Escrevia na semana passada que “Temor e Tremor” do Soren Kierkegaard é a seguir à Bíblia o meu livro preferido. Uma afirmação destas não se livra de alguma medida de ridículo, até porque só li este livro duas vezes do início ao fim. Mas até o reconhecimento do ridículo é algo que considero fundamental na vida de uma pessoa, também graças à influência do “Temor e Tremor”. Como regra geral, não respeito gente que sabe esconder o ridículo. Ensinou-me a Bíblia e o Kierkegaard.
Tento evangelizar todas as pessoas neste evangelho duplo da Bíblia e do Kierkegaard. Tanto assim é que durante o mês de Junho a aula de Escola Bíblica Dominical que ensino na Lapa é acerca do “Temor e Tremor”. Tenho a noção da dificuldade. Relembro uma história que creio que já aqui contei: há uns anos convenci o baterista das minhas bandas, o Joel Silva, a ler o Kierkegaard. Começou pelo “Desespero Humano” e, frustrado, devolveu-me o livro uns meses depois sem ter percebido nada.
Nasceu-me naquele dia uma vocação futura: um dia o meu magnum opus será o livro que escreverei para o meu fiel amigo Joel, explicando em linguagem mais acessível do que a do escritor dinamarquês a razão porque ele deve ser lido por todos. O livro vai chamar-se “Kierkegaard Para Bateristas” e finalmente conquistará a crítica sofisticada que tem ignorado todos os meus anteriores. Uma pessoa precisa de objectivos na vida.
Sim, o Kierkegaard não é um escritor acessível. Mas desde quando é que as pessoas que nos marcam são escolhidas em termos de acesso? As nossas existências não dependem de “regimes da acessibilidade a edifícios e estabelecimentos”. Não somos casas que foram arquitectadas; somos, na melhor das hipóteses, vivendas saloias que se foram construído entre momentos de alguma prosperidade e alguma penúria. Autores acessíveis são óptimos para condomínios fechados.
“Temor e Tremor” é uma meditação imaginativa sobre o sacrifício de Isaque pelo seu pai Abraão. Deus ordena que Isaque, o filho prometido que só chegou na velhice, deve ser sacrificado como prova da fé de Abraão. “Abraão, montado no seu burro, seguia com a tristeza em frente e Isaque ao seu lado. (…) Caminharam em silêncio durante três dias. (…) A partir deste dia Abraão envelheceu; não pôde esquecer aquilo que Deus lhe exigira”. Kierkegaard não escreveu um livro, realizou um filme.
O que sai daqui? “Paradoxo é a fé, paradoxo capaz de fazer de um crime um acto santo e agradável a Deus, paradoxo que devolve a Abraão o seu filho, paradoxo que não pode reduzir-se a nenhum raciocínio, porque a fé começa precisamente onde acaba a razão.” E as linhas do livro vão complicar-se mais ainda, com o pensador dinamarquês a demorar-se em ironias da mitologia grega, em bocas directas a Hegel, e finalmente em distinguir entre uma vida estética, outra ética e a superior: a religiosa.
Quando relia o livro ao início sentia-me no céu, ainda mais arrebatado do que na primeira leitura de há 26 anos. Nas partes complicadas avancei teimosamente sabendo que o fim chegaria. Quando acabei a leitura, sempre o meu momento preferido dela, o arrebatamento tinha passado mas a certeza confirmou-se: não há autor que tenha feito tanta mossa na minha vida como o bom Kierkegaard.
Para Kierkegaard o cristianismo não é uma religião com a capacidade moral de conquistar a admiração do mundo. Pelo contrário, Abraão é um exemplo “porque a sua vida é como um livro sob sequestro divino. (…) Está só em todos os momentos”. Os três dias que distanciaram a morte de Jesus da sua ressurreição são os três dias da angústia de Abraão a caminho de sacrificar o seu filho, exemplo para qualquer crente, chamado a prescindir dos seus sentimentos e raciocínios para que a sua fé seja a sua personalidade, contra tudo e contra todos, se necessário.
A pessoa que aceita as circunstâncias absurdas que o cristianismo nos exige terá um inesperado final feliz: “então, levantou Abraão os seus olhos e olhou, e eis um carneiro detrás dele, travado pelas suas pontas num mato; e foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho” (Génesis 22:13). Continua a ser difícil compreender Kierkegaard? É sinal provável de que tinha razão. Sem medo do ridículo, um baterista chega lá tranquilamente.