A Seleção Nacional aterrou finalmente num relvado norte-americano. Depois do aeroporto, do hotel, da piscina e até da praia, Portugal já treina também com bola no Gardens North County District Park. O complexo desportivo de 33 hectares foi inaugurado em 2019 e cresce de ano para ano. Foi a casa do Real Madrid no Mundial de Clubes do ano passado. Sofreu melhorias na altura e voltou a ter alterações para acolher Portugal.
Este primeiro treino português contou com centenas de olhares atentos. Imprensa nacional, dezenas de jornalistas estrangeiros, comunidade local, imigrantes portugueses e até alguns adeptos sortudos. Para além disso, o treino aconteceu também sob forte controlo policial, com agentes à porta do campo, nos corredores do centro de estágios, na entrada do complexo e nas ruas que dão acesso a este vasto centro desportivo.

Sobre o treino, atenções para Rúben Dias que não acompanhou a equipa nos exercícios de grupo. Fez trabalho à margem devido a um problema físico. “Nada de grave”, garante a Federação Portuguesa de Futebol, “apenas trabalho específico”.
Rafael Leão também preocupou. No início do treino, numa pequena peladinha, o avançado foi ao chão com queixas. As bancadas perceberam logo e não tiraram os olhos do jogador. Foi só um susto que durou poucos segundos. Terminou com um aplauso para Leão que respondeu com um sorriso.
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O treino durou pouco mais de uma hora e aconteceu com os termómetros a marcarem 87º Fahrenheit – cerca de 31º Celsius. O trabalho da seleção centrou-se principalmente no ensaio de momentos ofensivos. De um lado remates à baliza e ensaio de “tabelinhas”, do outro, em campo reduzido, 4 para 4 em treino de aproximação à zona de finalização. No fim, foto de grupo com os adeptos nas bancadas e já com o sol para lá do horizonte, os “bombardeiros” ensaiaram remates de fora de área: Bruno Fernandes, Vitinha, Gonçalo Ramos, Samu Costa, Matheus Nunes, João Neves e Rúben Neves. Na baliza, José Sá, Rui Silva e Diogo Costa responderam com defesas apertadas.
Uma pulseira oferecida por Montenegro
Na primeira conferência de imprensa em solo norte-americano, Vitinha foi o jogador escolhido para falar à imprensa. O médio do Paris Saint-Germain falou da ambição da equipa e deixou uma promessa para os adeptos: “Vamos deixar tudo em campo, não só pelo que representa para nós jogar o Mundial, mas por toda a nação”.

O craque que surge entre os favoritos à conquista da Bola de Ouro foi também desafiado a responder ao que falta para conseguir o primeiro golo com a Seleção Nacional, uma vez que já cumpriu 38 internacionalizações. Entre risos, confessa que não era preciso levantar essa estatística, para depois dizer que “importante é ajudar a equipa” e que “o golo vai surgir com naturalidade”.
Na conferência de imprensa, Vitinha foi ainda questionado sobre pulseiras. Todos os jogadores portugueses surgiram em Palm Beach com uma pulseira branca. Vitinha não quis responder. Disse que não sabia se podia revelar. Mais à frente, depois de ser autorizado pelo assessor de imprensa, lá explicou: “Luís Montenegro ofereceu-nos esta pulseira e certificou-se de que é uma pulseira que podemos usar dentro de campo. Tem o nome de todos os jogadores, juntamente com o nome especial do Diogo Jota. Recebemo-la com bastante carinho e todos escolhemos usá-la”.


Casa cheia de jornalistas com pastéis de nata no frigorífico
Para chegar ao relvado em que treina a seleção, os jornalistas são primeiro encaminhados para o centro de imprensa. É aí que encontramos um vasto complexo preparado para acolher os olhares atentos de todo o mundo. A comitiva de jornalistas portugueses já é vasta, mas o interesse na equipa portuguesa fez com que fosse difícil encontrar lugares vazios numa sala de imprensa bem preparada para a dimensão que a equipa assume neste Mundial.
Assim que passamos a porta respiramos de alívio por sair do calor abafado de Palm Beach e por encontrar um ar condicionado forte. Também à entrada, há fruta, barras energéticas, café e um frigorífico. Lá dentro, três prateleiras com água e outra cheia de pastéis de nata. A Federação Portuguesa de Futebol queria ter mais “portugalidade”. Procurou quem fizesse uns salgados, “uns pastéis de bacalhau tinha sido bom”, confessa um membro do staff, “mas conseguimos os pastéis de nata. Sirvam-se. Os estrangeiros estão a levar todos”.

