Praticamente desde a sua fundação que a Igreja foi acusada pelos seus detractores de ser uma força de despolitização e, por essa via, de dissolução das comunidades políticas. Ao caracterizar o cristão como peregrino e, assim, fundamentalmente estrangeiro no mundo temporal, a Igreja indicava o caminho para a verdadeira pátria no céu. A incomensurabilidade do valor da vida eterna desvalorizava radicalmente a vida terrena e, com ela, a condição política que lhe era natural. Nos primeiros séculos da sua existência histórica, cresceu, pois, uma considerável indiferença da Igreja face aos assuntos políticos, alheando-a das condições e imperativos particulares da vida política.
Apesar das responsabilidades políticas de governação directa que a Igreja teve de assumir com a queda do Império romano do Ocidente e consequente colapso civilizacional, os inimigos da Igreja nunca se esqueceriam da crítica mortal à importância social e política dessa “sociedade” nova que não se confundia com as restantes. De facto, a comunidade da Igreja era bizarra porque não era deste mundo, tendo sido fundada por Deus com o propósito de cumprir uma missão sobrenatural. Mas, ao mesmo tempo, e confundindo cristãos e não-cristãos, ela estava forçosamente no meio do mundo, metendo-se em todo o tipo de relações que os humanos formam para florescer: na intimidade sexual, na família, na sociedade civil e na política governativa.
Com as responsabilidades políticas que assumiu, a Igreja passou séculos em alianças com poderes políticos de diferentes géneros. E ganhou afeição a determinadas formas políticas, como, por exemplo, uma monarquia conservadora que a defendesse.
Com o advento da Modernidade, a posição da Igreja no mundo converteu-se no alvo dilecto de todos os agentes revolucionários. A política moderna reivindicava total lealdade e não estava disposta a dividir obediências com a sociedade de direito divino. Como não podia deixar de ser, os modernos condenavam sem apelo o aliado por excelência da “reacção”. A Modernidade significava revolução ou, pelo menos, transformação. E fez da Igreja o seu inimigo por excelência. Com Pio IX e o seu Syllabus, em meados do século XIX, a Igreja respondeu na mesma moeda. A condenação da via moderna valia para a teologia, mas também para a política: a democracia e o liberalismo eram repudiados na sua linguagem e nos seus valores.
Contudo, as transformações da civilização europeia ainda estavam a começar. E, no meio do horrível século XX das trincheiras, do comunismo, do fascismo, do nacional-socialismo, de Auschwitz e de uma guerra que multiplicaria a lista de horrores e crimes da Humanidade, essas transformações acelerariam. A reconstrução da Europa após 1945 far-se-ia, não inicialmente nas décadas de 50, em que os vivos adultos ainda tinham sido educados pela civilização anterior, mas no final dos anos 60 pelos seus filhos, pura experiência de uma educação nova. Esse novo ímpeto de aceleração da Modernidade a partir do final dos anos 60 seria o golpe de misericórdia na Cristandade europeia. Não por acaso foi nesse momento que a Igreja pressentiu que uma sua actualização se impunha. E assim foi no Concílio Vaticano II.
Do ponto de vista político, essa actualização fez-se do seguinte modo: a Igreja repudiaria as suas associações políticas anteriores, que no século XX se tinham tornado ainda mais suspeitas com o triunfo na Europa Ocidental da forma democrática liberal. Associações com os regimes conservadores autoritários em Portugal, Espanha, Áustria, Hungria, Vichy, por exemplo, eram agora objectos de uma vergonha indelével. Além disso, a actualização da Igreja somaria este arrependimento histórico com a apropriação da linguagem reinante do liberalismo, em particular a linguagem dos direitos universais. E de tal maneira assim foi que gradualmente a “civilização do amor” especificamente católica passou a ser integralmente proclamada através da linguagem dos direitos. Em determinados e decisivos pontos de política esse deslizamento fazia com que a Igreja confundisse no seu discurso público os deveres de caridade com o respeito por direitos universais incondicionais. Mesmo que isso se fizesse sacrificando por completo os princípios e imperativos da coesão das comunidades políticas.
Ao arrepio do que fizera durante séculos de existência, a Igreja passava a falar de um ponto de vista radicalmente universalista sem considerar a particularidade incontornável da condição política da humanidade. E fazia-o tornando condenável quem recusasse o ponto de vista radicalmente universalista, porquanto dar prioridade à particularidade da comunidade nacional seria uma violação dos deveres de caridade.
Foi assim que a Igreja passou a falar no Ocidente, e só no Ocidente, da política de imigração nos termos mais abstractos. Mais, fê-lo dualizando até à caricatura às escolhas que se colocam às comunidades políticas soberanas. Mas a Igreja não pode esquecer que o fez sacrificando a qualificação que durante séculos respeitou: a de que as coisas políticas gozam, e devem gozar, de uma “justa autonomia”. Seria trágico que volvidos dois mil anos a Igreja viesse dar razão aos seus mais profundos inimigos.