Nem 24 horas tinham passado em Palm Beach quando os jogadores da Seleção Nacional decidiram ir até à praia, no tempo livre dos treinos de preparação para o jogo inaugural contra a República Democrática do Congo. Sob temperaturas máximas superiores a 30ºC e níveis de humidade acima dos 80%, os atletas deslocaram-se até Lake Worth para um momento que, segundo Matheus Nunes explicou aos jornalistas, estava incluído no plano de preparação.
A primeira vez que os 11 da seleção vão entrar em campo será não em Miami, mas em Houston, já esta quarta-feira, no dia 17 de junho. Será ao meio-dia local (18h em Portugal) no estádio dos Houston Texans, e no mesmo dia em que se prevê terminar um alerta amarelo para cheias em toda a cidade acionado no início da semana. Mas além da chuva, as condições de temperatura e humidade serão bastante semelhantes às de Miami, a cerca de 1.500 km de distância.
Portugal só jogará em Houston e Miami na fase de grupos do Mundial. Contudo, há equipas que vão jogar em mais de um país nesta fase da disputa, o que levou a FIFA a uniformizar determinadas medidas de combate ao calor que será sentido principalmente em Miami, no Texas e no norte do México. A medida com maior impacto a nível do espectador é a introdução de duas pausas de hidratação em cada parte dos jogos, com a duração de três minutos, independentemente da temperatura que esteja. Portugal já se preparou para estas novas interrupções programadas da partida nos jogos de preparação ocorridos no início do mês frente ao Chile e à Nigéria, no Jamor e em Leiria — locais onde as temperaturas das atuais nos EUA.
A pausa de hidratação também foi introduzida no último Mundial no Qatar, onde as temperaturas extremas do deserto arábico obrigaram à alteração das datas habitualmente definidas para a competição, passando do verão para os meses de novembro e dezembro. Mas em 2022, a preparação para o calor foi feita com maior antecedência, com todos os estádios — construídos de raiz para o evento — equipados com tecnologias de arrefecimento que contribuíram para uma melhor experiência de visionamento para os adeptos internacionais, mas também para os jogadores.
Nos Estados Unidos, apesar de esta previsão meteorológica de “calor extremo” ter sido feita meses antes de a competição ter começado, apenas três estádios possuem algum tipo de ar condicionado instalado: os de Atlanta, Houston e Dallas. Em maio, um grupo de 20 cientistas internacionais, especialistas em saúde, clima e atividade desportiva, defendeu que as medidas impostas pela FIFA para responder a estas condições climatéricas são “impossíveis de justificar” e que a realidade no terreno necessita de uma resposta mais adequada.

Calor e humidade aumentam fadiga e diminuem capacidade de reação
“Sempre que aumenta a temperatura e humidade, aumenta a frequência cardíaca e o consumo de glicogénio”, explica Rui Silva. Ao Observador, o médico especialista em Medicina Física e Reabilitação no Hospital CUF Trindade e que partilha o nome com um dos guarda-redes da seleção, refere que quando estas condições são alteradas para um nível em que o corpo não está habituado, acabamos por “trabalhar acima daquilo que normalmente trabalhamos” e, como consequência, acabamos por consumir mais desta substância que é o principal motor de transformação de energia do corpo humano.
Este trabalho “excessivo” terá, sobretudo, um maior impacto a nível muscular, resultando numa maior frequência de espasmos musculares e cãibras, mas também uma maior fadiga, de forma generalizada. Dando um exemplo mais prático, Rui Silva explica que nestas condições, a capacidade de reação de um atleta fica limitada em relação ao nível habitual, indicando que um defesa terá maiores dificuldades no timing de “um carrinho” ou um avançado na leitura do momento correto para rematar à baliza.
