O ex-Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa considera que é atualmente “mais difícil governar” e apelou à pedagogia da importância da estabilidade institucional e a “não contribuir para o ruído”.
“Faço questão de, em relação aos órgãos do poder — porque sei da dificuldade dos cargos —, ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, ao Governo, aos responsáveis políticos em geral, de apelar para que as pessoas de facto compreendam que hoje é mais difícil governar do que era há cinco, dez, 15, 20 ou 25 anos”, disse Marcelo Rebelo de Sousa, em Madrid.
“E percebam isso, não é só não contribuir para o ruído, é fazer a pedagogia daquilo que é importante, a estabilidade institucional e a estabilidade pessoal. E os portugueses querem isso”, acrescentou o anterior presidente da República (PR), que falava no domingo à noite num jantar de comemoração do 10 de Junho organizado pela associação da comunidade portuguesa em Madrid Fórum dos Portugueses.
Rebelo de Sousa lembrou, a propósito da maior dificuldade de governar e assumir cargos políticos hoje, que “antes mesmo de terminar o mandato” fez “uma coisa pouco habitual”, quando “na despedida das Forças Armadas” apelou “a que se unissem em torno do novo Presidente que ia tomar posse”.
O ex-PR explicou que hoje “o mundo é mais global” e “o que se passa numa ponta do mundo faz tremer as bolsas e vai diretamente ao bolso de todos em todos os Estados” e “isto não era assim” há alguns anos.
Por outro lado, “o tempo acelerou” e “uma decisão que parecia eterna ou duradoura” é agora posta em causa no mesmo dia ou no seguinte, e governar “neste tempo acelerado e com este mundo cada vez mais complicado em que todos dependem de tudo é mais difícil do que era”.
Marcelo Rebelo de Sousa reiterou que não pretende voltar a ter participação ou intervir de alguma forma em “atividades partidárias ou eleitorais”, assim como recuperar a análise política ou espaços na comunicação social, dizendo que é esse o perfil que considera que deve ter como ex-presidente.
“Escolhi regressar àquilo a que podia regressar sem problemas”, afirmou, antes de dar o exemplo das deslocações que está a fazer a escolas do ensino básico e secundário e de afirmar que está “disponível para atividades culturais e para conferências”, mas “muito poucas e muito seletivas, evitando temas que tenham a ver com a realidade política nacional conjuntural”.
“A política tem um lado de adicção” e “o grande risco de começar a abrir exceções é cair na adicção”, reconheceu.
Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou que “um antigo presidente da República, quando se vem pronunciar sobre o que quer que seja, já não é Presidente, mas uma vez vestido esse fato, está vestido” e “não pode esquecer o que decidiu”, como e porquê ou “o que fez e não fez” e pronunciar-se sobre atividades partidárias, eleições, políticas ou vetos presidenciais, por exemplo.
“Questões que põem em causa o seu percurso como Presidente da República. Isso nunca mais me abandona até ao fim da vida”, acrescentou.
Insistindo em que “quando se é Presidente da República, fica-se para sempre ex-presidente da República“, deu como exemplo um episódio recente, em que aceitou participar num ritual da queima das fitas de Coimbra com estudantes e que envolvia “pauladas em cartolas, três beijos e um pontapé”.
“Fiz uma coisa que não sei se não me arrependi várias vezes”, contou, dizendo que foi algo que “não tinha mal nenhum” e fez “coisas dessas” antes de ser PR, mas agora “estava na fronteira”. “E tenho de ter cuidado com essa fronteira”, afirmou.
Marcelo Rebelo de Sousa foi Presidente da República de Portugal durante dez anos, até março passado, quando foi substituído por António José Seguro.