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(A) :: A aposta entre 600 candidaturas, milhas de viagens, imprevistos, mentalidade Mandela: como Queiroz tentou preparar o Gana em apenas 75 dias

A aposta entre 600 candidaturas, milhas de viagens, imprevistos, mentalidade Mandela: como Queiroz tentou preparar o Gana em apenas 75 dias

Gana faz a estreia frente ao Panamá, com português a igualar recorde com a quinta participação consecutiva num Mundial. Disse que era o desafio de uma vida – e teve dois meses e meio para resolvê-lo.

Bruno Roseiro
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Ao longo de oito anos, Carlos Queiroz viveu de tudo um pouco no Irão. Quando chegou a Teerão ainda em 2011, na “ressaca” da segunda passagem pela Seleção A de Portugal que terminou nos oitavos do Campeonato do Mundo de 2010 frente à futura campeã Espanha, o objetivo era único mas claro: garantir o apuramento para o Mundial do Brasil, em 2014. Conseguiu. Foi a essa fase final, foi também à competição seguinte quatro anos depois, na Rússia. Mais do que isso, reinventou o futebol iraniano, olhando com outros olhos para toda a diáspora e renovando toda a pirâmide nacional para criar uma nova base que permitisse colocar de vez o país num patamar superior ainda que para a realidade asiática. Saiu em 2019, passou pela Colômbia, foi a uma final da Taça das Nações Africanas pelo Egito, sentiu que o destino era voltar. E voltou, no ano de 2022.

https://observador.pt/especiais/gana-grupo-l-queiroz-uma-licao-de-mandela-e-as-aulas-de-semenyo-para-fazer-um-milagre-em-70-dias/

Na antecâmara da fase final do Mundial do Qatar, o técnico português teria pela frente aquele que seria o seu maior desafio da carreira – comandar um Irão que vivia tempos conturbados em termos políticos, com a morte de Mahsa Amini sob custódia policial após ser detida por uso incorrecto do hijab a desencadear uma das maiores vagas de sempre de protestos e manifestações nas ruas antes de uma repressão violenta por parte do regime entre centenas de mortos, milhares de detidos e tentativas de corte com a realidade através das quebras de internet e bloqueio das redes sociais. Mais: numa onda que nunca se tinha visto, a seleção iraniana, conhecida como Melli Team, era colocada como “defensora” do regime apenas porque não tinha manifestações contra aquilo que se passava no país. A pressão chegou também a Carlos Queiroz, com uma montagem do técnico de joelhos perante o regime a ser partilhada de forma viral entre vários protestantes.

Era um barril de pólvora autêntico e a própria concentração do Irão no Qatar, num hotel que ficava junto a um dos mais luxuosos centros comerciais de Doha, funcionava como espelho para o que se passava: a equipa e restante staff ocupavam dois andares completos da unidade, onde faziam todas as suas atividades entre reuniões, refeições, momentos de folga ou dormidas, e tinham cortinas brancas para que nada nem ninguém visse o que se passava ali. E, acrescente-se, passou-se muito. Como o Observador foi contando nessa altura, houve reuniões entre todo o grupo durante altas horas da madrugada para tentar manter toda essa tensão o mais possível longe da equipa, várias questões da polícia do regime após todos os jogadores não cantarem o hino no primeiro jogo com a Inglaterra (algo que mudaria na partida seguinte) e manifestações da parte dos adeptos nas bancadas que não passavam ao lado de todos os elementos nos dias dos jogos.

Numa imagem que seria por estes dias icónica, a caminhada do Irão acabou por ficar pela fase de grupos. A goleada sofrida frente à Inglaterra a abrir teve depois um triunfo conseguido “a ferros” diante do País de Gales com dois golos nos descontos, com a decisão a ficar reservada para um duelo decisivo com os EUA. Os norte-americanos foram mais fortes, com uma intensidade de jogo que acabou por fazer a diferença, mas a partida terminou com uma enorme mensagem de fair-play entre os dois conjuntos, dentro e fora de campo. Era a despedida de Queiroz do conjunto iraniano mas não da ideia de chegar a um quinto Mundial como treinador. Por linhas tortas, o objetivo foi alcançado. Não à primeira, não à segunda mas à terceira.

