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(A) :: Quanto gasta no supermercado, em Portugal? Ainda quer ir para a Suíça? Pondere uma coleção rara de azeite virgem.

Quanto gasta no supermercado, em Portugal? Ainda quer ir para a Suíça? Pondere uma coleção rara de azeite virgem.

Portugal com o seu azeite virgem caríssimo está definitivamente a abandonar a felicidade que devia abundar nesta população à beira-mar.

Sandra Figueiredo
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Se em 2023 as estatísticas e notícias apontavam para um gasto mensal de 200 euros para a compra de mercearia (permitam-me o termo mais puro), em várias superfícies comerciais e esperando que estejamos a falar de bens essenciais e não de gourmet, em 2026 os portugueses estão a gastar cerca de 200 euros por semana quando se trata de um casal apenas. Aliás, mesmo esses indicadores de 2023 parecem-me, em boa verdade, irreais. A não ser que a pessoa não tome banho, não limpe a casa, não tenha animais, não viva decentemente. Sobre animais de estimação, sim estes também são como agregado familiar e merecem ser alimentados em condições. E é uma triste vergonha continuarmos a não ter auxílio para apoio veterinário e cuidados básicos dos seres que maior bem fazem à sociedade. Resgato cães há alguns anos com problemas graves de saúde e de abandono, então compreendo quando analiso as estatísticas e sobretudo os fóruns onde famílias conversam/desabafam e também referem os gastos mensais em alimentação especial para animais, especialmente cães.

Já, todavia, não compreendo quando alguém diz que gasta 150 euros por mês: não deve comer ou então alberga comida da casa dos pais (o que é positivo), mas não corresponde à realidade portuguesa. Ou usufrui de rendimento de reinserção social. Vivemos num luxo miserável, em que o salário mínimo quase só cobre a mercearia de um casal. Por mercearia, entenda-se cosmética básica e tudo o que tenha a ver com produtos de limpeza da casa e da roupa. Pensar no azeite já, por si, custa dinheiro, quanto mais comprar azeite virgem. Parece ouro nas prateleiras vernáculas de um supermercado. E estão todos assim, anda tudo na linha do combustível. Começo a pensar em ir acumulando garrafinhas de azeite virgem (extra!) porque ainda me rendem uns milhões em breve, ao ritmo que isto está. Uma vergonha, sermos produtores do melhor da gastronomia e nos vendermos desta forma ao turista e às mentiras das guerras que sobem os preços.

E quando o azeite virginal assusta o português que pondera uma emigração rápida para uma Suíça, cuide-se porque a maioria dos portugueses emigrados sofre emocionalmente, em oculta vergonha, porque alvitra ganhar muito bem em tais países, mas as contas são mais elevadas e sobretudo abdicam da vida de viajar, comer (bem) fora, ter vida que não é luxo, é sim um direito. Estudos científicos, na área da psicologia das migrações, apontam mesmo para o facto das pessoas que emigram para a Suíça e França padecerem de doenças mentais mais rapidamente do que se não tivessem emigrado, apesar do fator financeiro em jogo. A solidão, a perda da pertença à nação, a vergonha da não equivalência profissional no país de acolhimento, as relações amorosas, as novas (não) amizades, são fatores de controlo nesta correlação já bem testada. Mas, ninguém fala disto. É que quando se emigra perde-se muito: sobretudo não trabalhar nas áreas para as quais se estudou muito ou pouco, trabalham em contextos que ‘não querem dizer’. Mas, não deixa a matrícula imponente do carro do emigrante português vir no mês festivo de agosto, entre conversas sempre muito futuristas e irreais de diletantes. Ser emigrante em países europeus, diferentemente dos países norte-americanos, é como ser inverno emocional o ano todo.

E Portugal com o seu azeite virgem caríssimo está definitivamente a abandonar a felicidade que devia abundar nesta população à beira-mar. Já foram os portugueses mais felizes, já muito azeite regou os pratos das famílias com sorrisos rasgados. Hoje, somos uma absoluta comporta vendida às celebridades.