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(A) :: Yesteryear

Yesteryear

Yesteryear é a história de uma “influencer” que vive com o seu marido (de uma família muito abastada) numa quinta e grava vídeos sobre a sua vida doméstica com uma prole em constante crescimento.

Patrícia Fernandes
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1 A tecnologia

O aspeto que mais me surpreendeu nos primeiros episódios de Outlander não foi que a protagonista fosse misteriosamente transportada para 1743 ao tocar nas pedras de Craigh Na Dun – a literatura está repleta de histórias assim. O que mais me surpreendeu foi o facto de Claire se adaptar tão rapidamente ao mundo do século XVIII. Cozinhar daquela maneira, lavar a roupa assim, não haver casas de banho?

Pensemos melhor. A história começa no final da segunda guerra mundial e, por isso, talvez não seja inimaginável que se pudesse viajar dois séculos para trás sem se ficar paralisada com a diferença tecnológica. Mas isto mostra-nos quando é que tudo começou realmente a mudar. As inovações tecnológicas desde o final da guerra foram de tal ordem, e continuaram com tal rapidez, que hoje nenhuma mulher do mundo ocidental seria capaz de se orientar no século XVIII.

Temos de reconhecer que, apesar do discurso vitorioso das feministas, foi o desenvolvimento tecnológico a transformar a condição das mulheres na segunda metade do século XX. Não ficarem dependentes de manter o fogo vivo, não perderem horas a lavar roupa – secar roupa – passar roupa, terem máquinas de lavar loiça, aspiradores e frigoríficos.

Foi esta grande transformação a tornar obsoleta a vivência feminina e o modo como as sociedades se organizavam. Em Portugal, ainda está por fazer a história das criadas, as meninas que iam da aldeia para as vilas ou para as cidades para ajudar uma família (às vezes só um pouco mais rica), dedicando a ela toda a sua vida e a quem a família se apegava com carinho (e não foi assim há tanto tempo).

A tecnologia doméstica transformou a esfera doméstica, embora curiosamente não nos tenha dado o condão de gerir bem o tempo: quanto mais tecnologia temos, menos tempo parecemos ter. Mas é verdade que permitiu reorganizar os “papéis de género” e, assim, transformar as expectativas das mulheres, libertando-as das funções tradicionalmente desempenhadas para poderem, finalmente, ser o que quisessem.

O problema é que as mulheres não parecem estar hoje mais felizes.

2 As tradwives

Com a pandemia tudo mudou. Fechadas em casa com a família, muitas mulheres descobriram que, afinal, gostavam de cozinhar, ter tempo para estar com os filhos, reorganizar a casa. As lojas de decoração tiveram picos de venda; as máquinas de fazer pão tornaram-se populares; nas redes sociais multiplicaram-se os vídeos com receitas de comida e conselhos para tarefas domésticas. E, nos Estados Unidos, começaram a proliferar contas de “tradwives” [esposas tradicionais].

A expressão em língua inglesa remete para uma “tendência da internet” pela qual muitas mulheres (geralmente muito novas) se apresentam, prazerosamente, em atividades domésticas – as tradicionalmente atribuídas à mulher e que tinham sido apagadas pela tecnologia doméstica, pela produção industrial e pela dedicação das mulheres à esfera profissional. Estas jovens mulheres apareciam agora a cozinhar “como antigamente”, a vestir-se “como antigamente”, a organizar a casa “como antigamente” e a dizer coisas “de antigamente”, como a ideia de que as mulheres sentem prazer em dedicar-se mais à casa e à família do que a uma vida profissional.

Tudo isto, já sabemos, é muito polémico nos nossos dias – em particular, quando se fala da dedicação à família. Para o mundo progressista, ter filhos pode ser uma escolha aceitável, mas ser dedicada ao marido é revelador de que algo de errado se passa com aquela mulher (basta ver um recente artigo do Público sobre o tema), pelo que as reações às “tradwives” se traduzem geralmente em expressões indignadas de pena ou revolta.

Poucas mulheres tiveram mais experiência dessas reações do que Hannah Neeleman, uma das mais famosas esposas tradicionais dos Estados Unidos (embora ela decline a descrição) por ter milhões de seguidores nas contas associadas à sua Ballerina Farm. [Na pesquisa para este texto descobri que é casada com o filho de David Neeleman, o antigo acionista da TAP: coincidências do mundo globalizado.]

