A leitura maçónica de uma encíclica papal pode ser intelectualmente interessante. Pode até ser cortês, bem escrita e animada por um sincero desejo de diálogo. Mas há um ponto que não pode ser dissolvido numa névoa de boas intenções: para a Igreja Católica, a pertença à Maçonaria continua proibida aos fiéis católicos.
Esta não é uma relíquia oitocentista, nem um capricho disciplinar, nem uma incompreensão sentimental entre instituições que afinal diriam o mesmo por palavras diferentes. É uma posição doutrinal reiterada pela Santa Sé: a filiação maçónica é incompatível com a fé católica. O fiel que se inscreve numa associação maçónica encontra-se em estado de pecado grave e não deve receber a Sagrada Comunhão. A disciplina canónica atual fala de penas justas e, para quem promove ou dirige certas associações contra a Igreja, de interdição; mas o núcleo da questão permanece intacto: não há dupla pertença pacífica entre a iniciação maçónica e a plena comunhão católica.
Convém começar por aqui, porque a tentação contemporânea é transformar todas as divergências em mal-entendidos. O católico e o maçom falariam ambos de fraternidade; logo, estariam no mesmo terreno. Ambos falariam de aperfeiçoamento moral; logo, caminhariam para o mesmo fim. Ambos invocariam Deus ou um Ser Supremo; logo, professariam a mesma verdade em linguagens diferentes. É precisamente aqui que reside o erro.
A Igreja Católica não é uma sociedade moral genérica. Não é uma escola de aperfeiçoamento interior, uma federação de homens de boa vontade ou uma associação espiritual entre outras. A Igreja confessa Jesus Cristo como Filho de Deus, Salvador do mundo, Caminho, Verdade e Vida. A sua fé não repousa numa vaga elevação moral, mas numa Revelação. Não se funda no consenso simbólico dos homens, mas na iniciativa de Deus. Não considera todas as religiões expressões equivalentes de uma mesma procura humana; proclama que Deus entrou na história, falou, encarnou, morreu e ressuscitou.
A Maçonaria regular pode responder que não é uma religião. Mas essa resposta não resolve o problema; antes o torna mais claro. Uma instituição que exige crença num Ser Supremo, que utiliza ritos de iniciação, linguagem simbólica, graus de progressão, juramentos, segredo, templo, altar, livro sagrado e uma pedagogia própria da salvação moral do homem não se torna neutra apenas por declarar que não é religião. Pode não ser religião no sentido confessional clássico. Mas propõe uma antropologia, uma noção de verdade, uma disciplina espiritual e uma forma de pertença que concorrem, no interior da consciência, com a forma católica da fé.
O ponto decisivo não é saber se os maçons são pessoalmente bons ou maus. Muitos serão homens honrados, caritativos, patriotas, disciplinados, amigos da ordem e da cultura. A Igreja nunca precisou de formular um juízo de iniquidade pessoal sobre cada maçom para reconhecer, com clareza doutrinal, a incompatibilidade objetiva entre os princípios maçónicos e a fé católica. A questão é outra: que verdade se professa? Que Deus se adora? Que autoridade se reconhece? Que tipo de fraternidade se constrói? E que lugar ocupa Cristo nessa arquitetura?
Para a Igreja, Deus não é o mínimo denominador comum das religiões. Não é uma fórmula superior suficientemente vaga para acolher todos sem perturbar ninguém. Não é o Grande Arquitecto que cada um interpreta segundo a sua tradição, sensibilidade ou conveniência. O Deus cristão é Pai, Filho e Espírito Santo. Revela-se em Cristo. Fala na Escritura e na Tradição. Age nos sacramentos. Chama o homem não apenas ao aperfeiçoamento moral, mas à conversão, à graça, à santidade e à vida eterna.
A Maçonaria, pelo contrário, tende a colocar as religiões particulares sob uma abóbada simbólica comum. Pode respeitá-las; pode até honrá-las. Mas esse respeito opera a partir de fora, como se cada tradição fosse uma linguagem cultural legítima de uma verdade mais ampla e menos definida. Para a Igreja, esta operação é inaceitável. A fé católica não aceita ser integrada como variante particular de uma sabedoria superior. Cristo não é uma metáfora entre outras. A Eucaristia não é um símbolo de fraternidade universal. A Igreja não é uma obediência espiritual entre muitas.
