No meu último artigo apelei aos deputados a que olhassem com muito cuidado para a proposta de alteração do Código Penal que, entre outras coisas, visava criminalizar discursos tidos por racistas — proposta entretanto rejeitada, felizmente, porque PSD, Iniciativa Liberal, Chega e CDS votaram em bloco contra ela. Mas voltemos ao meu artigo. Ao lê-lo, o sociólogo, crítico literário e psicanalista amador João Pedro George julgou descortinar no que escrevi aquilo a que chamou um “lapso freudiano” e deu conta disso no seu Facebook. Aí, para dar-se ares de pessoa muito inteligente e profunda, George fez aquilo a que os anglo-saxónicos chamam overinterpretation, isto é, tentou encontrar significados escondidos, inconscientes, em tudo e mais um par de botas, coisa que manifestamente gosta de fazer e que é muito apreciada e aplaudida na nossa esquerda académica (onde, como é sabido, só há pessoas muito inteligentes, profundas e versadas em psicanálise).
Começando por sugerir que eu talvez gostasse de ser membro do Ku Klux Klan, João Pedro George seleccionou a seguinte passagem do meu último artigo: “O combate ao racismo é uma coisa louvável e desejável, mas é um perigo pôr na mão de pessoas como Anizabela Amaral, Samuel Alfredo Gomes (também conhecido como Samuel Yoffa Namaba) e seus amigos do SOS Racismo, um articulado que lhes permita perseguir judicialmente gente branca apenas porque exprime ideias com as quais não concordam”. Dessa passagem George fez ressaltar a expressão “gente branca” — seria esse o tal “lapso freudiano” — e perguntou de forma retórica, mas acusatória, o seguinte: “haverá afirmação mais racista que esta?”. Porém, como fraco psicanalista que é, em vez de nos deixar pensar um pouco sobre o assunto, deu ele mesmo a resposta: “João Pedro Marques tem medo que a proposta de alteração, a ser aprovada, sirva para o perseguir a ele judicialmente (e a outros cronistas brancos). Ou melhor: JPM considera que a lei comporta o risco de os brancos virem a ser constituídos arguidos (quando agora se limitam a pagar uma multa), limitando a sua liberdade de escreverem o que bem entenderem. Mais estranho do que isso é imaginar uma lei criminal que possa assentar numa distinção das cores da pele. (…) Mas enfim, como a maior parte dos racistas são brancos, compreende-se que JPM não consiga domesticar o seu medo, nem os seus preconceitos raciais (que se manifestam em deslizes ou lapsos como este)”.
Estas acusações de racismo dirigidas a mim e aos brancos em geral são frequentíssimas e só vêm confirmar a razão de ser do meu anterior artigo. Mas essa confirmação não deve impedir-nos de notar que este psicanalista de vão de escada continua a enganar-se tão redondamente como já se havia enganado quando descobriu três negras voluptuosas e ávidas de sexo num romance meu em que só há brancas. Qualquer pessoa que me leia — e George deveria tê-lo feito se queria escrever sobre mim — perceberá que não tenho qualquer medo de que os meus escritos sejam considerados racistas. Já escrevi sete livros de História, dois dos quais publicados em Inglaterra e nos Estados Unidos, muitos textos científicos, dez romances e 250 artigos de opinião na imprensa, artigos esses que estão, na sua grande maioria, reunidos em três livros acessíveis a qualquer pessoa. Se houvesse alguma pinga de racismo nesses meus escritos há muito que eu teria sido levado a tribunal porque muitos activistas — Anizabela Amaral, da SOS Racismo, por exemplo — acalentam com fervor esse desejo. Sucede que não há essa pinga. Eu não critico em função da cor da pele ou da origem nacional ou geográfica dos criticados. Não considero que exista uma hierarquia de raças, que as pessoas tenham necessariamente certas características em função da raça a que pertencem ou que negros e brancos estejam em planos diferentes. Critico ideias, critico projectos, combato o wokismo tanto quanto posso e sei, tento corrigir erros e ignorâncias, seja qual for a epiderme dos errados e ignorantes. Toda a gente o sabe porque tudo isso está publicado e é visível. Mas se João Pedro George quiser fazer a contabilidade exaustiva — do que duvido, atendendo ao seu apressado método de leitura — verá que, tudo somado, critiquei mais wokistas brancos do que negros, e fi-lo de uma forma uniformemente incisiva.
