A chuva persistente e os ventos fortes que fustigaram a edição de Barcelona foram uma nuvem que pairou sobre as expectativas para o Primavera Sound Porto. Contudo, o cenário no Parque da Cidade foi o oposto: três dias de calor a desafiar as habituais nuances de junho no Norte. Este sábado, com a relva seca e os óculos escuros a dominar a paisagem, os festivaleiros procuravam sombras como quem procura água num deserto.
Uma delas formava um retângulo compacto diante do Palco Estrella Damm. A sombra projetada pela estrutura do palco principal era, ao fim da tarde, ocupada por centenas de pessoas enquanto os madeirenses NAPA inauguravam o palco principal. O grupo parecia surpreendido com a moldura humana que encontrava pela frente.
Apresentou “Sortudo”, tema novo que chegará para a semana e integrará o próximo álbum. “O céu sorriu para mim e eu sou tão Sortudo/ Tenho amigos pelo mundo e tenho um porto seguro”, cantou Guilherme Gomes diante de uma audiência que o escutava com simpatia, mas sem grande entusiasmo. Restava ao vocalista um trunfo: “Vou tocar aquela. A música que nos trouxe até aqui, que nos marcou a vida e nos fez viver da música”. Aos primeiros versos de “Deslocado”, a reação foi imediata. O festival ainda estava a acordar, mas já tinha encontrado um dos seus primeiros momentos de comunhão. Se na letra “o monte de betão não me provoca nada”, no Parque da Cidade a canção provocou precisamente o contrário: centenas de vozes unidas num dos primeiros grandes coros da tarde.
À medida que o dia avançava, o recinto enchia-se. A 13.ª edição do Primavera Sound Porto recebeu, ao longo dos vários dias, quase 130 mil pessoas, segundo números avançados pela organização. Mais de 20 mil passes gerais foram vendidos, um recorde para o festival. Metade desses passes pertenceu a público estrangeiro, notou José Barreiro, diretor do evento.

Ao final da tarde, enquanto muitos se dividiam entre Mike D, histórico membro dos Beastie Boys, e os concertos espalhados pelos restantes palcos, um dos momentos mais emocionantes acontecia longe das maiores multidões. No Palco ZYN, Dino D’ Santiago encontrava-se com Criolo e Amaro Freitas. A proposta juntava Portugal e Brasil numa conversa musical feita de ritmos afro-lusófonos, hip-hop, jazz e intervenção social. E foi precisamente esta última que ganhou força à medida que o sol se aproximava do horizonte. “Não precisa morrer para ver Deus, não precisa sofrer para saber o que é melhor para você”, cantava Criolo na sua “Não Existe Amor em SP”.
Pouco depois, o tom endurecia: “A Amazónia está pegando fogo”, “Os territórios andam sendo exterminados e ninguém faz nada”. A multidão respondia em silêncio atento. Dino D’ Santiago expunha a ferida: “É o que acontece quando há cidadãos de primeira e de segunda”. “Vamos fazer com que seja um manifesto”, atirou o cantor de ascendência cabo-verdiana, e assim foi. Por momentos, o concerto transformava-se em assembleia e celebração coletiva ao mesmo tempo. “Blood in your hands”, escutou-se e repetiu-se.

JADE: é para isto que dançamos
Se Dino, Criolo e Amaro Freitas ofereceram consciência política através da música, JADE, cantora inglesa ex-membro do fenómeno pop Little Mix, trouxe o outro grande motor da cultura pop contemporânea: o escapismo. Com pontualidade britânica, a cantora subiu ao palco principal determinada a provar por que é um dos nomes em ascensão da pop internacional. “Get on the dancefloor. This is what we dance for.” E se dançou.
Com dois bailarinos, visuais exuberantes e uma sequência de êxitos próprios e de canções herdadas dos tempos das Little Mix, JADE conduziu um espetáculo pensado ao milímetro. Houve “Wasabi”, houve “Touch”, houve “Shout Out to My Ex”. Houve também espaço para humor. Ao reparar numa camisola de futebol que um fã tentava oferecer-lhe, interrompeu uma introdução romântica. “Essa camisola de futebol é para mim? Estava a tentar criar o momento perfeito para uma canção romântica, mas o que posso dizer? Adoro coisas grátis.”


