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(A) :: Nós já vimos isto e sabemos (ó se sabemos!) que não acabou bem

Nós já vimos isto e sabemos (ó se sabemos!) que não acabou bem

Radicais de direita quiseram assar lá um porco no espeto. Já a Igreja Católica escolheu outras ruas para a procissão do Corpo de Deus. O Martim Moniz é o nosso laboratório do que pode estar para vir.

Helena Matos
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Como é que o Patriarcado de Lisboa considerou que a exclusão do Martim Moniz do percurso da procissão do Corpo de Deus seria vista tão só como uma alteração com vista a permitir “que outras zonas da cidade de Lisboa, que habitualmente não recebiam a passagem da Procissão, pudessem também acolher este momento de fé“? Quero acreditar que foi essa a intenção do Patriarcado mas como as procissões enquanto testemunhos públicos de fé acontecem na terra, saber que chão se pisa é no mínimo essencial. E que a Igreja Católica portuguesa ande tão desatenta ao seu chão é perturbante e preocupante.

Quando ouvi no Contra Corrente a Helena Ferro Gouveia referir a alteração do percurso da procissão do Corpo de Deus, alteração essa que excluía o Martim Moniz do percurso, perguntei-me a mim mesma: será que não percebem? Afinal, no ano de 2026, excluir o Martim Moniz daquele que até agora era o percurso habitual da procissão, tem tantas leituras sobre a intencionalidade dessa decisão quanto teria uma decisão inversa: como julgaríamos a opção de levar uma procissão pelo Martim Moniz quando tal nunca tivesse acontecido?

O Martim Moniz é o nosso laboratório do que pode estar para vir: no ano passado radicais de direita quiseram assar lá um porco. Este ano a Igreja Católica escolheu outras ruas para a procissão do Corpo de Deus. Em ambos os casos o espaço tornou-se território no sentido mais arcaico do termo. No primeiro, o assar dum porco no Martim Moniz viu-se uma procura da afirmação pela confontação com os muçulmanos ali residentes. No segundo, a ausência da procissão, uma renúncia pela desistência perante os mesmos muçulmanos.  Claro que tanto num caso como noutro podemos ler estes actos literalmente como se apresentam ou avaliá-los pela sua intencionalidade. Mas por mais que isso penalize os seus promotores é a leitura da intencionalidade que prevalece.

Esta passagem daquilo que eram os espaços, nomeadamente os espaços públicos, para territórios identitários é acompanhado de um incómodo sentimento de estranheza perante a bruteza do presente e em que o passado ora nos faz sorrir ora nos irrita pela candura que demonstrámos. Basta recuarmos ao que há escassos 14 anos, em 2012, se escrevia sobre esse mesmo Martim Moniz para deparamos com essa estranheza: “Martim Moniz vai ter restaurantes e um mercado intercultural (…) Os clientes levarão os seus tabuleiros e instalar-se-ão numa esplanada central, numa área de mesas dotada de estruturas de ensombramento e com capacidade para 300 pessoas sentadas. (…) Está prevista a instalação de restaurantes com comida chinesa, africana, japonesa, indiana, portuguesa e não só. Os quiosques e a esplanada vão funcionar 365 dias por ano e aos fins-de-semana haverá uma série de actividades dominadas pela ideia da multiculturalidade, mantendo e aprofundando a vocação adquirida pela Mouraria nos últimos anos como lugar de encontro de povos e culturas.

O que é mais espantoso: que há 14 anos achássemos que 300 pessoas iam jantar ao ar livre no Martim Moniz ou todo este papel de embrulho da interculturalidade, dos encontros de povos e da multiculturalidade?  Ao “mercado multicultural do Martim Moniz”  sucedeu o  projecto “Um jardim para o mundo”  que também ele ia transformar o Martim Moniz “num grande espaço verde e multicultural”… Em poucos lugares de Portugal se percebe melhor do que no Martim Moniz as armadilhas a que esta multiculturalidade declarativa conduziu enquanto o Estado, por razões ideológicas e deficiências estruturais, se ia retirando: não há multiculturalidade alguma mas sim desconfiança.

Olhando para o Martim Moniz constatamos que, estando nós longe de sermos Belfast ou Paris, a verdade é que já não nos reconhecemos quando olhamos à volta. E esse sentimento de estranheza dos povos em relação ao seu próprio país é uma linha de fractura que a todo o custo temos de evitar.  Que o Patriarcado de Lisboa não perceba que alterar  o  percurso de uma procissão contribui para esse crescente sentimento de estranheza é um mistério que Deus entenderá mas muitos portugueses não.