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Salário médio só descola do mínimo com aumento de produtividade

O salário mínimo e o médio estão cada vez mais próximos, verificando-se um fenómeno de compressão salarial, que poderia ser evitado com um aumento da produtividade.

Agência Lusa
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O salário mínimo e o médio estão cada vez mais próximos, verificando-se um fenómeno de compressão salarial, que poderia ser evitado com um aumento da produtividade, consideram economistas ouvidos pela Lusa, que defendem políticas para estimular a atividade.

Segundo uma análise do Banco de Portugal (BdP) divulgada esta semana, o índice de Kaitz, que mede o rácio entre o salário mínimo e o salário mediano, subiu para 91% em 2025, o que compara com 87% em 2019.

Para o economista Pedro Braz Teixeira, o “pecado original” deste fenómeno foi o facto de o salário mínimo ter deixado de ser indexante para os apoios sociais, em 2007, sendo que o aumento deste valor deixou de ter um impacto tão elevado na despesa pública.

Desta forma, a partir de 2007, com a criação do Indexante de Apoios Sociais (IAS), os governos passaram a aceitar “aumentos muito significativos do salário”.

O economista defende que “é necessário que os aumentos do salário mínimo passem a estar mais alinhados com os aumentos de produtividade”, enquanto devem também existir “políticas de promoção da produtividade, que tem crescido muito pouco”.

“O aumento da produtividade é que permitiria aumentar o salário médio, evitando aquela compressão”, conclui.

Ricardo Amaro, da Oxford Economics, corrobora esta ideia, defendendo que a solução para a compressão salarial “terá de passar por tentar que os restantes salários da economia acompanhem essa tendência de subida”.

“Um mercado de trabalho com baixos níveis de desemprego, como o atual, ajuda nisso dado que a escassez aumenta o poder negocial dos trabalhadores”, sinaliza, mas “uma solução permanente terá de também passar por melhoria da produtividade, e também na atração de investimento estrangeiro de alta qualidade”.

Enquanto a subida nos níveis de escolaridade ajuda nesse tema, “a instabilidade e baixa competitividade fiscal, lentidão da justiça e burocracia excessiva são áreas que reduzem a nossa atratividade”, defende.

Já o economista Ricardo Ferraz salienta que os restantes salários não estão a crescer a um ritmo tão acelerado quanto o salário mínimo, realidade que “não é um exclusivo do setor privado, mas também se verifica no setor público”.

Ferraz considera que os decisores políticos “têm de ser proativos e estudar medidas que recompensem não apenas fatores como a produtividade (que sem dúvida é importante), mas também a formação académica e a experiência das pessoas”.

De acordo com a análise do BdP, a distribuição dos salários dos trabalhadores por conta de outrem no setor privado tem registado uma compressão, nomeadamente associada ao salário mínimo, que tem um “papel central” na formação dos ordenados.

Segundo estes dados, os aumentos salariais mais elevados ocorrem nos níveis inferiores associados ao salário mínimo, por via da atualização deste valor.

Em 2025, os trabalhadores no primeiro decil da distribuição salarial (junto do salário mínimo) registaram um crescimento médio do salário base superior a 8%, enquanto no último decil (ligeiramente inferior a 3.000 euros) esse crescimento foi próximo de 5%.

Isto leva a uma compressão da distribuição dos salários, ao mesmo tempo que provoca uma redução da desigualdade salarial, num contexto em que o salário mínimo desempenha um “papel central” na formação dos salários.

Compressão salarial cria entraves a “premiar o esforço”

As empresas utilizam subsídios e complementos como mecanismo para “minorar” a compressão salarial, tendo em vista tornar os salários mais atrativos e menos penalizadores, segundo economistas ouvidos pela Lusa, que alertam para a “dificuldade de premiar o esforço”.

A análise do BdP divulgada esta semana concluiu que a distribuição dos salários dos trabalhadores por conta de outrem no setor privado tem registado uma compressão, nomeadamente associada ao salário mínimo nacional, que tem um “papel central” na formação dos ordenados.

O banco central refere ainda que “a concentração em torno da atualização do salário mínimo é mais evidente no caso do salário base do que no caso do salário total”.

Os economistas ouvidos pela Lusa apontam que a subida dos salários por via de outras remunerações como “subsídios de alimentação, transportes, alojamento” entre outros, é uma das formas usadas pelas empresas para “minorar os problemas da compressão salarial”, minimizando custos com impostos.

“O facto de termos um sistema onde os escalões de IRS sobem de forma muito rápida provavelmente leva a que seja benéfico para ambas as partes usar um alargado leque de componentes remuneratórias além do salário base”, afirma o economista Ricardo Amaro.

Por outro lado, e apesar de referir que este fenómeno “já tem quase 20 anos”, Pedro Braz Teixeira assinala que “um dos problemas” dessa compressão está relacionado com a “dificuldade de premiar o esforço”, pelo que “as outras componentes remuneratórias ajudam a minorar este problema”.

“Embora não tenha dados concretos, é racional admitir a hipótese de que, num contexto em que o salário mínimo sobe de forma mais acelerada do que os restantes salários, possa estar a verificar-se um maior recurso a estas componentes remuneratórias, como forma de tornar mais atrativos os cargos mais qualificados”, acrescenta Ricardo Ferraz.

Os economistas ouvidos pela Lusa apontam, por isso, o aumento da produtividade como um dos caminhos para travar a aproximação do salário médio do salário mínimo nacional, que é decidido por decreto do Governo e está atualmente fixado em 920 euros.

“A solução terá de passar por tentar que os restantes salários da economia acompanhem essa tendência de subida”, vinca Ricardo Amaro, indicando que o atual contexto de baixo nível de desemprego “ajuda nisso dado que a escassez aumenta o poder negocial dos trabalhadores”.

Contudo, “uma solução permanente terá de também passar por melhoria da produtividade, e também na atração de investimento estrangeiro de alta qualidade”, acrescenta.

Ricardo Ferraz realça que a compressão salarial é visível no setor público como no privado, acabando por se tornar “um estímulo a que não se assumam cargos de maior responsabilidade e um convite à emigração”.

Insta os decisores políticos a tomarem medidas que visem não apenas fomentar a produtividade, “mas também a formação académica e a experiência das pessoas”.

Pedro Braz Teixeira aponta como “pecado original” o facto de “o salário mínimo ter deixado de ser indexante para os apoios sociais, em 2007”, pelo que defende que “é necessário que os aumentos do salário mínimo passem a estar mais alinhados com os aumentos de produtividade”.

O acordo, assinado em outubro de 2024 entre o Governo, as quatro confederações empresariais e a União Geral de Trabalhadores (UGT), reviu em alta a trajetória do salário mínimo nacional, prevendo aumentos de 50 euros anuais para atingir 1.020 euros em 2028.

Não obstante, na sequência das eleições legislativas de 18 de maio, no programa de Governo, o executivo estabeleceu uma nova meta para abarcar toda a legislatura, apontando como objetivo que a retribuição mínima garantida atinja os 1.100 euros brutos por mês em 2029.

No programa eleitoral, a AD apontava como meta que o salário médio atinja os 2.000 euros em 2029, uma revisão face ao previsto no acordo assinado com os parceiros sociais, a apontar para 1.890 euros em 2028.