Mais tarde, surgiria no ecrã envolta numa imagem quase religiosa, sob um enorme véu branco que a preenchia, enquanto ecoavam os primeiros acordes de “Church”. Ouviram-se também “FUFN (Fuck You For Now)” ou “Midnight Cowboy”, mas o momento mais marcante chegaria, porém, com “Angel Of My Dreams”, o primeiro single da carreira a solo.
À saída, entre grupos que procuravam comida e outros que corriam para os próximos concertos, ouvia-se um comentário espontâneo que resumia a atuação. “Há uma razão para as estrelas pop se tornarem ícones”, atirou uma jovem de inglês britânico perfeito. É difícil discordar. Mas, àquela hora, já havia milhares de pessoas com a atenção voltada para outro espetáculo. Um muito menos interessado em conquistar o público do que em desafiá-lo.

Massive Attack: política e a arte de mãos dadas
Pouco antes das onze e quinze, quase todos convergiam para o Palco Estrella Damm, como água a procurar o mar. Dois minutos antes da hora marcada, os Massive Attack apareceram. E durante quase duas horas transformaram um festival de música numa aula aberta sobre o estado do mundo. Ou numa advertência. Talvez nas duas coisas.
A prática não é nova. Há anos que o coletivo de Bristol utiliza os concertos como plataformas de intervenção política. Há dois anos fê-lo de forma majestosa no Kalorama. Mas o contexto internacional tornou a mensagem ainda mais urgente.
Nos ecrãs sucediam-se números, estatísticas, slogans, vídeos, gráficos e perguntas.Quem somos? Somos reais? Importamos? O algoritmo vai sempre encontrar-nos? A informação chegava em avalanche.


Elon Musk e o Neuralink. A vigilância digital. A Palantir. O reconhecimento facial. A exploração mineira no Congo. O poder das grandes tecnológicas. A ascensão dos extremismos. A fragilidade das democracias. E, acima de tudo, Gaza.
As imagens da destruição na Palestina surgiam repetidamente ao longo do espetáculo. Num dos momentos mais fortes da noite, um dos membros da banda pronunciou as palavras que desencadearam uma resposta imediata. “Free Palestine.” A multidão respondeu em coro. Uma bandeira palestiniana agitou-se sobre as cabeças do público.
Musicalmente, os Massive Attack continuaram a demonstrar porque permanecem uma referência absoluta da música contemporânea. Temas como “Black Milk”, “Teardrop”, “Angel” ou “Unfinished Sympathy” mantêm uma força quase hipnótica. Mas o concerto viveu permanentemente num equilíbrio delicado entre a música e a mensagem. Por vezes, a avalanche de informação parecia engolir as canções. No meio da multidão ouviam-se comentários impacientes durante alguns dos interlúdios visuais mais longos.
Talvez aí resida o paradoxo dos Massive Attack em 2026. A banda continua a fazer música para pensar o mundo, como escrevemos em 2024. O problema é que o mundo se tornou mais complexo, mais acelerado e mais inquietante. Pensar exige agora mais tempo. Mais atenção. Mais contexto.
E talvez seja precisamente isso que os britânicos procuram arrancar ao público: alguns minutos de reflexão num tempo em que tudo é consumido à velocidade de um deslizar de dedo. Quando o concerto terminou, os ecrãs exibiam uma última estatística sobre os gastos militares globais. O número aumentava em tempo real. Sem parar.


Enquanto os primeiros festivaleiros abandonavam lentamente o recinto, os IDLES preparavam-se para assumir a madrugada. Mas para muitos a noite terminara. Num festival construído sobre a celebração da música, foram os Massive Attack que lembraram que a arte continua a poder ser mais do que entretenimento. Pode ser um incómodo. E, em tempos como os atuais, talvez seja precisamente para isso que ela serve. Resta saber quantos ainda estão dispostos a ficar para ouvir.
O Primavera Sound Porto continua este domingo num dia dedicado à eletrónica e com Peggy Gou como cabeça de cartaz. O festival regressa de 10 a 13 de junho de 2027.