Numa primeira instância, e depois de ter encerrado o segundo capítulo no comando do Irão, Queiroz acabou por assumir um namoro antigo e assinar pelo Qatar, seleção que estivera muito perto de orientar antes da primeira passagem pelos iranianos em 2011 (aliás, estava em Doha para assinar quando acabou por receber a proposta do Irão). A ideia passava por fazer um reset após a passagem desastrosa dos qataris pelo Mundial que organizaram, lançando as bases para o aparecimento de novas gerações num projeto a quatro anos que visava a fase final do Campeonato do Mundo de 2026. Aquilo que ficara conversado não passou da teoria à prática e, depois de dois triunfos com Afeganistão e Índia no apuramento, chegou a rescisão de contrato. O contrato a médio/longo prazo para todo o ciclo até ao Mundial-2026 ficou reduzido apenas a um ano.

O português esteve depois dois anos fora do ativo, sendo apontado, de acordo com a imprensa desportiva durante a campanha, a um novo Conselho Superior de caráter consultivo da Federação Portuguesa de Futebol liderada por Pedro Proença que seria liderado por Rui Moreira. No entanto, o bichinho de se desafiar e poder ainda chegar a um quinto Mundial falou mais forte quando recebeu um convite do Omã, que procurava uma espécie de milagre na qualificação asiática defrontando na última fase o Qatar e os EAU. Apesar de gostar de assumir papéis de outsider para conseguir depois surpreender, a equipa acabou por sair derrotada pelos EAU, ficando de fora da fase final com um empate diante dos qataris. Agora sim, o sonho era uma história do passado. Ou não – e foi essa experiência em duelos a eliminar e em fases finais de grandes competições que prevaleceu no momento de haver uma escolha por parte do Gana para liderar a seleção.

No Gana, à semelhança de outros países africanos, a diferença entre ser herói ou vilão no futebol é bem mais ténue do que noutras latitudes. Foi isso que acabou por sentenciar Otto Addo, que mereceu rasgados elogios de tudo e todos após qualificar-se para a fase final do Mundial de 2022, ainda mais quando assegurou nova qualificação mas acabou por não aguentar uma série de maus resultados em jogos particulares desde o final do ano passado contra equipas europeias, asiáticas e americanas. “Depois de uma cuidadosa consideração, decidimos que é melhor para a seleção procurar um novo treinador que possa levar a equipa a novos patamares”, anunciou a Associação Ganesa de Futebol no final de março. Começava aí um verdadeiro contrarrelógio que acabaria com a aposta em Carlos Queiroz para selecionador na fase final do Mundial.

Mas como é que o português entrou no radar dos africanos? Basicamente, pelo currículo que apresentava. Numa primeira fase, até pela forma como deixou a Arábia Saudita, tudo apontava para que Hervé Renard fosse o escolhido (o mesmo que, depois da goleada da Suécia no início deste Mundial, substituiu Sabri Lamouchi no comando da Tunísia). E havia uma lista com vários nomes de técnicos que tinham como ponto comum no perfil definido o conhecimento do futebol africano e a experiência em fases finais da competição. Aí, as opiniões de vários elementos ligados à FIFA que foram falando com responsáveis ganeses acabaram por fazer inclinar a balança para Queiroz, que cumpria esse desejo de chegar a um quinto Mundial quando não contava com isso aos 73 anos. Com outro pormenor: de acordo com Kurt Okraku, líder da Associação Ganesa de Futebol, foram recebidas cerca de 600 candidaturas para o lugar a cerca de 70 dias do Mundial.