Henrique Jones, antigo membro da equipa médica da Seleção Nacional entre 2000 e 2014, reforça a importância do aumento da sudação, referindo que esta cria uma “maior dificuldade no trabalho muscular”. Ambos os especialistas destacam que a hidratação é um fator fundamental a ter em conta. “A água é fundamental em todo o organismo e também no trabalho muscular. Se há uma perda de água, nomeadamente pela sudorese, instala-se uma fadiga mais precoce. Daí que as pausas técnicas para hidratação sejam importantes”, justifica o ortopedista que acompanhou a equipa de Portugal em quatro Campeonatos do Mundo.
“É fundamental que os atletas hidratem bem antes, durante o intervalo e após o jogo. Muitas vezes chega a haver uma perda de três a quatro quilos, sendo que muito dessa perda é água. Além de compensar e suplementar as perdas energéticas, é fundamental uma boa hidratação”, acrescenta Henrique Jones. Para Rui Silva, deve-se priorizar uma hidratação com água conjugada com minerais para o aumento da retenção, sempre a um valor acima do habitual.
Em declarações ao Observador, o antigo responsável médico pela Seleção Nacional revela que “normalmente, as equipas médicas monitorizam a urina matinal para ver a cor e a densidade, no sentido de prevenir a desidratação com o aumento da ingestão de líquidos”. Henrique Jones refere ainda que reduzido tempo de aclimatização às condições na América do Norte optado por Roberto Martínez é uma “modificação da rotina”, mas acredita que é algo que pode “funcionar”.
“Posso responder com a minha experiência de quatro Campeonatos do Mundo, que sempre que Portugal jogou um Mundial fora da Europa, os resultados foram maus. Uma das causas pode ser os tempos prolongados de estágio antes da competição, que trazem saturação psicológica e rotinas demasiado intensas. Fomos para a África do Sul, Brasil e Coreia com muita antecedência. Pensando retrospectivamente, concordo que chegar ao local perto do dia da competição pode ser uma modificação da rotina que funcione”, afirma o especialista.
Um estádio climatizado em Houston e as chuvas torrenciais de Miami: como são as condições onde Portugal vai jogar?
Os 27 escolhidos por Roberto Martínez e a restante equipa técnica portuguesa foram os últimos das 48 seleções a chegar ao campo de treinos atribuído pela organização do Mundial. A Seleção Nacional aterrou em West Palm Beach na sexta-feira e treinou pela primeira-vez em solo norte-americano durante o fim-de-semana, com idas à praia pelo meio. Até quarta-feira, a equipa terá de se deslocar desde a Flórida até ao coração do Texas, num voo de pouco mais de duas horas, para o jogo contra a República Democrática do Congo, a primeira partida do grupo K.
Poucos momentos após a aterragem nos Estados Unidos, o selecionador nacional disse aos jornalistas que uma das grandes prioridades no voo transatlântico foi o ajuste ao fuso horário. “Era tentar não dormir muito, porque o importante era ajustar ao horário”, disse Roberto Martínez aos jornalistas já a apanhar o sol de Miami. Mas enquanto a grande maioria das seleções se deslocava para os países onde ficariam instalados durante este mês de competição com pelo menos uma semana de antecedência do início do torneio, Portugal chegou a poucos dias do primeiro jogo.
Sobre a diferença para as outras seleções no timing de chegada à competição, o treinador espanhol manifestou ter ficado “muito satisfeito” com a preparação feita na América do Norte há uns meses e que optou por esta organização do calendário de Portugal para permitir “sete dias de descanso a todos os jogadores, para que possam desligar e recuperar” após o término das competições domésticas e europeias — como foi o caso dos jogadores do Paris Saint-Germain que disputaram (e venceram) a final da Liga dos Campeões.
Contudo, esse jogo de preparação entre a Seleção Nacional e os Estados Unidos da América foi em Atlanta e não em Houston ou Miami, e numa altura em que o calor extremo previsto para estas semanas ainda não atingia o território norte-americano. O Space City Weather, o serviço meteorológico local da cidade do Texas onde Portugal vai jogar duas vezes esta fase de grupos, sustenta que o clima veranil português é “muito mais seco e mais confortável que o de Houston” e que existem outros países — um deles do Grupo K — que podem ser beneficiados pelo clima texano.
