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(A) :: A espinha de vidro da Defesa

A espinha de vidro da Defesa

Em suma, investir na logística e na infraestrutura de suporte não é apenas investir na capacidade militar. É investir na resiliência do país.

Fernando Figueiredo
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Há uma ilusão confortável no pensamento militar ocidental que atravessa décadas: a ideia de que destruir um sistema de armas equivale a destruir uma capacidade. A Ucrânia tem vindo a desfazer essa ilusão de forma sistemática, metódica e até irreversível, para quem ainda não tinha compreendido a lição aprendida.

A guerra moderna não começa, nem termina, no sistema de armas. Começa muito antes, nos paióis de munições, nos depósitos de combustível, nos armazéns de peças de substituição, nas vias ferroviárias que transportam os sobressalentes, nas instalações de manutenção que mantêm os sistemas operacionais, nas redes de comunicações que ligam o comando ao terreno. Um carro de combate sem combustível é sucata com lagartas. Um F-16 sem peças sobresselentes é uma exposição estática de milhões de euros. Uma fragata sem munições é um alvo com bandeira.

O conceito de “espinha de vidro”, introduzido pelo Modern War Institute de West Point para descrever a fragilidade logística dos exércitos modernos, é mais do que uma metáfora. É um diagnóstico. As forças armadas ocidentais, e Portugal não fugiu à regra, construíram ao longo de décadas sistemas logísticos eficientes, mas optimizados para a paz, pensados para minimizar redundâncias e maximizar rendimento. O problema é que eficiência e resiliência raramente são a mesma coisa. E em tempo de guerra, é a resiliência que decide.

A Ucrânia demonstrou, com uma clareza que os analistas dificilmente conseguirão ignorar, que a rectaguarda deixou de existir como conceito operacional seguro. Distâncias que outrora garantiam protecção já não a garantem. Depósitos de combustível, nós ferroviários, portos, instalações de manutenção, postos de comando e plataformas logísticas tornaram-se alvos prioritários, não porque sejam espectaculares, mas porque são decisivos. Quem destrói a logística não destrói apenas o apoio. Destrói a capacidade de combater.

“Um exército marcha sobre o seu estômago”, já dizia Bonaparte, a que Napoleão nas suas campanhas traduzia dizendo aos seu estado-maior que “o amador fala de estratégia. O profissional fala de logística.” Nas Academias Militares qualquer catedrático da Táctica das Armas aceitava a velha máxima de que “a táctica ganha batalhas, mas é a logística que ganha guerras”. Um exército sem logística é apenas uma multidão fardada, dizia o Oficial para quem a logística é para a guerra o que o sangue é para o corpo humano: quando deixa de circular, tudo o resto deixa de funcionar.

Centralizar, reduzir redundâncias, externalizar serviços, diminuir stocks e eliminar capacidades consideradas excedentárias é racional em tempos de paz. O problema é que a guerra não recompensa a eficiência; recompensa a eficácia. Uma cadeia logística militar não pode deixar de reparar equipamentos porque a oficina própria é mais cara do que um contrato externo. Na Defesa, a eficiência é importante, mas vem depois da eficácia. A função de uma logística militar não é ser barata; é garantir que a força continua a combater quando tudo o resto começa a falhar.

Ou seja, esta lição não é nova na teoria. É nova na prática contemporânea, à escala, com a combinação de drones e misseis de longo alcance, ataques de precisão, guerra electrónica e operações cibernéticas que a Ucrânia tornou rotina. As forças ucranianas não se focam em apenas destruir o sistema de armas. Já aprenderam que apenas precisa de o isolar da sua cadeia logística, e o isolamento, numa arquitectura optimizada para a eficiência, pode ser mais fácil do que parece.

A questão que se coloca às forças armadas europeias, e à NATO no seu conjunto, é, portanto, dupla.

A primeira dimensão é física: a capacidade de distribuir, dispersar, replicar e manter operacional uma rede logística sob pressão contínua. Não basta ter sistemas de armas. É preciso garantir que esses sistemas podem ser sustentados quando as condições deixam de ser as ideais: quando as rotas principais estão cortadas, quando os depósitos centrais estão comprometidos ou quando a comunicação é degradada. A redundância, durante décadas encarada como cara, desnecessária e até sinónimo de ineficiência, tornou-se um requisito operacional.

A segunda dimensão é digital: as mesmas vulnerabilidades que afectam a logística física afectam igualmente as arquitecturas de dados, as redes de comunicações, os sistemas de comando e controlo, as plataformas de autonomia e os serviços digitais que sustentam as operações modernas. Uma capacidade que depende de uma infraestrutura digital frágil é uma capacidade que funciona em demonstração nos “hackathons” e falha quando é necessária. A espinha de vidro não é apenas física, é também virtual.