"Um grande senhor ensinou-me muitas coisas e uma delas tenho sempre presente no futebol: não existe falhanço, o que existe é oportunidade para ser melhor. Nelson Mandela disse-me um dia: 'Carlos, nunca perdemos. Ou ganhamos ou aprendemos'. Por isso, não tenho medo de nada. Se trabalharmos e acreditarmos, vamos estar preparados."
Carlos Queiroz, na apresentação como novo selecionador do Gana

“Carlos Queiroz fez parte do período dos galácticos do Real Madrid e também integrou a parte histórica do Manchester United em Old Trafford. Já treinou alguns jogadores de topo, como os irmãos Neville ou David Beckham”, apontou, entre elogios à disciplina e capacidade de organização tática do português. “Queiroz tem um vasto currículo em Mundiais. Levou a África do Sul à edição de 2002, qualificou Portugal em 2010 e esteve no comando do Irão em 2014, 2018 e 2022 na fase final”, destacou a Associação Ganesa no texto de apresentação do técnico. A isso juntou-se ainda mais um dado para a história: ao entrar no Mundial de 2026, Carlos Queiroz igualou Bora Milutinovic como único selecionador presente em cinco fases finais seguidas (que comandou México, Costa Rica, EUA, Nigéria e China entre 1986 e 2002) e ficou apenas a uma de Carlos Alberto Parreira, brasileiro que esteve em seis fases finais mas não consecutivas com as seleções de Kuwait, EAU, Brasil (sagrando-se campeão mundial em 1994), Arábia Saudita e África do Sul.

Apresentado com pompa e circunstância no Gana, com direito a flores, danças tradicionais e música local à chegada, Carlos Queiroz falou “no maior desafio que teve na vida” e recordou as palavras do amigo Nelson Mandela. “Treinar o Gana será uma honra e a responsabilidade é enorme. Este é o maior desafio porque é o próximo. O foco é ganhar o próximo jogo e os seguintes. Sei que no Gana não se espera outra coisa que não ganhar, por isso, este é o maior desafio. Um grande senhor ensinou-me muitas coisas e uma delas tenho sempre presente no futebol: não existe falhanço, o que existe é oportunidade para ser melhor. Nelson Mandela disse-me um dia: ‘Carlos, nunca perdemos. Ou ganhamos ou aprendemos’. Por isso, não tenho medo de nada. Se trabalharmos e acreditarmos, vamos estar preparados”, disse na apresentação.

“Olhando para o talento, estou confiante e acredito que teremos uma grande equipa para subir ao relvado. O meu trabalho é fazer com que, quem mereça, esteja na seleção. O peso da camisola é de 20 gramas no balneário e de 20 quilos assim que se entra em campo. Desejo, sonho e espero que, depois da nossa performance, o presidente esteja feliz. Se me oferecerem uma renovação do contrato, está tudo bem. Não me importo de ficar no Gana o resto da minha vida”, acrescentou. “O Gana é uma nação de talento, orgulho e alma futebolística. Chego com respeito pela sua história e com crença no seu futuro. Juntos, com união, disciplina e ambição, trabalharemos para honrar as expectativas de uma grande nação do futebol. Este não será para mim mais um trabalho mas sim uma missão e estou pronto para isso”, reforçou Carlos Queiroz.

“Não é mais um trabalho mas sim uma missão” – e obrigou a várias viagens desde abril

Seguia-se então a missão. Uma missão que, à semelhança do que tinha acontecido por exemplo antes do último Mundial com o Irão, acabou por envolver inúmeras viagens sobretudo pela Europa por forma a falar com todos os potenciais convocados para a seleção. Não foi essa a única semelhança com fases finais em que participou e, tal como fizera em 2010 com Portugal, Queiroz voltou a adiar a convocatória para o máximo limite possível. Nessa altura, na antecâmara do primeiro e único Mundial em África, o técnico foi paciente para ter ainda Pepe, que recuperava de uma lesão grave no joelho mas foi convocado na mesma e atuou nos últimos dois jogos. Agora, a espera acabou por não trazer boas notícias – e havia planos B em marcha.