A suposição de que eu me insurjo contra a proposta de alteração do Código Penal por ter medo de vir a ser condenado pelo que escrevo é, portanto, mais uma interpretação falhada deste inábil aspirante a Sigmund Freud. Mas passemos adiante porque George julga que ainda tem na mão o ás de trunfo da argumentação, ou seja, o facto de eu ter usado a expressão “perseguir judicialmente gente branca”. De facto, porque é que, no meu artigo, me referi a “gente branca”? Será porque sou racista, como George & amigos adorariam que eu fosse, ou apenas porque sou uma pessoa que estuda os assuntos? É que tendo eu de há muito um interesse na ideologia justiceira e reparacionista a que hoje em dia chamamos wokismo, sigo e registo as suas manifestações públicas em Portugal desde pelo menos Abril de 2017. Quando falo em manifestações públicas refiro-me aos artigos de opinião ou outros e às entrevistas, intervenções no Facebook e no Twitter (depois X) de várias dezenas de activistas woke e aparentados. E o que tenho verificado ao longo destes anos de investigação é que a acusação de racismo está única e exclusivamente virada contra brancos. Não me recordo de ter visto pessoas como Anizabela Amaral, Mamadou Ba, Pedro Schacht, Joacine Katar Moreira, Sandra Urceira e muitos, muitos outros activistas woke acusarem um negro de racismo. Mais. Por norma essas pessoas recusam a ideia de que um negro possa ser racista. Para elas o racismo é uma característica exclusiva dos brancos e relacionada com o seu domínio colonial.
Pode dar-se o caso de que João Pedro George saiba mais do que eu e que me consiga corrigir com vários e esclarecedores exemplos de casos em que negros foram acusados pelos activistas woke de serem racistas. Mas enquanto essa hipotética demonstração por parte do crítico literário J. P. George não chega, eu reafirmo o que escrevi: a proposta de alteração do Código Penal cozinhada por Anizabela Amaral e outros activistas, e assinada depois por milhares de pessoas, tinha inevitavelmente um alvo potencial e esse alvo era a gente branca. Pessoas como Fátima Bonifácio, por exemplo, contra a qual, aliás, o SOS Racismo apresentou queixa-crime. A quantos negros terá o SOS Racismo feito o mesmo? Por que razão não actuou quando gente woke veio para as redes sociais insultar Jorge Costa, o ex-jogador do FC Porto, no próprio dia da sua morte, chamando-lhe “racista”? Pior. Por que razão, nessa ocasião, a actual dirigente do SOS Racismo, Anizabela Amaral, em vez de condenar tão odiosa conduta, veio apoiá-la e, ainda por cima, ajudar à festa de ódio àquele branco partilhando a capa de uma revista sensasionalista em que se dizia que Jorge Costa estava a “ser acusado de espancar a mulher”, omitindo (ou desconhecendo) que a referida mulher do ex-jogador fizera questão de deixar claro publicamente que ele não a agredira?
Estou certo de que o privilegiado cérebro de João Pedro George irá arquitectar uma interessantíssima resposta freudiana para estes enigmas. Mas, repito, enquanto essa resposta não chega — e como é improvável que, chegando, seja sólida e persuasiva — eu continuarei convencido de que a proposta de alteração ao Código Penal, atendendo a quem mais a promoveu, visava a gente branca. Aliás, isso mesmo foi explicado directamente a João Pedro George, no seu mural de Facebook, por um dos seus amigos. Com a impante arrogância e a linguagem rasteira com que muitos destes novos “cientistas sociais” abordam as coisas e os outros, Simone Tulumello — pois é desse investigador do ICS que se trata —, depois de me chamar “obtuso” e, claro está, “racista”, explicou a George que, no fundo, eu tenho razão porque o racismo “é por definição uma forma de discriminação de pessoas não-brancas — etnofobia e racismo são duas coisas histórica e estruturalmente diferentes”. E após uma alusão a problemas estruturais na utilização das leis, Tulumello concluiu afirmando que “a criminalização do racismo é uma das coisas mais erradas a que pode apontar o movimento antirracista”.
Ou seja, a expressão “gente branca” que eu utilizei tinha e tem toda a razão de ser, e o ás de trunfo que o meu analista crítico julgava ter na mão revelou ser, no fim de contas, um mísero dois de copas, tão fraquinho que nem dá para aguentar o bluff, o faz de conta psicanalítico, de que J. P. George tanto gosta.