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(A) :: Tão vitais como em 2001, os Gorillaz vieram ao Primavera mostrar como uma banda virtual pode apontar-nos para o que é real

Tão vitais como em 2001, os Gorillaz vieram ao Primavera mostrar como uma banda virtual pode apontar-nos para o que é real

O segundo dia do festival contou também com uns Black Country, New Road a precisar de novos rumos, do triunfo dos Slowdive e de Baxter Dury e de uma pérola por descobrir chamada Annahstasia.

António Moura dos Santos
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Marisa Cardoso
photography

Um baixista satânico, uma guitarrista japonesa especialista em artes marciais, um baterista possuído pelos espíritos dos músicos já defuntos e um vocalista e teclista com os olhos completamente negros e a cabeça nas nuvens após dois acidentes de carro. Estes quatro desenhos animados tomaram a cultura pop e o panorama musical de assalto em 2001 com o lançamento do álbum de estreia dos Gorillaz. Perante uma plateia cheia no segundo dia (esgotado) do Primavera Sound Porto, fizeram questão de nos lembrar que são tão relevantes como o eram há 25 anos.

Da última vez que Damon Albarn esteve no Parque da Cidade a corporizar a sua banda virtual, em 2022, os tempos eram outros — para ele e para nós —, apesar de só se terem passado quatro anos. Na ressaca da pandemia, já sabíamos da vinda da inteligência artificial, mas não do peso fundamental que ameaçaria ter nas nossas vidas, a par das nossas perceções de realidade toldadas pelo algoritmo. Para os mentores dos Gorillaz — Albarn, o musical, e Jamie Hewlett, o visual —, este período ficaria também marcado pela perda dolorosa de entes queridos.

https://observador.pt/2026/03/02/depois-dos-dias-do-demonio-os-gorillaz-desceram-da-montanha/

É assim que chegamos a 2026 e os Gorillaz trazem-nos The Mountain, disco parcialmente gravado na Índia e altamente inspirado nas suas tradições musicais e espirituais, em particular no que toca à morte e ao além. Estes são temas espelhados não só nas letras, como no facto de muitas das colaborações deste álbum serem póstumas, de Mark E. Smith a Tony Allen. É difícil não olhar para esta fase do projeto de Albarn e para o mundo sem pensar num jovem George Harrison nos anos 60, a virar-se para a Índia quando os Beatles estavam no início do fim. Ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas se sentiam desiludidas com o rumo das sociedades modernas, desembocando nos movimentos contraculturais do Flower Power e do Maio de 68.

Serve este preâmbulo para explicar que, se a música dos Gorillaz, por força do seu ecletismo e da sua composição exímia, já teimava em não envelhecer, no Porto foi-nos apresentada como um bálsamo ou mesmo um antídoto ao desespero destes tempos. Que num remoinho de realidades fabricadas e ilusões, uma banda concebida para ser uma entidade virtual tem o condão de nos apontar para o que é real. E esta constatação não parece ser apenas nossa: para o fim, em The Shadowy Light, dedicada à cantora indiana Asha Bhosle — que nela participou e que morreu em abril —, a realização do concerto fez a câmara passar por filas de espectadores, como que dizendo “lembremos os que já partiram, mas estimemos os que ainda cá estão”. O vocalista fez isso mesmo, recordando não só Bhosle como David Hockney, e aproximando-se para junto do público em mais do que uma ocasião.

E por falar em estima, Albarn nem precisava de ter-nos pedido para que mostrássemos “algum apreço por esta banda única” no final do concerto. Qualquer ser senciente tê-lo-ia feito, perante não só o batalhão de artistas em palco, como no rol de luxo de convidados que participou em temas recentes e antigos. À solenidade do arranque de The Mountain, repleta de arranjos belíssimos, e à triste ironia de The Happy Dictator, seguiram-se regressos ao passado, por exemplo, em Tranz, 19-2000, numa Andromeda turbinada e numa das mais perfeitas joias da pop, On Melancholy Hill. Pelo caminho tivemos uma das primeiras participações de peso, com Joe Talbot, dos Idles, a fazer o aquecimento para o espetáculo da banda britânica este sábado, emprestando a sua acidez a The God of Lying. E que bom foi vê-lo de mãos dadas com Albarn em palco, como só dois homens maduros o fazem.

Talbot, todavia, não seria nem de perto a única personalidade distinta a participar fisicamente neste concerto. Orange County, brilhante exemplo da safra mais recente de canções dos Gorillaz, teve direito à participação da fenomenal Kara Jackson, e tanto Stylo como Damascus contaram com os préstimos do lendário Yasiin Bey (para os mais distraídos, ex-Mos Def), que volta aos palcos portugueses em agosto no Kalorama com os Black Star. E vale a pena referir que, apesar de serem “prata da casa” por fazerem várias digressões com o projeto, a sul-africana Moonchild Sanelly e o rapper norte-americano Bootie Brown mereceram igual apreço: se nem um problema técnico demoveu a primeira de ser um furacão em With Love to an Ex, o segundo trouxe a costumeira energia a Dirty Harry. E se a banda em palco tocou “nas horas” durante todo o concerto, esta canção foi encarada com particular intensidade.