Mohammed Kudus, uma das grandes apostas do Tottenham para a temporada de 2025/26 que não foi além dos 26 jogos pelos londrinos por duas lesões com paragem longa, acabou mesmo por ficar de fora da lista. Em janeiro, Mohammed Salisu sofreu uma rotura no ligamento cruzado e teve de ser sujeito a uma intervenção cirurgica. Mais recentemente, Alexandre Djiku, que estava nos planos do português para assumir o papel de “patrão” da defesa, contraiu também uma lesão na final da Taça da Rússia pelo Spartak de Moscovo e não conseguiu recuperar. Era necessário reconstruir o eixo central recuado, que ficara sem os dois habituais titulares, e montar uma ideia de jogo que permitisse potenciar os pontos fortes no ataque sem o elemento que fizesse a ligação entre meio-campo e ataque. Foi aí que, em campo, Queiroz mais trabalhou.

O primeiro teste pela seleção ganesa, que não contou com muitos dos habituais titulares, terminou com uma derrota frente ao México nos EUA, o segundo e último ensaio à porta aberta mostrou uma equipa melhor que empatou com o País de Gales, no início de junho. “Acredito que no próximo ciclo de dez dias de sessões de treinos poderemos fazer grandes progressos e ganhar consistência de jogo. Tivemos a vitória no bolso mas esta é uma altura para aprender. Quando estamos a ganhar 1-0 e conseguimos controlar a partida, não podemos consentir empates”, apontou, depois de um encontro que funcionou como balão de ensaio para o que podem ser os duelos com Inglaterra e Croácia: menos posse, mais verticalidade, muita velocidade nas saídas para o ataque, grande organização no plano defensivo. Esta madrugada, a estreia será com o Panamá.

O Gana aposta tudo no primeiro encontro para alcançar o objetivo principal de chegar à fase a eliminar. Um triunfo pode ser suficiente, por si só, para entrar nos 16 avos – mais do que isso, seria um trampolim que iria mudar a abordagem aos duelos seguintes frente aos conjuntos europeus que num plano teórico jogarão entre si o primeiro lugar do grupo L. Aqui, Queiroz percebe a necessidade de ter uma forma diferente de encarar o jogo diante de um Panamá que foi melhorando nos encontros particulares antes do Mundial depois de ter sido goleado pelo Brasil mas que continuou a demonstrar algumas debilidades defensivas. Tudo passará muito pelo rendimento de Antoine Semenyo, um dos melhores jogadores da Premier League (mais uma vez) que trocou o Bournemouth pelo City a meio da temporada, e pelas bolas paradas de Jordan Ayew.

Também aqui houve outra má notícia que acabou por ser uma surpresa. Thomas Partey, médio que está agora nos espanhóis do Villarreal, foi impedido de entrar no Canadá por enfrentar nesta altura um processo por alegada violação em Inglaterra. A Associação Ganesa de Futebol ainda apresentou um protesto formal através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros ao Canadá e fez uma participação à FIFA mas, tal como acontecera em relação a situações semelhantes nos EUA, a entidade que tutela o futebol mundial voltou a apontar para os procedimentos de imigração dos países anfitriões. Outro revés que fez com que existisse nova readaptação da estratégia, tendo em conta a importância de Partey à frente de uma nova dupla de centrais.

Apesar desses percalços, houve dois grandes objetivos trabalhados e, aparentemente, alcançados. Por um lado, criar um bom ambiente de grupo, uma das armas que Carlos Queiroz considera fundamental para enfrentar uma prova de curta duração, com três jogos certos e depois fase a eliminar em caso de apuramento. Por outro, enraizar uma identidade que possa entroncar nas características dos principais jogadores, assente numa grande organização tática que seja coesa a defender, que consiga perceber os momentos diferentes que os encontros têm e que potencie as transições rápidas como principal arma ofensiva para chegar ao golo.

Do primeiro Mundial perto de “casa” às ameaças de morte no Instagram em 2022

Num percurso de quase 45 anos como treinador, que teve início na formação do SL Olivais e no Belenenses antes de ser adjunto no Estoril, Carlos Queiroz saltou para a ribalta pelo trabalho que fez na Federação a partir de 1985, revolucionando por completo aquilo que era a pirâmide da formação e a forma de detetar jovens talentos. Mais tarde, sagrou-se bicampeão mundial de Sub-20, saltando depois para a Seleção A. Em 1993/94, depois do despedimento de Bobby Robson a meio da temporada, o técnico assumiu pela primeira e única vez um clube português, neste caso o Sporting, onde ganhou uma Taça de Portugal e uma Supertaça. Seguiu-se a primeira experiência no estrangeiro, há exatamente 30 anos e nos EUA, quando comandou a equipa dos New York/New Jersey Metrostars. Estava dado o primeiro passo de um trajeto digno de globetrotter, que passou por quase todos os continentes e que teve apenas mais três passagens por clubes.

