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(A) :: O mundo fala ao contrário

O mundo fala ao contrário

Se achas que o mundo fala ao contrário, esquece. Deixa que te levem pela mão. Faz mais exercício, tem uma alimentação equilibrada e medita. Nem tudo está perdido: o teu bem-estar é a sua prioridade.

Eduardo Sá
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Se achas que te esforças demais e ganhas de menos, pensa positivo. Pelo menos trabalhas.

Se há quem te magoe ou desconsidere, respira fundo. Na pior das hipóteses, vais ter alguém a dizer-te “lamento”. Ou, quando muito, a entender as tuas dores em relação ao que te disse como “um problema de comunicação”.

Estás assustado com alguma coisa que te preocupa? Fala; se entenderes que um desabafo te ajuda. Mas, puxando da empatia, vê que há sempre alguém que se apressa a dizer-te: “vai ficar tudo bem”.

Achas o mundo distante das pessoas? Estás baralhado. Desde a segurança social às grandes empresas, todos reclamam um “direct” qualquer. Para estarem perto de ti e os teus problemas se resolverem depressa. Se, vais a ver – depois de mails, mensagens e assistentes virtuais – perdes muito mais tempo e aquilo que tinhas para resolver permanece à espera de respostas, não te insurjas. Há sempre uma dificuldade “no sistema” que o justifica.

Se achas que há excluídos, pára; o mundo é cada vez mais atento à inclusão. E se a saúde te assusta, não exageres: há imensos cartazes (bucólicos) a falar da humanização. Se o elevador social pára num piso pré-definido à partida, a culpa não é da escola; tudo é uma questão de elevação. Se o mundo desgoverna recursos ou evita antecipar os custos da sua insensatez, não te precipites: nunca, como agora, há um discurso em que se não fale de sustentabilidade. E sempre que te passe pela cabeça que a paridade é uma miragem, pensa melhor: as quotas servem para tu reconsiderares.

Se entendes que já não se pode ouvir tanta gente a encher a boca com auto-ajuda, agradece. O futuro passa por controlar emoções, modular comportamentos e espantar pensamentos intrusivos. Ter medo ou estar triste passarão a ser simples fraquezas. E quanto mais indiferente te tornares mais saúde mental tu terás.

E se, num dia mau, és levado a achar que o mundo deixou de ser plural, nada de ser impulsivo. Em todos os canais há uma multidão de comentadores que explicam a insanidade humana como quem conta histórias às crianças para que adormeçam.

Ou se, sombrio de todo, imaginas que o digital te consome, puxa pela gratidão; até as redes sociais, amiúde, te recomendam: “hora de fazer uma pausa na navegação”.

Se, finalmente, achas que o mundo em que tu vives fala ao contrário, esquece. Deixa que te levem pela mão. Faz mais exercício, tem uma alimentação equilibrada e medita. Nem tudo está perdido: o teu bem-estar é a sua prioridade.