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(A) :: Porque é que as empresas precisam de pessoas mais cultas?

Porque é que as empresas precisam de pessoas mais cultas?

A cultura não é apenas um ativo intelectual. É também um ativo económico.

Ramiro Brito
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Vivemos numa época paradoxal. Nunca tivemos gerações tão qualificadas, tão expostas ao mundo e tão próximas da informação. Viajam mais, falam mais idiomas, contactam diariamente com realidades culturais distintas e têm acesso imediato a um volume de conhecimento que seria impensável há apenas algumas décadas.

Apesar disso, tenho a sensação de que continuamos a confundir informação com cultura.
A diferença é mais profunda do que parece. A informação permite-nos saber; a cultura ajuda-nos a compreender. A informação responde a perguntas; a cultura ajuda-nos a formular as perguntas certas. A informação pode ser adquirida em segundos; a cultura exige tempo, contexto, reflexão e experiência.
Durante anos, concentrámos grande parte dos nossos esforços na qualificação. Fizemo-lo porque era necessário. Portugal precisava de mais formação, mais competências técnicas, mais especialização e maior capacidade para competir numa economia cada vez mais exigente. Foi um caminho acertado e cujos resultados são hoje evidentes.
Mas talvez estejamos agora a descobrir que uma sociedade pode tornar-se mais qualificada sem se tornar necessariamente mais culta.

A especialização trouxe conhecimento. Nem sempre trouxe profundidade.
O mundo profissional reflete bem esta realidade. Formamos excelentes engenheiros, gestores, programadores, técnicos e especialistas das mais diversas áreas. Nunca foi tão importante dominar uma competência específica. Mas também nunca foi tão importante compreender aquilo que existe para além dela.

Num mundo cada vez mais complexo, a capacidade de relacionar conhecimentos distintos tornou-se quase tão valiosa como o domínio técnico. Um gestor não toma melhores decisões apenas porque conhece números. Toma melhores decisões quando compreende as pessoas que estão por detrás deles. Um comercial não é mais eficaz apenas porque domina técnicas de venda. É mais eficaz quando compreende culturas, comportamentos e motivações. Um engenheiro não resolve apenas problemas técnicos. Constrói soluções para sociedades, comunidades e pessoas.
Durante muito tempo olhámos para a cultura como um complemento desejável da formação. Algo que enriquecia o indivíduo, mas cuja utilidade prática parecia limitada. Talvez tenha chegado o momento de rever essa ideia.
A cultura não é apenas um ativo intelectual. É também um ativo económico.

Vivemos num tempo em que o acesso ao conhecimento se democratizou de forma extraordinária. A inteligência artificial acelerará ainda mais essa tendência. O conhecimento técnico tornar-se-á progressivamente mais acessível. A capacidade de interpretar contextos, estabelecer relações entre áreas distintas, compreender a complexidade humana e exercer pensamento crítico continuará, porém, a ser um dos fatores mais diferenciadores.

É precisamente aqui que as empresas podem desempenhar um papel relevante.
Não porque tenham a obrigação de resolver problemas sociais que não lhes pertencem. Não porque devam substituir a escola, a família ou qualquer outra instituição. E muito menos porque devam abdicar da sua missão principal, que continua a ser criar valor, gerar riqueza e produzir resultados.

Mas porque compreendem que nenhuma organização cresce para além da qualidade das pessoas que a compõem.
As organizações são hoje um dos poucos espaços onde diferentes gerações convivem diariamente. Onde pessoas com percursos, experiências e visões do mundo distintas trabalham em conjunto para alcançar objetivos comuns. Onde o contacto humano continua a ser inevitável, apesar de toda a transformação tecnológica que atravessamos.

As empresas mais inteligentes perceberão que investir na dimensão cultural dos seus colaboradores não é um exercício de responsabilidade social. É uma forma de reforçar a qualidade do seu capital humano.

Promover o contacto com novas ideias. Estimular a curiosidade intelectual. Expor equipas a diferentes perspetivas. Criar oportunidades de aprendizagem para lá da estrita esfera técnica. Tudo isto contribui para formar profissionais mais completos, mais adaptáveis e mais preparados para enfrentar contextos complexos.

Não porque a cultura torne as pessoas mais interessantes, embora muitas vezes o faça.

Mas porque as torna melhores profissionais.

Talvez uma das grandes transformações das próximas décadas passe precisamente por aqui. Depois de anos a perguntarmos como podemos formar trabalhadores mais qualificados, começaremos a perguntar como podemos formar profissionais capazes de compreender o mundo para além da sua especialidade.
Porque, numa economia onde o conhecimento se tornou abundante, a verdadeira escassez poderá residir na capacidade de interpretar, contextualizar e compreender.

E essa continua a ser uma das expressões mais valiosas da cultura.