Depois da passagem pelos EUA, Carlos Queiroz esteve no Japão entre novembro de 1996 e novembro de 1997 no comando do Nagoya Grampus Eight, onde conquistou uma Supertaça. De seguida, Queiroz orientou pela primeira vez seleções, começando nos EAU e passando depois pela África do Sul, onde o seu legado seria recordado mais tarde, em 2010, durante o Mundial. A passagem pelo Manchester United como número 2 de Alex Ferguson em 2002/03 acabou por funcionar como trampolim para a época em que liderou o Real Madrid com uma vitória na Supertaça, regressando depois a Old Trafford onde permaneceria até 2008. Daí para cá, apenas seleções: Portugal, Irão e mais recentemente Colômbia e Egito até ao regresso ao Irão. Mais recentemente, e antes de assinar pelo Gana, o português teve passagens curtas no Qatar e no Omã.

Na antecâmara do Mundial de 2022, Carlos Queiroz tinha resumido ao Observador as memórias sobre as fases finais que fizera, a começar por Portugal. “O primeiro em África foi um Mundial a meia dúzia de quilómetros da terra em que eu nasci, foi a primeira razão da minha opção para voltar à Seleção Nacional. Conta muito quando a nossa Seleção nos chama para cumprir um objetivo e mostram essa confiança, porque primeiro dizemos que sim e depois pensamos como fazer o trabalho, mas naquela circunstância, ter saído do Manchester com os projetos que tinha à minha frente a curto prazo já acordadas para o meu futuro dentro do Manchester, só foi possível seguir esse caminho porque o Mundial era disputado perto da minha terra. Foi essa questão emocional e afetiva que me fez abraçar esse projeto porque caso contrário não teria saído”, contou sobre a competição em 2010 em que Portugal empatou com a Costa do Marfim (0-0), goleou a Coreia do Norte (7-0), teve outra igualdade com o Brasil (0-0) e caiu nos oitavos com a Espanha (1-0).

“Em 2014, fizemos uma competição com um mérito suficiente para estarmos na segunda fase, até o futebol que praticámos com a Argentina. Só podia haver um vencedor mas duas coisas fizeram a diferença: o árbitro e o Messi. O Messi com um passo de magia fez um golo que só ele poderia fazer mas antes há um penálti e uma expulsão que é uma coisa escandalosa e que poderia ter-nos dado o ponto que precisávamos porque antes há o lance na área da Argentina com o Ashkan [Dejagah]. O facto é que não conseguindo a qualificação é preciso também considerar que não fomos bons o suficiente e há que continuar a trabalhar. Foi isso que aconteceu de 2014 para 2018″, recordou sobre a fase final no Brasil, em que o Irão começou por empatar com a Nigéria (0-0), perdeu nos descontos com a Argentina (1-0) e foi derrotado pela Bósnia (3-1).

“O trabalho foi aprofundado, os estágios foram mais intensos, o número de jogos aumentou, uma geração nova de jogadores que tinha aparecido em 2014 começava a crescer e tivemos outra vez aquilo que se costuma dizer como o morrer na praia, aquela pequenina diferença do golo anulado, do penálti… Mas não é justo nem correto falar do trabalho de desenvolvimento que houve com as questões casuais ou casuísticas que vão acontecendo. O que é mais correto é dizer que não chegámos lá apesar de estarmos à beira da praia e a conclusão é que o Irão não foi bom o suficiente e que tinha de continuar a trabalhar mais e melhor”, contou sobre um Mundial de 2018 na Rússia em que começou com uma vitória nos descontos com Marrocos (1-0), perdeu com a Espanha (0-1) e empatou nos descontos na “final” com Portugal (1-1).

