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Depois da chegada a Palm Beach com uma rápida passagem pela alfândega até ao autocarro que conduziu a equipa até ao hotel onde irá estagiar, as primeiras imagens da Seleção Nacional foram basicamente na praia. Queria isso significar algum tipo de relaxamento? Não. É simples: sem treinos de manhã mas estando numa concentração, os jogadores portugueses mais não fizeram do que aquelas caminhadas de descompressão que são habituais, com a diferença de terem os areais de Palm Beach à sua frente, junto da unidade hoteleira e com um espaço reservado. Recuemos a 2014, quando o Brasil organizou o Mundial. Quem ganhou? A Alemanha. E onde ficou? Na Vila de Santo André, em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia, com um complexo que foi desenhado com ajuda dos próprios responsáveis germânicos e que ficava em frente a uma zona de praia.
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O “mito” da praia estava desfeito, havia outro “mito” agora por combater: trabalhar melhor e ter um estágio acima dos outros não poderia ser conciliado com abertura ao meio exterior. Aí, Curaçau queria dar um (bom) exemplo. Num pequeno ápice, o país mais pequeno em termos de território (444 km2) e população (155 mil habitantes) a participar num Campeonato do Mundo tornou-se na seleção querida de muitos adeptos do futebol não só pela história da qualificação com o veterano Dick Advocaat no banco mas também pela forma como comunicavam para fora, com uma Blue Wave construída com vários vídeos de bastidores, as danças e músicas caribenhas nos treinos e no balneário e uma ligação sempre empática com todos aqueles que se aproximavam da equipa nos EUA. Questão: seria isso suficiente para uma história de David e Golias?
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“Começar logo frente à Alemanha é fantástico, saberemos imediatamente em que nível estamos. Queremos chegar à próxima fase. Uma surpresa é sempre possível. E, às vezes, isso é suficiente para avançar. Temos hipóteses, há muita ambição nesta equipa. Quando se tem isso, pode-se conquistar muita coisa”, dizia Advocaat no lançamento de uma partida que também seria histórica para si, tornando-se o selecionador mais velho de sempre em jogos de Mundiais (e defrontando o mais novo do Mundial-2026, Julian Nagelsmann). “Já tivemos várias conversas. Eles são uma boa equipa, com jogadores que vêm dos Países Baixos. Mas nós somos favoritos. Não há pressão. Vamos entrar confiantes e demonstrar que somos bons”, garantira Nico Schlotterbeck, afastando qualquer tipo de falta de humildade que pudesse colocar em causa essa vantagem.
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Coincidência ou não, foi o central do B. Dortmund que recolocou a Alemanha como Golias no resultado após ter passado por David durante a primeira parte. A entrada foi forte, com Nmecha a inaugurar o marcador no nono minuto após combinação com Florian Wirtz em corredor central à entrada da área e com os germânicos a conseguirem criar várias oportunidades para aumentarem a vantagem. No entanto, uma série de erros e saídas com passes desastrados a partir de trás acabou por dar outra vida a Curaçau, que chegou mesmo ao empate com um golo de Livano Comenencia aproveitando uma segunda bola na área entre muita passividade dos germânicos (21′). A história estava feita pela seleção que ocupa o 82.º lugar do ranking mundial até que Schlotterbeck conseguiu recolocar a Mannschaft na frente, desviando ao primeiro poste um canto batido por Brown (38′). E não ficaria por aí: após um penálti sobre Nmecha, Havertz marcou o 3-1 (45+5′).
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Dick Advocaat sabia que tinha a equipa encostada às cordas e tentou uma abordagem um pouco diferente para o segundo tempo, com mais tempo de posse com bola e subindo os blocos quando estava a defender. No entanto, pior reentrada era impossível: nos instantes iniciais da segunda parte, Musiala conseguiu ganhar espaço numa desmarcação de rutura e rematou cruzado na área para o 4-1 (48′). Estava dado o mote para uma quebra definitiva de Curaçau, primeiro em termos anímicos e depois, quase como consequência, no plano físico. De forma natural, a Alemanha, que tem uma filosofia que tenta mostrar respeito pelo adversário tentando não tirar o pé do acelerador, foi ampliando o volume da segunda goleada deste Mundial depois do EUA-Paraguai, com Nathaniel Brown a marcar o 5-1 (68′) e Deniz Undav a saltar do banco para marcar o 6-1 naquela que foi a segunda assistência da partida de Joshua Kimmich, outro dos destaques (78′). A dois minutos do final, Kai Havertz, que melhorou após “descer” no relvado, sentenciou o 7-1 final, passando a ser o melhor marcador da competição até este momento a par do norte-americano Balogun (dois golos).
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A estrela
- A constelação de estrelas que a Alemanha tem do meio-campo para a frente abre um sem-número de possibilidades para as opções iniciais de Julian Nagelsmann. É um luxo, bastando apenas olhar para um banco que tinha Woltemade, Undav, Beier, Ouedraogo ou Amiri, entre outros. Felix Nmecha, que voltou a ter uma grande época pelo B. Dortmund, mereceu e justificou essa oportunidade, sendo um dos melhores do ataque germânico entre um golo e a falta que originou o 3-1 de Havertz. Não sendo um adversário capaz de colocar em causa aquilo que são as dinâmicas ofensivas da Mannschaft, Nmecha teve o mérito de conseguir levar sempre tudo a sério e ser um dos destaques frente a Curaçau.
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O joker
- Havia dois nomes em disputa direta para este “prémio”. Por um lado, Manuel Neuer, guarda-redes que teve uma temporada fantástica no Bayern aos 40 anos e acabou mesmo por regressar à seleção para ficar como dono e senhor da baliza. Por outro, Nathaniel Brown, lateral esquerdo com ascendência norte-americana do Eintracht que foi a maior surpresa no coletivo de Nagelsmann (e marcou mesmo um golo). Ainda assim, houve um nome que, não marcando nem dando tanto nas vistas como é normal, voltou a mostrar que vai ser uma peça fulcral naquilo que a Mannschaft faça no Mundial: Florian Wirtz. Joga muito, faz jogar ainda mais e, com boa complementaridade com Musiala, mostrou a sua importância.
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A sentença
- Com este triunfo a abrir por números folgados, a Alemanha fica agora à espera do desfecho do Costa do Marfim-Equador para perceber quem será o adversário direto na liderança do grupo E (podendo no limite jogar com um empate, pela vantagem conseguida no encontro inaugural). Já Curaçau, que nem com uma goleada perde aquela energia de quem veio aos EUA para fazer a festa, tem como principal desafio a missão de poder lutar por pontos ou até mesmo por uma vitória na fase de grupos que possa abrir a possibilidade de qualificação para a fase a eliminar. Próximo adversário? O Equador.
A mentira
- Apesar de toda a empatia que uma equipa como Curaçau pode gerar, e que ficou também bem patente nas bancadas do estádio de Houston ao longo da partida, a diferença em relação àquele que deve ser tido como o nível Mundial é grande. Muito grande mesmo. A qualificação para os próximos Mundiais já será mais complicada, com a presença de EUA, México e Canadá na luta por essas vagas, e o golo conseguido a meio da primeira parte que fez de forma momentânea o empate acabou por ser a “mentira” do jogo, numa fase em que a Alemanha “relaxou” e acabou por sofrer. Essa fica também como a grande lição para os próximos adversários da “Onda Azul”: mesmo sendo superiores, não podem facilitar…
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