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A seleção do Irão já se encontra em Los Angeles para a sua estreia no Mundial 2026 frente à Nova Zelândia, num ambiente marcado por um forte aparato de segurança, protestos e graves problemas logísticos.
Pela primeira vez desde a criação da competição, um país anfitrião recebeu um país com o qual está em guerra. O jogador Mehdi Taremi lamentou o clima pesado que sente: “Este tipo de tensão compromete a alegria e prejudica a mensagem da FIFA e do nosso povo, que é sobre futebol e busca pela paz”, disse o avançado do Olympiakos, citado pelo The Guardian. “Acho que este Mundial podia ter proporcionado um ambiente melhor e espero que, no futuro, seja diferente para todos os adeptos, independentemente da equipa que apoiem”, acrescentou. A seleção iraniana chegou a território norte-americano precisamente depois de ter sido anunciado um memorando de entendimento entre Irão e EUA.
O trajeto dos iranianos até solo norte-americano foi conturbado desde o início. A participação do Irão no Mundial esteve em risco após os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao país, a 28 de fevereiro. Como referiu a Al Jazeera, o próprio Presidente norte-americano deixou um aviso em março, através da rede Truth Social, a sugerir que a integridade física da comitiva estaria em perigo caso participasse na competição: “A seleção nacional de futebol do Irão é bem-vinda ao Mundial, mas não acredito realmente que seja apropriado que estejam lá, pela sua própria vida e segurança“.
Apesar do anúncio recente de um acordo de paz, as últimas semanas deixaram marcas na seleção. Devido a restrições na concessão de vistos por parte das autoridades dos Estados Unidos — um problema que afetou não só a comitiva oficial do Irão mas também outros profissionais do torneio, como o árbitro somali Omar Artan —, a equipa teve de ser recolocada temporariamente em Tijuana, no México.
https://observador.pt/2026/06/11/mundial-2026-arbitro-somali-proibido-de-entrar-nos-eua-e-recebido-como-um-heroi-no-seu-pais/
Quando finalmente conseguiram aterrar em Los Angeles, após duas tentativas de aterragem do avião, os jogadores depararam-se com um forte dispositivo policial, vigilância de drones e grupos de manifestantes à porta do hotel em Manhattan Beach. A Califórnia acolhe a maior comunidade de iranianos fora do próprio país, razão pela qual a maior cidade do estado é também chamada de “Tehrangeles” (num trocadilho com os nomes Teerão e Los Angeles), onde o desconforto e a indignação mais se sentem. Muitos destes imigrantes acusam a equipa de representar o regime de Teerão e não o povo, explicou a BBC. O ativista Arezo Rashidian, que está a organizar manifestações em frente ao estádio na terça-feira, dia de jogo contra a Nova Zelândia, referiu ser “lamentável que o regime transforme os atletas em porta-vozes“.
Já dentro do estádio, onde são esperados cerca de 35 mil adeptos da seleção nas bancadas, estão planeados protestos coordenados que incluem vaiar o hino nacional e virar as costas aos jogadores no relvado. A tensão política atingiu tal nível que o ministro do Desporto do Irão, Ahmad Donyamali, deu instruções ao treinador Ghalenoi para interromper a partida e retirar a equipa de campo se os cânticos contra o Governo de Teerão ficarem fora de controlo, relatou o The Telegraph.
Uma outra possível fonte de conflito nos estádios poderá ser a antiga bandeira do Irão, com os símbolos do leão e do sol, associada ao regime do Xá. O símbolo, frequentemente usado por opositores ao atual regime islâmico, foi banido pela FIFA, numa tentativa firme de afastar a geopolítica dos relvados. Contudo, esta proibição gerou reações intensas entre os adeptos residentes nos EUA. Um exemplo é o de Jayhun Behestani, um chaveiro iraniano que vive em Los Angeles desde 2012 e que optou por deitar fora três bilhetes que custaram 890 dólares cada (cerca de 820 euros), para não se submeter à censura da organização. “Pensava que este era um país livre onde se podia levar qualquer bandeira para um estádio, mas estava enganado”, lamentou Behestani ao El Mundo.
Para Amir Ghalenoi, o desporto está separado da política: “Estamos aqui para jogar futebol e para representar o povo respeitável do Irão, tanto os iranianos que estão dentro do país como os da diáspora”, disse Ghalenoi. “Só pensamos no nosso país. Não somos pessoas da política e o lema da FIFA é precisamente esse”.
Ainda assim, o técnico confessou que o caos nas viagens levou à consequente falta de tempo para treinar e ajustar os índices físicos. “Sei que os meus jogadores estão determinados a dar o seu melhor. Espero que o Mundial corra bem, apesar dos problemas que tivemos com as viagens… Espero que isto não afete a qualidade do nosso jogo”, frisou.
A comitiva iraniana, que chegou com vinte minutos de atraso à conferência de imprensa oficial no estádio SoFi, foi questionada sobre a exclusão do avançado Sardar Azmoun, afastado da seleção após publicar uma fotografia com um governante dos Emirados Árabes Unidos — país que sofreu ataques por parte do Irão durante o recente conflito. “O Sardar Azmoun é um excelente jogador e já fez muito pela seleção, mas não está connosco. Gostávamos que estivesse, mas isto é o futebol, lamento”, disse Ghalenoi.