“O jogo contra Portugal é dos mais dramáticos da minha carreira porque tínhamos de ganhar, estava na nossa mão nos minutos finais. Portugal perdeu o controlo do jogo, perdeu o controlo de si próprio e nós nos últimos 25/30 minutos dominámos, criámos as oportunidades até ao momento preciso que às vezes faz ou não a diferença entre o ganhador e o perdedor que é quando na pequena área com a baliza praticamente aberta o Taremi falha a oportunidade de golo. Fizemos três excelentes jogos, muito superiores ao que tínhamos feito em 2014 porque a história dos três jogos foi de competitividade com qualquer das equipas e estamos a falar de Marrocos, que tinha sido campeão de África, Espanha e Portugal. Ficou o sabor amargo porque não tivemos forças para continuar e passarmos. Em 2019 tivemos a Taça da Ásia e escrevia-se uma nova página mas não fui eu que trabalhei a equipa. Esta história não é de progresso mas sim de estagnação, embora tivesse evoluído de forma significativa no aspeto da experiência e da maturidade”, acrescentou sobre 2018.

"Não é fácil conviver com ameaças no Instagram. Num dia são heróis do povo, no outro dia abrem o Instagram e querem matá-los. Mas passámos sempre uma mensagem de confiança e o mais importante foi mostrar-lhes o caminho neste Mundial. A missão que tínhamos era dar um sorriso e felicidade às pessoas. Tudo o que os jogadores fizeram merece muito respeito."
Carlos Queiroz, após a eliminação do Irão no Mundial de 2022

“Estou muito orgulhoso e honrado de ter, uma vez mais, treinado a seleção do Irão e estes jogadores fantásticos. Já disse uma vez que em toda a minha carreira já treinei em muitos sítios, desde a China aos EUA, e que nunca na vida vi jogadores que dessem tanto e recebessem tão pouco. Merecem todos o meu respeito e a minha admiração. A segunda parte levava-me a muitas outras considerações. Este mundo e este momento que vivemos está tão cheio de idiotices e patetices… Vale tudo. Qualquer pessoa com base em qualquer informação ou fonte anónima escreve uma idiotice que passa a ser verdade. É o mundo em que vivemos mas não deixa de ser lamentável. Foram imensas as histórias e pressões que os jogadores receberam de todas as formas, mas o que tenho a dizer é que graças ao trabalho, à união e às explicações os jogadores voltaram às suas raízes e perceberam quem são os seus amigos e para quem é que jogam. Deram uma boa resposta dentro do campo e honraram a camisola do país”, abordou depois do Mundial de 2022, em que o Irão foi goleado pela Inglaterra (6-2), venceu o País de Gales e perdeu na “final” com os EUA (1-0).

“Os jogadores iranianos fizeram muitos sacrifícios e um esforço tremendo. Não têm as mesmas condições de trabalho que normalmente as outras equipas têm por razões que conhecem melhor do que eu. Às vezes nem botas podem comprar. Mas quando trabalho todos os dias e vejo uma dedicação e uma entrega de crescer, ser grande e mostrar ao mundo o futebol e a paixão do Irão sinto-me muito orgulhoso. Não é fácil conviver com ameaças no Instagram. Num dia são heróis do povo, no outro dia abrem o Instagram e querem matá-los. Mas passámos sempre uma mensagem de confiança e o mais importante foi mostrar-lhes o caminho neste Mundial. A missão que tínhamos era dar um sorriso e felicidade às pessoas. Tudo o que os jogadores fizeram merece muito respeito”, completou após a eliminação, na antecâmara da saída do Irão.

Agora, Carlos Queiroz chega ao seu quinto Mundial com um total de 262 jogos por seleções, entre Portugal (49), EAU (19), África do Sul (24), Irão (106), Colômbia (18), Egito (20), Qatar (12), Omã (12) e Gana (dois). O técnico português leva 140 vitórias, com uma percentagem a rondar os 53,5% que, após o Mundial do Qatar em 2022, era apenas superada pelo brasileiro Mário Zagallo e pelo alemão Joachim Löw.