Pelo fim, dois dos maiores hinos dos Gorillaz, o tipo de canção que quase por si já vale o bilhete: Feel Good Inc., de refrão cantado a plenos pulmões pelo público e com os versos dos De La Soul a conferirem o necessário frenesim, e Clint Eastwood, que não teve a presença de Del the Funky Homosapien, mas permitiu-nos ver Albarn a elevar a melódica ao estatuto de instrumento divino.

ZYN, o palco das incógnitas

Não, com este subtítulo não pretendemos tecer comentários quanto à polémica da promoção a bolsas de nicotina neste festival. A questão prende-se mesmo com duas das atuações a que assistimos neste palco, normalmente destinado a artistas mais fora da caixa no Primavera. Esse termo, de resto, serve que nem uma luva aos Black Country, New Road.

Para quem não está familiarizado com o sexteto britânico, os BC,NR são um coletivo cujo objetivo da sua fundação parece ter sido o de tornar propositadamente difícil rotulá-los. Exageramos, claro, mas a banda de Cambridge vai a tantas paisagens sonoras distintas que mais vale recorrermos simplesmente ao insuficiente “art rock” ou “rock experimental”. Esse é o seu maior trunfo, mas também parece ser o maior problema.

O grupo deparou-se com uma crise existencial quando o seu vocalista e principal compositor, Isaac Wood, saiu da banda em 2022. Daí vem uma das incógnitas acima mencionadas, já que, numa assentada, os BC,NR não só perderam a sua força motriz criativa, como viram todas as canções dos muito celebrados For the First Time e Ants from Up There ficarem órfãs da sua voz. Como resultado, a banda viu-se forçada a repensar papéis entre os seus elementos — com Tyler Hyde, Georgia Ellery e May Kershaw a passar a dividir entre si a tarefa de cantar — e a reformular o processo de composição.

Desta dura adaptação surgiu Forever Howlong, em 2025, o único disco a fornecer as canções deste concerto, fruto da decisão dos BC,NR de deixarem o restante material para trás, por respeito a Wood. De um ponto de vista superficial, a mudança permitiu a Hyde, Ellery e Kershaw demonstrarem que têm vozes magníficas em direito próprio — Kershaw, em particular, qual Joanna Newsom britânica, que em For the Cold Country nos leva por uma viagem muito especial. No entanto, essa alteração também encaminhou a banda a alimentar os maiores vícios de que sofre: escrever músicas que não são nem de perto canções.

Como foi mencionado num artigo do Observador de 2021, os BC,NR causaram logo impacto desde que chegaram à cena, fruto de um estilo muito aventureiro, onde melodias simples dão lugar, às vezes de forma quase imediata, a passagens de profusão técnica extasiante, ou não fossem eles músicos de exceção; no entanto, ao vê-los ao vivo nesta fase — e não tendo outras canções como referência porque não as tocam —, ficamos com a nítida sensação de que o todo é menor que a soma de todas as partes.

https://observador.pt/2021/02/18/a-primeira-vez-dos-black-country-new-road-dividir-melomanos-para-tentar-reinar/

Para dar alguns curtos exemplos, em Strangers temos violino e acordeão, Salem Sisters conta com saxofone e Two Horses com flauta transversal. Mary é uma canção onde Charlie Wayne troca a bateria por um banjo e em Bestie o teclado de Kershaw passa a soar a um cravo. Temos direito a cascatas de vozes ou a entrelaçamentos lindíssimos de diferentes linhas vocais, a mudanças de tempo abruptas ou a ritmos de jazz impossivelmente groovy. Tudo isto é belo, é tecnicamente desafiante e é, também, algo que acaba por entrar por um ouvido e sair por outro, com refrães que soam a versos e versos a refrães.

Entenda-se que esta não é uma defesa de músicas simples ou pouco trabalhadas; veja-se como os supracitados Gorillaz também fazem do ecletismo força, mas produzem pérolas em forma de canção. Pelo contrário, este é um apelo a que os BC,NR refinem o seu processo para que nos maravilhem tanto no palco como a ouvir de phones. Que nos deixem “de boca aberta” tanto quanto os deixamos a eles cada vez que vêm a Portugal, o “melhor sítio onde acabar” a sua digressão que agora termina, como Hyde nos disse.