Tudo isto para dizer que a discussão sobre Defesa não pode ficar limitada à aquisição de sistemas de armas. Tanques, navios, aviões, drones ou mísseis são apenas a parte visível da capacidade militar. O que determina a sua eficácia é a existência de uma infraestrutura logística robusta, resiliente e redundante que permita sustentá-los em combate e mantê-los operacionais sob pressão.

Isso implica investir na verdadeira espinha dorsal da segurança nacional e europeia: vias de comunicação, corredores logísticos, ferrovia, portos, aeroportos, pontes, redes energéticas, centros de armazenamento, comunicações seguras e infraestruturas digitais. São investimentos menos mediáticos do que a compra de armamento, mas frequentemente mais decisivos.

A vantagem destes investimentos é que não servem apenas a Defesa. Uma ponte capaz de suportar o trânsito de veículos militares pesados também melhora a mobilidade civil. Uma ferrovia preparada para movimentar equipamento militar reforça igualmente a competitividade económica. Um aeroporto com capacidade de projeção estratégica aumenta a conectividade regional. Redes digitais resilientes fortalecem simultaneamente a segurança nacional e a economia.

Em suma, investir na logística e na infraestrutura de suporte não é apenas investir na capacidade militar. É investir na resiliência do país.

Percebem agora porque a decisão da NATO de apontar para um investimento global equivalente a 5% do PIB reconhece precisamente esta realidade? É que destes, 3,5% destinam-se às capacidades militares tradicionais, mas os restantes 1,5% são reservados para áreas críticas de resiliência, mobilidade militar, infraestruturas estratégicas, cibersegurança, proteção de redes e capacidade logística. Num conflito moderno, a capacidade de movimentar uma brigada pode ser tão importante como a brigada em si; e a capacidade de manter abertas as linhas de abastecimento pode valer tanto como os sistemas de armas que elas sustentam.

Vejamos por exemplo, esta área da mobilidade militar europeia. A Europa e a NATO estão, neste momento, a fazer um movimento relativamente acelerado, mas muito incompleto nesse sentido embora já tenham sido lançados alguns programas para remover “gargalos” de mobilidade: reforço de pontes para cargas militares pesadas, harmonização de procedimentos fronteiriços para deslocações de forças, melhoria de corredores ferroviários estratégicos e investimento em portos e aeroportos com capacidade dual-use. Porém, neste momento, um Leopard2 para ser transportado por ferrovia de Santa Margarida para a Lituânia, encontra problemas na capacidade de carga das linhas e pontes, na disponibilidade de material ferroviário adequado e na compatibilidade entre redes nacionais. Ou seja, um carro de combate pode sair de Santa Margarida para a Europa de Leste, mas quando lá chegar já a situação pode ter mudado e provavelmente para pior.

Quando se fala da relevância estratégica portuguesa, a discussão concentra-se quase sempre nos Açores, mas o verdadeiro activo geopolítico nacional é mais amplo. Portugal possui alguns dos melhores pontos de entrada atlânticos da Europa — portos de águas profundas, aeroportos como Beja com elevada capacidade de projeção (APOD) e infraestruturas marítimas de desembarque (SPOD) com enorme potencial para apoiar movimentos logísticos transatlânticos. Num cenário de reforço da NATO, forças e equipamentos provenientes da América do Norte poderão entrar na Europa através do território português. A questão decisiva, como atrás se referiu, é saber se conseguimos depois projetá-los rapidamente para o resto do continente.

Em termos simples: a Europa está a tentar corrigir décadas de subinvestimento nesta “espinha de vidro”, mas ainda está num processo de transição. E Portugal, apesar de beneficiário direto dessa nova lógica (sobretudo pela posição atlântica e pelos portos), ainda está mais numa fase de “logo se vê” do que de transformação estrutural profunda.

Ainda assim, o caso português merece reflexão. Portugal ocupa neste contexto uma posição que causa alguma honestidade desconfortável. Do lado da opinião pública, os dados são surpreendentemente positivos. Segundo uma sondagem do European Council on Foreign Relations divulgada em Junho de 2026, Portugal é o país europeu que mais apoiaria contrair dívida comum para financiar a defesa, com 59% dos inquiridos a favorecerem essa hipótese, acima da Dinamarca, Países Baixos e Espanha, e muito acima da média europeia de 22%. O apoio ao aumento do orçamento de defesa para reduzir a dependência dos EUA subiu de 26% para 42% em apenas um ano. E 53% dos portugueses apoiam o envio de tropas para uma missão de paz na Ucrânia após o fim do conflito, colocando Portugal entre os quatro países europeus mais favoráveis a essa possibilidade.

A opinião pública portuguesa, em suma, compreendeu o momento. A sociedade está à frente do sistema.

