram tão complementares. “Queria uma caneca”, ri-se logo o desenrascado Wanecq. “Aqui tá bom”, revela o prático Kodal, sobre como já se habituou a comunicar com os condutores de Uber. Já William Tonnard leva mais tempo, e responde com calma: “Há muitas expressões em francês que são exatamente iguais em português. Como por exemplo: mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”.