Fazendo uma espécie de Mundial do clima entre as diferentes seleções que vão jogar no Estádio de Houston, o Space City Weather colocou a República Democrática do Congo — os primeiros oponentes de Portugal — como a equipa que melhores capacidades tem para se aclimatar às condições na cidade, admitindo que apesar da variabilidade associada à linha do Equador, que divide o território, o norte do país acaba por ser o mais semelhante a Houston a nível de temperaturas. Se esta informação terá algum tipo de impacto na performance dos atletas e no resultado final de cada partida? Não é claro.
Na verdade, Houston é um caso raro entre os 16 estádios que foram designados para a competição. É a casa dos Texans, da NFL, e está equipado com múltiplas ferramentas de combate ao calor. O NRG Stadium, como é conhecido fora do Mundial, tem uma cobertura retrátil e um sistema completo de ar condicionado que abrange não só a plateia, como o relvado. De acordo com o Football Ground Guide, uma página online dedicada às características dos diferentes estádios internacionais, espera-se que a maioria dos jogos em Houston decorram “à sombra”, como foi o caso do Alemanha-Curaçao e Países Baixos-Japão.
Existem, ainda, outros dois estádios com tecnologias semelhantes: Dallas e Atlanta. Já Miami, onde Portugal vai jogar contra a Colômbia no dia 28 de junho, no último jogo da fase de grupos, será totalmente a céu aberto e sem proteção do calor. Será o jogo mais tardio para o espectador português, começando às 0h30 de Lisboa. Mas isso será uma vantagem para os jogadores da Seleção Nacional, porque o apito do árbitro só soará pelas 19h30 locais, que não será a hora de maior calor.
O problema em Miami pode passar pelo aviso amarelo decretado devido à intensidade da chuva e tempestades que passam pelo território norte-americano esta semana. Como relatou o Observador nesta reportagem na Flórida, uma das maiores fan zones do Campeonato do Mundo chegou a ser evacuada e a comitiva portuguesa foi obrigada a cancelar as atividades de imprensa que estavam previstas para este domingo. Os 27 jogadores e a equipa técnica tiveram ainda de ser retirados do centro de treinos de Palm Beach e o treino foi interrompido. “A tempestade obrigou a seguir o protocolo de segurança das autoridades locais para este tipo de eventos e por isso o treino ficou sem efeito e foi cancelado”, escreveu a Federação Portuguesa de Futebol num comunicado. Os jogadores acabaram por concluir a sessão de “ativação física num pavilhão”, mas o restante calendário definido para os últimos dias antes do primeiro jogo pode mudar a qualquer instante, estando à mercê das tempestades floridianas.

Coletes de gel, arrefecedores de mãos e pausas para hidratação. Como é que os jogadores (e a FIFA) estão a preparar o Mundial?
Em menos de uma semana de competição, as pausas ao fim de 22 minutos de cada parte para a hidratação têm gerado alguma controvérsia. Mauricio Pochettino, o selecionador dos Estados Unidos, disse abertamente que “não gostava” destas pausas introduzidas pela FIFA e que deveriam ser feitas “apenas quando as condições são extremas”. “Quando está tudo bem, é desencessário”, cita a BBC.
Numa ótica de jogabilidade, outros referiram que a quebra do “momentum” pode contribuir para reviravoltas no resultado, uma vez que permite aos treinadores dar indicações táticas aos jogadores num espaço de três minutos, de uma forma que não era possível ao longo da época e em edições passadas da competição. Mas se para as personalidades dentro do meio esta medida é “desnecessária”, especialistas dizem que não bastam.
Numa carta aberta enviada à FIFA um mês antes do início da competição, os 20 especialistas em saúde, clima e performance desportiva que a assinam referem que esta interrupção para hidratação de três minutos é “demasiado curta para ter um impacto significativo na reidratação e no arrefecimento do corpo”. Indicam, também, que não são apenas os atletas colocados em risco com estas medidas, mas também a equipa de arbitragem, “uma vez que, muitas vezes, estarão em menor forma física do que os jogadores, mas terão, mesmo assim, de lidar com as mesmas condições”.
