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(A) :: Seguro, o chato-mor

Seguro, o chato-mor

Ao se limitar a dizer banalidades, Seguro confunde moderação com o vazio. Precisamente quando as democracias precisam de políticos moderados com pensamento estruturado e sem medo de se expressarem.

André Abrantes Amaral
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Cheguei a ponderar, depois de dez anos a escrever sobre o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, nada dizer sobre o presidente António José Seguro simplesmente porque é difícil escrever sobre nada. Apesar da análise negativa que fiz dos dois mandatos de Marcelo, o ex-presidente era de pensamento rápido e acessível, fruto de uma inteligência superior, e gostava de antecipar cenários políticos. Maquiavélico e astuto, desafiava quem o tentasse antever. Já Seguro é a banalidade em pessoa, alguém sobre quem pouco há a dizer. Acontece que atravessamos um período suficientemente difícil e complicado para que a banalidade não traga riscos porque o caos adora o vazio. Ou seja, esta crónica não é sobre António José Seguro (tal não seria possível), mas acerca dos riscos que o nada representa numa altura em que precisamos de pensamento e de acção. Mais: o desafio de o eleitorado confundir moderação com banalidade quando o que precisamos é mostrar que o contrário é desejável e possível.

Num dos livros mais interessantes que saiu este ano sobre política, ‘Centrists of the World Unite!: The Lost Genius of Liberalism’, Adrian Wooldridge pega na história do liberalismo (que é uma adaptação constante de uma série de ideias às novas necessidades e desafios que surgem com o decorrer dos anos) para concluir que o mesmo terá de ocorrer nos dias de hoje, se quisermos que as democracias liberais subsistam e não sejam substituídas pelas aparentamente bem-sucedidas autocracias. Para Wooldridge foi assim que o liberalismo venceu os radicais da esquerda e da direita, razão pela qual se refere aos centristas. O centro político que se posiciona mais à esquerda ou mais à direita mas que não deixa de conter dentro de si princípios e valores basilares que constituem o Estado de direito que ainda conhecemos.

Ou seja, e para ir directo ao ponto, Wooldridge não nos dá uma solução. Indica um caminho. Um percurso de estudo, de trabalho, experimentação e erro, muita discussão e uma boa dose de ousadia embora sempre com os pés bem assentes na terra. Acima de tudo, realismo. O oposto do dogmatismo e das ideias identitárias que, como o Papa Leão XIV lembrou em Madrid, parecem tornar as coisas claras, mas acabam por povoar o mundo de fantasmas e de inimigos.

Perante um presidente que não consegue ir além do óbvio, pergunto-me o que viram, além de  um motivo para se fazerem notar, os apoiantes de primeira hora de António José Seguro. Na verdade, percorrer o caminho que Wooldridge sugere pede o contrário do que Seguro representa. Ora, é aqui que surge o problema porque Seguro é um homem do centro e um moderado. Sendo alguém do centro, facilmente a moderação política será confundida com o nada. Com a falta de pensamento. Com a omissão. Com a inacção. Com o que temos há décadas e que nos trouxe aqui e que consiste na dificuldade das democracias liberais se adaptarem aos desafios do segundo quartel do século XXI. O risco é confundir o centrismo e a moderação com o vazio. Com a falta de respostas porque não há nada pensado e pouco mais a dizer além do óbvio.

Com a eleição de António José Seguro, os moderados têm a obrigação acrescida de mostrar que são mais do que ele diz e faz. Terão de mostrar ideias, capacidade de discussão, de pensamento e de acção. Por agora, Seguro é uma personagem simpática e agradável. De forma diferente, Marcelo também o era. Deu no que deu. Seguro só não será o nosso Keir Starmer porque os nossos presidentes mandam pouco e o cargo de primeiro-ministro inglês é o mais poderoso das democracias. Os moderados têm de se dar ao respeito e, na vida real, os eleitores não respeitam políticos bonzinhos e aborrecidos, mas aqueles que acreditam em alguma coisa e que a sabem explicar. Aqueles que sabem convencer. Os moderados não precisam apenas de se unir. Necessitam, acima de tudo, de questionar o que não é imutável para preservar o que os junta. Não podem ser chatos, mas têm de ser interessantes. E para isso, por favor, não contem com António José Seguro.