O Observador tentou perceber o que atrai tanto estrangeiro. Ronaldo é uma resposta óbvia, mas a equipa portuguesa já vive também de outras estrelas para lá de CR7. “Há aqui muitos campeões”, confessa Manuel Bravo, jornalista mexicano: “Esta equipa está motivada. Estão entre os favoritos. Querem passar despercebidos e esconder esse favoritismo, mas eu acho que podem ganhar”.
Um representante da Comissão de Desporto de Palm Beach revela ao Observador que se inscreveram 120 jornalistas para este treino da Seleção Nacional. Encontramos imprensa da Costa Rica, México, Argentina, Venezuela, Colômbia, Estados Unidos, Espanha, Brasil e França. Mas não falámos com todos.

John Evenson, da CBS 12 News, é um jornalista que trabalha na região de Palm Beach. Ao Observador aponta para um evento de sucesso da equipa portuguesa ao analisar o treino aberto à comunidade local: “Vi crianças emocionadas, com lágrimas nos olhos quando os jogadores subiram ao relvado”. Sobre as possibilidades de Portugal, John confessa que “nos EUA todos sabem que a seleção portuguesa está entre os favoritos” e que “são uma potência do futebol mundial”.
Da Costa Rica viajou Gabriela Gimenez que assume que é “impossível fazer a cobertura de um Mundial sem acompanhar o trabalho de Cristiano Ronaldo”. A jornalista diz que “desta vez, Ronaldo tem a companhia de jogadores de qualidade” e que por isso “Portugal tem condições para lutar pelo título”.

“Invasão de ronaldos”, lágrimas e imigrantes
O treino de Portugal não estava aberto a todos. Foi oferecido à comunidade local, mas para entrar era preciso apresentar o convite. Os bilhetes foram oferecidos a representantes da comunidade portuguesa, a vizinhos do complexo desportivo, a membros da autarquia local, a funcionários do centro de treinos e a alguns adeptos sortudos. Ticha Penicheiro, a portuguesa que brilhou na WNBA durante 15 épocas e que em 2019 entrou no Women’s Basketball Hall of Fame estava entre os convidados.
Ainda antes do treino começar, quase com duas horas de antecedência, dezenas destes convidados entraram no Gardens North County District Park e foram encaminhados para o campo adjacente ao relvado em que iria treinar a Seleção Nacional. Aí encontraram pinos, redes, balizas, bolas, música e até um gigante insuflável para os mais novos.


Quase todos vestiam as cores de Portugal e nas costas uma constante – o número 7. Foi uma autêntica “invasão de ronaldos”. Dezenas e dezenas de crianças que aproveitaram para rematar às balizas, correr, saltar e gastar energia e ansiedade antes da chegada da equipa portuguesa.
Quando Portugal subiu ao relvado ecoaram os aplausos da bancada cheia. Foi um dos poucos momentos em que as mãos dos adeptos saíram da testa. O treino aconteceu com o sol de frente para a bancada o que dificultou muito a visibilidade para o relvado. Mesmo com chapéu e óculos de sol era difícil manter os olhos abertos. Mas nada que desanimasse quem finalmente podia ver os craques portugueses.
Da bancada, Michael Araújo, enche os pulmões e grita bem alto para o relvado: “Vamos ganhar esta m**** pá!”. Em “bom português” pede “o caneco” aos jogadores e pede palmas da bancada. “Vamos lá cantar! Temos de apoiar os nossos homens”. Ao Observador explica que é filho de portugueses, nasceu na África do Sul e foi ainda em criança que viajou para os EUA. Agora tem a Seleção Nacional como vizinha. Explica que nunca esqueceu a língua materna e que faz por treinar, mas os longos anos em solo norte-americano notam-se quando fala com orgulho da equipa: “É uma privilege estar aqui. Eles deservem o nosso apoio”. Michael Araújo ficou a dever uma ao amigo inglês que o acompanha: “Era preciso convite para vir aqui, mas o meu amigo conseguiu esses convites e ofereceu-me um. Agora tenho de pagar o jantar. Hoje vai comer bacalhau”.