Também a palavra “fraternidade” exige discernimento. A fraternidade cristã nasce da criação e da redenção. Todos os homens possuem dignidade porque foram criados à imagem de Deus; são chamados à comunhão porque Cristo morreu por todos. A fraternidade cristã não é apenas horizontal. Tem raiz vertical. Vem de Deus e regressa a Deus.
A fraternidade maçónica, mesmo quando se apresenta como moralmente elevada, tende a fundar-se numa lógica iniciática e simbólica. O homem progride por graus; é introduzido em conhecimentos reservados; aperfeiçoa-se mediante ritos, alegorias e disciplina interna. A Igreja não pode aceitar que essa pedagogia iniciática se sobreponha, se acrescente ou se apresente como complemento da iniciação cristã recebida no Batismo, confirmada no Crisma e alimentada na Eucaristia.
Há ainda uma razão eclesial e política, que não deve ser omitida. A Igreja tem uma memória histórica longa. Sabe que muitas correntes maçónicas desempenharam papel ativo em programas de secularização militante, anticlericalismo, expulsão da religião da vida pública, hostilidade à autoridade eclesial e tentativa de reconstrução da sociedade sem referência a Deus revelado. É verdade que há maçonarias diversas, ritos diversos, países diversos, sensibilidades diversas. Mas a Santa Sé não julgou apenas episódios isolados; julgou uma matriz filosófica e espiritual.
Essa matriz foi descrita pelo Magistério como naturalista, relativista e racionalista. Naturalista, quando reduz o horizonte humano ao que a razão e a moralidade natural conseguem ordenar. Relativista, quando coloca as religiões em plano funcionalmente equivalente. Racionalista, quando submete a Revelação ao tribunal de uma sabedoria humana superior ou exterior à fé. A Igreja não condena a razão; pelo contrário, defende-a. Mas recusa que a razão humana, organizada em sistema simbólico autónomo, se torne árbitro último da verdade revelada.
É por isso que a apropriação maçónica de uma encíclica papal deve ser recebida com reserva. Naturalmente, um maçom pode concordar com passagens sobre dignidade humana, justiça social, responsabilidade, liberdade, trabalho, solidariedade ou paz. A doutrina social da Igreja dirige-se à consciência humana e ilumina a ordem temporal. Pode ser lida por crentes e não crentes. Pode inspirar pessoas fora da Igreja. Mas uma concordância parcial com a ética social católica não equivale a comunhão doutrinal.
A Igreja pode dialogar com todos. Deve tratar todos com respeito. Pode cooperar, em matérias concretas, com quem defende a dignidade humana, a paz, a liberdade religiosa, a justiça ou a proteção dos vulneráveis. Mas diálogo não é dissolução. Respeito não é relativismo. Cooperação prática não é compatibilidade espiritual. A Igreja não pode trocar a verdade por cordialidade, nem reduzir o Evangelho a um programa humanista de boas maneiras.
A frase “a Igreja é para todos” também não pode ser usada contra a própria Igreja. Sim, a Igreja é para todos. Mas é para todos enquanto chamada à conversão, não enquanto legitimação automática de todas as pertenças, crenças e práticas. Cristo acolhe todos; não confirma tudo. A misericórdia não elimina a verdade. A porta aberta da Igreja não é uma autorização para entrar mantendo intactas todas as lealdades incompatíveis com a fé.
Por isso, a posição católica deve ser reafirmada sem agressividade, mas sem ambiguidades. Um católico não deve pertencer à Maçonaria. Quem pertence formal e conscientemente a uma loja maçónica não deve aproximar-se da Sagrada Comunhão enquanto persistir nessa situação. Quem deseja viver plenamente a fé católica deve escolher. Não por hostilidade, não por fanatismo, não por medo do diálogo, mas por coerência.
A Igreja não nega que existam maçons virtuosos. Nega que a Maçonaria seja compatível com a fé católica. Não nega que haja ideais nobres em certas formulações maçónicas. Nega que esses ideais possam substituir, enquadrar ou relativizar a Revelação cristã. Não nega a fraternidade humana. Nega que a fraternidade possa ser arrancada à verdade sobre Deus, sobre Cristo e sobre a Igreja.
A questão, no fundo, é simples: ou Cristo é o centro, ou é apenas uma referência entre outras. Para a Maçonaria, pode ser uma grande luz moral no vasto templo simbólico da humanidade. Para a Igreja Católica, é o Senhor.
E essa diferença é toda a diferença.