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(A) :: Alguém pode escrever um tricolon com anáfora ao Presidente?

Alguém pode escrever um tricolon com anáfora ao Presidente?

No 10 de Junho, ficou provado mais uma vez que os nossos políticos acham que um discurso se insere na mesma família retórica de uma lista de compras de supermercado. Não tinha de ser assim.

Miguel Pinheiro
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O discurso de 10 de Junho de António José Seguro deixou muita boa gente desanimada, decepcionada e desiludida — e, sejamos sinceros, deixou muita outra gente a ressonar sonoramente. Não por causa daquilo que o Presidente disse, mas por causa da forma como disse. Mais uma vez, ficou provado que os nossos políticos acham que um discurso se insere na mesma família retórica de uma lista de compras de supermercado. Em Portugal, 99% dos discursos políticos são, como dizer?, chatos. Não podemos, por isso, argumentar que António José Seguro seja original nesse defeito (aliás, não podemos argumentar que António José Seguro seja original no que quer que seja).

Tudo isto é desolador porque um discurso pode ser entusiasmante, emocionante, mobilizador e, até, comovente. E a obrigação de um político é entusiasmar-nos com ideias, emocionar-nos com a nossa capacidade de fazer melhor, mobilizar-nos com desafios e, por vezes, comover-nos com aqueles momentos de partilha que transformam um grupo de pessoas num povo. Mas, para isso, é preciso perceber que escrever um discurso é como assentar tijolos: tanto uma coisa como a outra só serão eficazes se as pessoas souberem o que estão a fazer.

Há uns anos, Boris Johnson, que escreveu um livro sobre Winston Churchill, explicou numa entrevista porque é que os discursos do primeiro-ministro britânico eram tão poderosos. O primeiro exemplo que usou foi o de um célebre discurso sobre a Batalha de Inglaterra, durante a qual os pilotos britânicos repeliram os ataques dos aviões nazis. “Ele dizia: ‘Nunca antes, no campo do conflito humano, tantos deveram tanto a tão poucos’. Nesse momento, Churchill conquista-nos completamente. Depois de ouvirmos a frase, é quase impossível esquecê-la. Em termos retóricos, Churchill está a usar um tricolon descendente com anáfora. Temos aqui um uso instintivo de dispositivos retóricos clássicos.”

Disponibilizo-me aqui para pagar uma rodada se houver mais do que três políticos portugueses que tenham um assessor que saiba o que é um tricolon ou uma anáfora — quanto mais usá-los. Um tricolon, como se perceberá facilmente, é uma sucessão de três palavras ou frases que pretende dar ritmo e velocidade a uma ideia. Júlio César usou esse recurso na proclamação “Vim, vi, venci”. Marco António também: “Amigos, romanos, compatriotas, escutai-me.” E uma anáfora, claro, é a repetição de uma palavra com o objetivo de marcar um ponto. No discurso de Gettysburg — um dos mais famosos de sempre —, Abraham Lincoln assegurou que “o governo do povo, pelo povo, para o povo, não desaparecerá da face da Terra”.

As possibilidades são infinitas para um político português que queira fazer um discurso que seja mais do que uma colagem de frases desconexas. Ainda sobre Churchill na Segunda Guerra Mundial, Boris Johnson explicou, com piedoso didatismo: “Na frase ‘Isto não é o fim, não é o princípio do fim, mas é talvez o fim do princípio’ temos um tricolon ascendente. Mas é enriquecido por um quiasmo, porque ele pega na palavra ‘fim’ e na palavra ‘princípio’ e depois inverte-as. E esse também era um recurso muito usado pelos grandes oradores da Antiguidade e, na verdade, era um dos truques linguísticos preferidos de Churchill. Ele gostava de dizer: ‘Estou pronto para encontrar o meu Criador. Se o meu Criador está preparado para a provação de me encontrar, isso já é outra questão’. Ou dizia: ‘Eu tirei mais do álcool do que o álcool tirou de mim’.”

“Truques linguísticos” — é isso que falta ao nosso Presidente da República. Se António José Seguro não gostar de Boris Johnson (e presumo que não goste, tendo em conta que foi um primeiro-ministro conservador que liderou a insurgência do Brexit), pode sempre recorrer a Toby Ziegler. Ele era o principal speechwriter de Jed Bartlet, o Presidente americano progressista da série “West Wing”. Num dos episódios, Toby está a espumar enquanto conversa com uma agente da polícia sobre uma manifestação contra a globalização de ativistas anarquistas que estão a bloquear as ruas. Irritadíssimo, desabafa: “Sabe quais são os benefícios do comércio livre? A comida é mais barata. A comida é mais barata, a roupa é mais barata, o aço é mais barato, os carros são mais baratos, o serviço de telemóvel é mais barato. Está a sentir que estou a criar um ritmo aqui? Isso é porque sou um speechwriter, sei como fazer passar uma ideia. O comércio livre baixa os preços e aumenta o rendimento. Viu o que eu fiz aqui, com o ‘baixa’ e com o ‘aumenta’? Chama-se a isto ciência da atenção do ouvinte. Usamos repetição, usámos opostos em movimento.”

António José Seguro não poderia, certamente, perguntar a nenhuma das pessoas que assistiram ao discurso de 10 de Junho: “Viu o que eu fiz aqui?” Na verdade, não havia nada para ver, não havia nada para ouvir, não havia nada para recordar. (Desculpem, mas senti que precisava mesmo de acabar isto recorrendo, pouco subtilmente, a um tricolon com anáfora).