O casal vive numa quinta com os seus 9 filhos e as imagens que mostram Hannah a desempenhar variadíssimas tarefas domésticas provocam fascínio e devoção em milhões de seguidoras – bem como um exército de críticos, em especial pelo facto de Hannah fazer parecer fácil lidar com uma prole tão grande. Mas ela não esconde a dificuldade:

“Ser pai ou mãe é difícil, mas o que há na vida que tenha sentido e não seja difícil? A universidade é difícil. Ter uma carreira é difícil. Gerir o próprio negócio é difícil. É tudo difícil, mas fazemo-lo porque há um propósito nisso. E, assim, ser pai ou mãe é difícil, mas é tão fantástico ver estes pequenos seres humanos a crescer, a descobrir coisas, a ensinar-nos coisas e a tornar-se os líderes do futuro.”

Como vivemos num tempo em que tudo tem de ser fácil (definitivamente, não saberíamos o que fazer caso fôssemos transportadas no tempo), Hannah tornou-se inspiradora.

3 Yesteryear

E, de facto, parece ter sido a inspiração para Yesteryear, o livro que Caro Claire Burke publicou no início deste ano e se tornou num êxito de vendas nos Estados Unidos (a adaptação a filme já está garantida). Apesar de extenso (na tradução portuguesa tem 432 páginas), o livro lê-se de um fôlego e é uma excelente leitura de praia: leve, por vezes divertido, muitas vezes desconcertante.

Yesteryear é a história de uma “influencer” que vive com o seu marido (de uma família muito abastada) numa quinta (Yesteryear) e grava vídeos sobre a sua vida doméstica com uma prole em constante crescimento (os vídeos, claro, não mostram a verdadeira realidade). A dada altura, é misteriosamente transportada para o século XIX e é nesse momento que se vê confrontada com as verdadeiras dificuldades de uma vida tradicional (tudo isto está envolto num enquadramento religioso ambíguo, mas deixo esse aspeto para mais tarde).

Ouvindo as entrevistas da autora, o objetivo do livro não é claro. Por vezes, Caro Burke dá a entender que a sua crítica não visa as “tradwives” em si, mas as “tradwives” que são “influencers” e ganham dinheiro com uma imagem falsa e artificial (Caro identifica-se politicamente com o marxismo); noutras vezes, afirma estar a criticar a América atual como país nacionalista cristão e o seu fundamentalismo religioso (Caro foi educada como católica). E ficamos sem perceber se o problema está no fingimento (o facto de estas mulheres tentarem influenciar enganando as suas seguidoras) ou se está na honestidade (o facto de as esposas tradicionais acreditarem realmente e por convicção religiosa no tipo de vida que levam).

A leitura do livro inclina-nos mais para a primeira hipótese: Natalie, a protagonista de Yesteryear, duplica-se na vida digital (“a Natalie Online”) e cria um mundo falso que tem apenas em vista manter os seus seguidores. Esse desdobramento mental é, provavelmente, a causa da situação em que se encontra (estou a evitar contar o final) e a sua relação com a religião tem um cariz essencialmente transacional, pelo que não é representativo do fundamentalismo que Caro Burke diz criticar.

É possível que a ambiguidade da autora decorra de ela perceber o fascínio pelas “tradwives” como resposta à insatisfação com a vida moderna – o labirinto em que as mulheres se veem forçadas a entrar, como uma das personagens do livro explica – e de como a ideia de que é possível ter uma vida doméstica tranquila permitiria acalmar os instintos femininos mais atávicos, que nos segredam ao ouvido que nem tudo é uma questão de género, patriarcado e poder.

Muitas pessoas olham para este fascínio e arrumam-no rapidamente na caixa da extrema-direita (evitam assim pensar profundamente, é compreensível), mas Caro não o faz e o livro vale a pena por isso. O problema foi ter criado uma Natalie unidimensional: uma espécie de paródia tão desagradável e desagradada com tudo que não parece real. E quando terminamos a leitura percebemos que o problema não está só na personagem principal: todas as mulheres do livro – mesmo as adolescentes – são rancorosas, iradas, desagradáveis. E é isso que é mais surpreendente: desde quando é que as mulheres se tornaram tão zangadas?