“Pedimos formalmente à FIFA que adote protocolos de gestão do calor que privilegiem a prevenção em vez da reação, alinhando-se com a moderna fisiologia do exercício, com os princípios de saúde no trabalho e com os padrões de responsabilidade social e proteção exigidos no desporto de elite”, lê-se na carta. O grupo de especialistas recomenda uma duração mínima de seis minutos para as pausas de hidratação, “para que haja um impacto real na reidratação e na temperatura corporal dos atletas”, mas acrescentam uma outra medida. “Os balneários nos eventos da FIFA devem estar equipados com os meios adequados para um arrefecimento eficaz antes do jogo e ao intervalo”, escrevem.
Neste momento, as medidas da FIFA limitam-se a estas pausas durante o jogo e a uma promessa de monitorização das temperaturas — bem como flexibilidade para adiar jogos, em caso de condições extremas. Para a Federação Internacional de Futebol, as “condições extremas” são os 32 ºC de acordo com o índice de temperatura global de bolbo húmido (Wet bulb globe temperature, WBGT na sua sigla em inglês). Ou seja, não basta os termómetros indicarem esta temperatura, uma vez que esta métrica, utilizada pela maioria das agências internacionais, estima os efeitos combinados da temperatura, da humidade, do vento e da incidência dos raios solares no corpo humano.
Por exemplo, como refere a carta aberta dos 20 especialistas, se estiverem 40ºC, uma humidade relativa de 20% e houver um efeito negligenciável do sol e do vento, estas condições equivaleriam a 31,9ºC WBGT. Neste caso, em cidades como Miami, onde se esperam temperaturas na casa dos 30ºC com valores de humidade a rondar os 80%, existe uma forte possibilidade de se chegar próximo do valor definido pela FIFA. E mesmo que não atinjam os 32ºC WBGT, as diferentes seleções já começaram a adotar uma grande diversidade de equipamentos — e métodos — para facilitar a convivência com o calor.
O campo de treinos da seleção de Inglaterra introduziu dispositivos de arrefecimento das palmas das mãos. Como escreve a BBC, “o arrefecimento das palmas das mãos pode reduzir significativamente a temperatura corporal, algo que se pode revelar vital para a recuperação durante o jogo e, em última análise, para melhorar o rendimento dos atletas”. A emissora nacional britânica acrescenta que os Three Lions vão utilizar estes dispositivos nos treinos, mas também durante as pausas para hidratação.

Mas os britânicos não são os únicos a introduzir novas tecnologias no âmbito de chegarem aos jogos o mais bem preparados possível, mediante as duras condições climáticas. Espanha é uma de 14 seleções patrocinadas pela Adidas que disponibilizou coletes com placas de gel congelado para os jogadores conseguirem treinar nestas condições de calor. De acordo com um comunicado da federação espanhola, estes equipamentos têm a capacidade de reduzir a temperatura interna do corpo por 0,5ºC, mas à superfície esta alteração pode variar por 13ºC.
“Com os termómetros a preverem marcas acima dos 30°C em cidades como Miami, Dallas e Monterrey — e com o fator agravante da humidade noutras sedes —, este torneio vai colocar aos atletas condições de jogo verdadeiramente únicas”, afirmou o vice-presidente do departamento de inovação da marca alemã, que criou estes coletes inicialmente com o objetivo de serem introduzidos nos cockpits dos pilotos da Mercedes, na Fórmula 1, mas agora adaptados ao futebol. “O desenvolvimento e teste do novo sistema Climacool resultou de um trabalho próximo e alargado com clubes como o Manchester United, a Juventus e o Arsenal. Baseado no feedback direto dos jogadores e dos respetivos departamentos médicos, o sistema oferece benefícios mensuráveis aos atletas”, refere Marc Makowski num comunicado.

