Manhã luminosa. Consulto no caderno costumeiro algumas notas, escrevinho uma série de afazeres. Na mesa ao lado, um casal de namorados escrevinha também, numa gramática muito sua, a respiração coincidente dos gestos eternos. Não conversam sequer – consentem-se. Quem os olhasse distraidamente talvez apenas visse dois jovens sentados diante de um café que arrefece. Quem permanecesse um pouco mais descobriria que, entre eles, se ergue uma casa sem paredes, sustentada por esse material raríssimo que é a atenção oferecida sem cálculo e recebida sem espanto.
O dom de estar atento a milagres que se repetem talvez não consista em esperar acontecimentos raros, mas em aprender a reconhecer, em tudo quanto retorna, um excesso que não se esgota nunca. Estar atento a milagres repetidos significa consentir que certas dádivas regressem sob disfarces humildes e, ainda assim, reacendem em nós a coragem de recomeçar, como se a Criação passasse outra vez pelo mesmo lugar e dissesse, sem alarde “Faça-se luz” sobre o que já conhecíamos, mas ainda não víamos desta maneira.
Sem saber que também ele repetia uma história, a de Kaldi da Abissínia, o beduíno de quinze anos Amr Kunta levou as suas cabras a pastar e, ao voltar para as recolher horas mais tarde, encontrou-as excitadas, com as pupilas dilatadas e a vontade transtornada. Tinham comido umas estranhas bagas vermelhas que afugentavam o sono e inquietavam as patas. Depois de as provar ele mesmo, o seu sabor entre o ácido e o amargo desagradou-lhe. Chegou tarde ao povoado, que, com as suas tendas de pelo de camelo, virava as costas às chuvas. Contou o sucedido ao mais velho, e este voltou para apanhar mais frutos ao lugar onde as cabras tinham comido. Por duas noites e um dia falaram o velho e o jovem de estrelas cadentes e de ventos, dunas e poços. O coração de ambos batia com força, a lua do verão que se extinguia pareceu-lhes muito mais próxima da terra do que alguma vez tinha estado. Tinham muita sede. Passados três dias, Amr Kunta foi a um mosteiro próximo e ofereceu aos monges as estranhas bagas vermelhas, o redescoberto café.
O primeiro impulso dos religiosos foi guardar o segredo, planear uma viagem até ao lugar onde pastavam as cabras, identificar as plantas e tentar, se possível, aclimatá-las ao seu horto. O jovem beduíno acompanhou-os e, em sinal de agradecimento, recebeu três livros: uma gramática árabe, um dicionário inglês‑árabe e o longo e extraordinário poema de Attar, o Perfumista, Mantiq ut‑Tair, A linguagem dos pássaros. Ao descobrirem que mal sabia ler, um dos monges ofereceu-se para o ajudar. Amr dizia que aquelas aulas eram o mais parecido com a felicidade que alguma vez conhecera. Comprovou que o café não podia beber-se a qualquer hora, e também que era ideal estudar sob os seus efeitos. Não tardou a inteirar-se da história do seu predecessor na descoberta – Kaldi da Abissínia. O velho da sua aldeia, a quem Amr, por sua vez, ensinou a ler, partilhou com ele as aventuras das aves que procuram o seu rei, Simurg.
Também as cabras pareciam mais sábias agora, mas era preciso afastá-las à força das plantas que lhes provocavam uma estranha euforia e, por vezes, irritabilidade. Amr Kunta destinou um pequeno espaço entre os seus haveres aos livros e, quando não os lia, contemplava-os atentamente, como se estivessem vivos e fossem, a qualquer momento, erguer-se e pôr-se a andar. A gramática árabe interessou‑lhe muito pouco; era como olhar para o interior de um relógio: veem-se os seus pequenos mecanismos, mas o tempo parece nunca passar. Em contrapartida, o dicionário inglês encantou-o pelo som dessa língua, que era a de muitos exploradores que solicitavam o seu auxílio para atravessar as areias até ao grande oásis. Quanto ao poema de Attar, o persa, chegou a memorizar muitos dos seus versos e, por intermédio deles, a compreender o papel que a vontade e a devoção desempenham nas viagens. Quando morreu a mais velha das suas cabras, esfolou-a, pôs a pele a secar, raspou-a e preparou-a e, por fim, forrou com ela os seus livros. Como bom nómada, o pastor beduíno não temia as mudanças de paisagem nem as mudanças de residência. Alternava o chá com o café, o seu trabalho de pastor com o ensino das crianças. Pediu e conseguiu mais livros para elas. Adorava ensinar. Sob os efeitos do café compreendeu que a velocidade começa como uma vantagem e acaba em distrações e acidentes. Ao contar a um viajante britânico a história dos seus três primeiros livros e ao ouvi-lo dizer que em Londres havia bibliotecas com milhares deles, sentiu uma mistura de vertigem e ansiedade. O estrangeiro disse-lhe também que o saber era infinito e que era impossível chegar a conhecer tudo.
