O pai de Manuel Akanji é nigeriano. Ricardo Rodríguez tem pai espanhol e mãe chilena. O pai de Denis Zakaria é do Sudão e a mãe é do Congo. Breel Embolo nasceu nos Camarões. Murat Yakin, o selecionador, é filho de turcos. E podíamos contar histórias semelhantes sobre Granit Xhaka, Djibril Sow, Dan Ndoye ou Noah Okafor. A Suíça é uma manta de retalhos composta por jogadores de origens distintas — e, para alguns, isso nunca foi tão importante como agora.
https://observador.pt/2026/06/13/suica-decide-em-referendo-limitacao-da-populacao-a-10-milhoes-de-habitantes/
Numa altura em que a Suíça se estreia no Mundial 2026, o país atravessa uma fase em que vai decidir em referendo limitar a população a 10 milhões de habitantes, dificultando a entrada e a permanência de pessoas de outras nacionalidades. Ora, se essa medida já estivesse em vigor nas últimas décadas, os suíços não teriam Akanji, Rodríguez, Zakaria ou Embolo — e não teriam selecionador nacional.
Era neste contexto que a Suíça defrontava este sábado o Qatar, tendo a possibilidade de aproveitar o empate do dia anterior entre Canadá e Bósnia para assumir desde já a liderança do Grupo B. No sexto Campeonato do Mundo consecutivo, os suíços procuram pelo menos igualar o resultado das últimas três edições, em que chegaram aos oitavos de final, e sonhar com algo mais.
Do outro lado, na segunda participação num Mundial depois do apuramento automático em 2022 por ser o país-anfitrião, o Qatar aparecia no Campeonato do Mundo com as expectativas mais ajustadas à realidade, menos quimeras e um treinador europeu. Quase uma década depois de deixar Espanha à beira do Mundial da Rússia para ir treinar o Real Madrid, Julen Lopetegui estreava-se em Campeonatos do Mundo com uma seleção que dificilmente irá passar da fase de grupos.
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Assim, no Levi’s Stadium de São Francisco, Breel Embolo abriu o marcador à passagem do quarto de hora inicial, convertendo uma grande penalidade depois de Mahmud Abunada fazer falta sobre Remo Freuler no interior da grande área (17′). Os suíços foram a vencer para o intervalo depois de uma primeira parte em que os qataris foram totalmente dominados, com Julen Lopetegui sem argumentos para correr atrás do resultado — ainda que Gregor Kobel tenha ainda sido obrigado a uma defesa atenta após remate de Edmilson (43′).
A segunda parte foi lenta, com poucos pontos de interesse e raras aproximações às balizas. Os suíços controlavam, os qataris resistiam — até que a resistência venceu o controlo. Nos descontos, numa fase em que a equipa de Murat Yakin parecia ter adormecido e o conjunto de Julen Lopetegui aproveitou para subir no terreno, Boualem Khoukhi tornou-se um central que também era referência ofensiva e apareceu na área para cabecear e empatar (90+5′). No fim, Suíça e Qatar empataram em São Francisco, deixando o Grupo B completamente igualado, e os qataris carimbaram o primeiro ponto de sempre em Campeonatos do Mundo.
A pérola
- Até aos 90+5′, era fácil escolher Breel Embolo — até pelo facto de quase não ter chegado ao Mundial, sendo obrigado a viajar sozinho para os EUA depois de ver o visto ficar em standby devido a uma altercação que teve na via pública. A partir dos 90+5′, porém, Boualem Khoukhi ganhou a corrida. O central de 35 anos, que nos últimos minutos do jogo abandonou a defesa e foi colocado como autêntica referência ofensiva, apareceu a cabecear na área para empatar e dar o primeiro ponto de sempre ao Qatar num Campeonato do Mundo. A forma como festejou, com lágrimas e sendo engolido pelos colegas de equipa, deixou bem clara a importância do resultado.
O joker
- Se Boualem Khoukhi empatou é porque Mahmud Abunada manteve o jogo fechado numa margem mínima. O guarda-redes do Al-Rayyan foi o melhor jogador do Qatar contra a Suíça, desdobrando-se em defesas e intervenções importantes que foram garantindo que o resultado não disparava nem se tornava demasiado desfasado. Aos 26 anos, com poucas internacionalizações e depois de ter conquistado o lugar ao habitualmente titular Meshaal Barsham, foi muito saudado por todos os colegas após o apito final e não escondeu as lágrimas ao virar-se para os adeptos que estavam nas bancadas.
A sentença
- Com este resultado e o empate entre o Canadá e a Bósnia, o Grupo B está completamente empatado. Todas as equipas têm um ponto e a ideia de que este é mesmo um dos grupos mais equilibrados do Mundial 2026 acabou por confirmar-se, sem que seja possível antecipar desde já qual das quatro seleções fica automaticamente eliminada e afastada dos 16 avos de final.
A mentira
- A Suíça não é assim tão melhor do que as outras três equipas do Grupo B, o Qatar não é assim tão pior do que as outras três equipas do Grupo B. Os suíços acabaram por realizar uma exibição tímida, apesar de toda a superioridade da primeira parte e das oportunidades desperdiçadas, enquanto que os qataris conseguiram responder no segundo tempo e alcançaram o empate com mérito.