Porque do lado da execução, o quadro é diferente. Em 2024, Portugal falhou a meta de gastos militares comprometida com Bruxelas e perdeu o “desconto” nas regras orçamentais europeias que a cláusula de derrogação permitia precisamente para quem investisse em defesa. Em 2025, Portugal subiu a despesa em Defesa numa ordem de grandeza próxima de 1,6% do PIB, e embora este valor represente uma convergência gradual face ao passado socialista, em que o esforço se situava frequentemente mais próximo de 1,1%, o país continua ainda abaixo da nova referência coletiva de ambição reforçada dentro da Aliança Atlântica. Ou seja, o país que mais apoia endividar-se para a defesa é o mesmo que não consegue gastar o que prometeu gastar. Não é uma contradição menor. É uma contradição estrutural.

O problema não reside propriamente na vontade do Ministério da Defesa Nacional nem na disponibilidade dos chefes militares dos diferentes ramos, que têm vindo a insistir, de forma consistente, na necessidade de reforço da prontidão, da logística e da modernização das capacidades. A questão central situa-se num nível anterior: na definição política da prioridade da Defesa dentro da estratégia global do Estado e, sobretudo, na forma como essa prioridade é traduzida em opções orçamentais concretas.

É aí que o debate se dilui. A Defesa depende de decisões tomadas ao nível do Primeiro-Ministro cuja reserva nestas matérias é notada e do Ministério das Finanças, onde a política pública é frequentemente condicionada por constrangimentos de curto prazo e por uma leitura agregada das diferentes fontes de financiamento. Neste contexto, a separação entre instrumentos como o PRR, o orçamento nacional ou outros programas extraordinários tende a tornar-se difusa, criando a perceção de que há disponibilidade financeira quando, na prática, existe apenas uma redistribuição contabilística de recursos limitados. O resultado é um paradoxo: comunica-se investimento em milhões, mas executa-se gestão em cêntimos. Projetam-se ambições estratégicas, mas operacionalizam-se compromissos mínimos.

No fim, o risco maior não é a falta de discurso sobre defesa, mas a erosão da sua credibilidade prática. Porque, no terreno institucional, o que não é financiado de forma clara, previsível e sustentada não passa de intenção e intenções, por muito bem formuladas que sejam, não substituem capacidade operacional.

Se não existe orçamento disponível, então que haja pelo menos clareza e honestidade no debate. Discutir a substituição dos F-16 em torno da “melhor opção tecnológica” ou da “soberania estratégica europeia” torna-se um exercício quase académico quando o verdadeiro problema é o que todos sabem, mas todos fingem não saber. Porque falar de F-35, de soluções europeias ou de autonomia estratégica quando o esforço orçamental não acompanha sequer as necessidades correntes arrisca transformar um debate estratégico numa conversa de catálogo. É como discutir a marca do próximo automóvel quando não há dinheiro para abastecer o que está na garagem.

Há uma consequência política que merece ser dita com clareza: investir em defesa não significa apenas comprar mais sistemas. Significa também investir na sustentação desses sistemas. Significa construir redundância logística, proteger infraestruturas críticas, desenvolver cadeias de abastecimento resilientes, e garantir que os sistemas digitais que suportam as operações militares são suficientemente robustos para sobreviver a um ambiente contestado.

Os debates sobre despesa em Defesa centrados em quantos Boxer adquirir, quantos aviões encomendar ou quantas fragatas comprar são sedutores porque produzem números fáceis de comunicar, comparar e exibir. São capacidades visíveis e politicamente rentáveis, mas sem o investimento correspondente em logística, manutenção, munições, infraestruturas, mobilidade militar, reservas e cadeias de sustentação resilientes, em suma, sem capacidade financeira para tal, grande parte desse discurso não passa de uma ilusão de capacidade. E a diferença entre propaganda e capacidade militar efetiva não aparece em tempo de paz; aparece na guerra.

Para Portugal, a lição é dupla. A sociedade demonstra uma maturidade estratégica que o sistema político ainda não transformou em execução. Apoiar a defesa nas sondagens custa zero. Executar os orçamentos prometidos, construir resiliência logística real, e garantir que as Forças Armadas têm não apenas capacidades, mas a capacidade de as sustentar sob pressão, isso exige escolhas concretas, prioridades reais e a coragem política de cumprir o que se assina.

A Ucrânia aprende esta lição debaixo de fogo, civis e crianças incluídos. A Europa, e Portugal com ela, tem a oportunidade de a aprender de outra forma. A questão é se aproveitará essa oportunidade antes de ser tarde. As sondagens dizem que os portugueses já perceberam o que está em jogo. Falta que os orçamentos digam o mesmo. E falta que os políticos assumam com coragem essa prioridade!