Por esta altura no próximo ano, França terá um novo Presidente. A década de Emmanuel Macron como inquilino do Palácio do Eliseu está a aproximar-se do fim e o chefe de Estado francês quer eternizar os seus últimos momentos no poder pela pena de renomados escritores francófonos da atualidade.
A romancista Maria Pourchet foi a mais recente convidada, tendo recebido uma proposta para integrar a delegação francesa presente na cimeira do G7, que arranca esta segunda-feira na cidade de Évian-les-Bains, em França. O Presidente francês convidou a escritora a acompanhar aquela que é a sua última presença numa reunião das sete economias mais desenvolvidas.
Teria carta branca para circular nos corredores do Hotel Royal, que vai acolher a cimeira, e assistir às conversas entre os líderes de EUA, Japão, Canadá, Itália, França, Alemanha e Reino Unido. Mas a escritora acabou por não aceitar o convite, quando percebeu que o seu acesso iria ser muito mais restrito do que previsto inicialmente: “Iria ser uma jornalista…”, justifica Maria Pourchet ao Le Monde.
Apesar de ter sido recusado, o convite insere-se numa estratégia que Macron tem vindo a adotar na reta final do seu segundo mandato presidencial. O objetivo passa por “documentar o fim do quinquénio com textos longos e desconectados da atualidade”, explica um conselheiro do Presidente ao jornal francês, assumindo a ideia de começar a valorizar a herança de Macron, mesmo antes do final do mandato.
O plano teve o seu primeiro episódio há exatamente um ano, no Canadá, onde se realizou a última cimeira do G7. O romancista, argumentista e realizador Emmanuel Carrère acompanhou Macron numa reunião marcada pelas pretensões norte-americanas de anexar a Gronelândia.
Se nem sempre têm total liberdade de movimentos, os escritores mantêm a liberdade de expressão e os seus textos não têm de respeitar um tom institucional nem elogiar o Presidente francês, assegura-se. Apesar de não ser diretamente crítico de Macron, Carrère qualificou aquela cimeira do G7 como um “espetáculo de terror” no texto que acabaria por publicar no The Guardian e no Le Nouvel Obs.
Meses depois, seria Wajdi Mouawad a acompanhar uma viagem oficial do Presidente Francês a Nova Iorque. O dramaturgo franco-libanês foi convidado por Macron para cobrir a conferência da ONU em que dez países (incluindo Portugal) reconheceram oficialmente o Estado da Palestina, num processo liderado pela França. O resultado foi um extenso artigo publicado no Le Monde pelo antigo diretor do teartro La Coline, em Paris.
Dias antes do início da guerra no Médio Oriente, em fevereiro, Macron convidou o jovem escritor Nathan Devers a integrar a sua delegação para uma viagem oficial à Índia. No regresso de avião, o filósofo teve direito a uma longa conversa com o chefe de Estado francês que publicou na revissta L’Express.
Ao escritor premiado Thibault de Montaigu foi proposta uma visita ao Vaticano para acompanhar o primeiro encontro de Macron com o Papa Leão XIV. O romancista terá sido escolha do Eliseu porque publicou recentemente um livro em que relata a sua conversão ao cristianismo. Aceitou o convite, mas a visita não se realizou devido a questões logísticas. Ao Le Monde, disse que tinha interesse em analisar de perto “os ritos de poder e, mais particularmente, através deste encontro entre o político e o espiritual”.
Já o escritor Mokhtar Amoudi acompanhou recentemente o Presidente francês na visita a uma fábrica nos arredores de Paris e numa conferência com investidores estrangeiros em Versalhes. A sua experiência, a convite de Macron, foi relatada nas páginas do jornal Libération, mas o vencedor do prémio literário Goncourt garante que, se foi instrumentalizado, foi apenas”pela sua própria curiosidade”. Ao Le Monde, admitiu que esta é uma oportunidade que não aparece duas vezes: “É algo que não se recusa.”