Passada a primeira incógnita, sinalizemos que a segunda se dirige a Annahstasia e a pergunta é muito simples: porque é que não há uma estátua desta mulher em todo o lado? Pode parecer hiperbólico, mas é provavelmente aquilo em que acredita quem viu a cantora de Los Angeles a abrir o ZYN esta sexta-feira, tal foi o grau de reconhecimento por meio de palmas e gritos quando acabou o concerto. Nós tendemos a concordar.

A voz desta mulher desafia a física, sendo terrosa, mas límpida, delicada e ao mesmo tempo capaz de fazer transbordar oceanos, súmula de todas as grandes vozes negras de que nos lembramos numa só, sendo, ao mesmo tempo, absolutamente sua. Tem realmente de ser ouvida ao vivo para se compreender a gravidade destas palavras, mas as canções gravadas são um bom começo. E a esse respeito, como foi referido no artigo dos nossos álbuns favoritos de 2025, custa acreditar que Tether seja o seu álbum de estreia, apenas precedido de dois EPs, tal é a segurança dos seus temas, entre a folk e o registo de cantautora.

Essa confiança foi também trazida para esta atuação no Porto, preterindo os arranjos mais cheios e nem sequer bateria para atuar meramente com duas guitarras — uma delas é Annahstasia —, um violoncelo e um contrabaixo. Esta apresentação mais esparsa obrigava a um especial tato do público para não fazer barulho, o que foi escrupulosamente respeitado. “Can I be lonely here with you”, cantou repetidamente no final de Believer, pedindo ao público para fazer o mesmo. O grau de hipnose foi tal que, se nos tivesse dito para entrarmos no mar vestidos, teríamos apenas perguntado “em que praia?”

O triunfo da geração X

Sabem quem é que tem duas pernas e passou quase uma hora a tentar abri-las num ângulo superior a 90 graus? A mesma pessoa que tanto ameaçou que ia abrir a camisa suada e expor o peito que acabou por fazê-lo, e de forma a roçar o lascivo. Trata-se de Baxter Dury, autointitulado “nepo baby em saldos”, filho do ícone punk Ian Dury e que decidiu trilhar o seu próprio caminho em vez de ficar à sombra do pai.

A melhor forma de descrever o que o cantor britânico faz é pensar nos Sleaford Mods, mas na perspetiva de um hedonista com demasiado dinheiro, tempo e repulsa pelos seus pares da boa vida — e com muito melhor música também. Dury metralha pérolas de fel e corrosão tendo como pano de fundo batidas ora mais próximas do post-punk, ora da disco ou do rave — especialmente desde que pediu ao seu produtor para que o seu mais recente disco, Allbarone, se aproximasse do Brat de Charli XCX. O próprio admitiria que tomou o gosto pela música de dança nos últimos anos, achando-a um bom complemento ao seu storytelling tão gozão quanto cru.

Tendo como principal ajudante Fabianne Débarre, que usa a sua voz de anjo para os refrães e toca teclas neste ensemble, Dury dedica-se a correr de um lado para o outro do palco, em dança desbragada, alimentada pela secção de baixo e bateria. São estas duas componentes que garantem também que não se torne numa atuação plana, dando o sumo extra que levou o público em frente ao palco Estrella Damm a dançar do início ao fim.

Horas depois, teríamos companheiros de geração que convidariam ao exato oposto, à mais pura das contemplações. Nome maior do shoegaze, os Slowdive são fregueses deste festival desde que se reuniram: estiveram por aqui em 2014, em plena euforia do retorno, e em 2022, antes de lançarem Everything Is Alive. E há uma razão para ser assim, é que não só têm um estatuto de lendas, como não têm vivido só do passado, tendo editado dois álbuns. Além disso, por alguma razão, o seu género musical começou a tornar-se popular no TikTok e junto da gen Z, motivando ainda mais interesse.

No desenho animado Big Mouth, uma das personagens adolescentes descobre ter em casa um gato gigante que se quer deitar em cima dela e deixá-la confortável. É um gato da depressão, e a forma como faz vítimas é esmagá-las sob o seu corpo, deixando-as sem vontade para fazer nada. Ora, a comparação aqui não é que os Slowdive provocam depressões, mas sim que o seu som, de várias camadas de guitarras a desenrolar-se sobre nós, provoca igual indolência, hipnotiza.

Neil Halstead e Rachel Goswell sabiam o que estavam a fazer, mesmo quando toda a imprensa britânica os quis mandar abaixo. A prova disso é que esses mesmos órgãos hoje celebram os Slowdive pelo seu papel na música dos anos 90. Não é difícil perceber-se porquê, basta contabilizar a sequência de enormes canções que se seguira, como Shanty, Star Roving ou Souvlaki Space Station. “It matters where you are”, cantam eles em When the Sun Hits, enquanto no recinto os últimos raios de sol morriam no céu.

O Primavera Sound Porto 2026 continua este sábado e domingo, com nomes como Massive Attack, Idles, Jade ou Peggy Gou.