Uma tarde encontrou o velho do seu clã sentado e morto, olhando o horizonte. Em nome de todos, recitou as orações de despedida e foi caminhar sozinho pelas colinas de lírios secos e de cegonhas viajantes. Amr Kunta recebera muitos sorrisos do velho, mais do que da sua própria família. Unira-os primeiro a curiosidade e depois a leitura. Nunca discutiam, aprenderam juntos a torrar os grãos de café até ao ponto exacto que produzia o melhor sabor. Uma noite, muitos anos depois desse feito, decidiu transformar o exemplar encadernado do Mantiq ut‑Tair numa almofada e apoiar nele o seu sono. Não tardou a flutuar sobre o Caf, o monte sagrado dos encontros, no qual habita Simurg. Havia ali tantos pássaros diferentes que sentiu que era vão contá-los, mas, ainda assim, tentou. Ao despertar, compreendeu que eram letras, letras aladas, sempre em voo para alguns olhos e alguma boca. Mais consolo do que alegria, mais serenidade do que aprendizagem.
Amr Kunta lavou o rosto, olhou em redor com renovada curiosidade e citou Attar, o Perfumista: — Os meus segredos não são conhecidos por todo o mundo, mas a rosa — disse o rouxinol — sabe com certeza quais são.
Amr Kunta jamais, em toda a sua vida, viu um rouxinol, mas viu uma rosa. Duas vezes.
Todo o dom, assim entendido, é uma escola de atenção: não resolve nada, não responde a nenhuma pergunta urgente, não salva vidas nem altera destinos, e, no entanto, modifica o olhar de quem o acolhe: uma flor torna-se sacramento mínimo de um amor que não chegou a concretizar-se, de uma promessa que não se cumpriu. Ao aceitarmos uma rosa, aceitamos também a condição de tudo o que é dom – não se possui, guarda-se enquanto dura e, depois, é a memória que continua a trabalhar por dentro, como um perfume que já não se sente, mas orienta. Talvez seja por isso que a rosa, mesmo murcha, permanece símbolo de milagre discreto: lembra-nos que o que recebemos gratuitamente, mesmo quando desaparece, deixa em nós uma disponibilidade mais ampla para os próximos milagres que se repetem, e que cada pequena flor oferecida abre, por instantes, um caminho entre o segredo e a sua revelação.
Como aquele que desbravou o olhar da rapariga da mesa ao lado quando, desviando-o do rosto do amado e cruzando-o com o meu, descreveu um arco sob cuja abóboda inconsútil se abrigam todos os regressos. Sorriu quase imperceptivelmente, não para mim, mas para a possibilidade de que o mundo fosse, por um instante, suficientemente hospitaleiro para acolher três estranhos na mesma revelação: a rosa floresce sempre na fronteira entre o oferecimento e a perda. A sua beleza não consiste em durar, mas em ensinar que há coisas cuja fragilidade é precisamente a forma mais alta de permanência.
Talvez amar seja isto: inventar lugares onde o regresso antecede a ausência. Cada encontro repete o primeiro sem o copiar; cada despedida contém já a promessa discreta de uma nova aproximação. O coração aprende então a mover-se como os antigos peregrinos, que percorriam longas distâncias apenas para descobrir que o destino era um nome mais exigente para o verbo ‘voltar’.
Pensei ainda em Amr Kunta, nas bagas vermelhas, nos livros cobertos de pele de cabra, na rosa que viu duas vezes e no rouxinol que nunca encontrou. Tudo nele parecia ensinar que os grandes milagres não se impõem: regressam. Regressam sob a forma de uma leitura retomada, de um aroma reconhecido, de uma memória que desperta ao primeiro gole de café ou ao primeiro perfume de uma flor aberta. Talvez Deus prefira esta pedagogia paciente da repetição, na qual o extraordinário se oculta tão profundamente no quotidiano que apenas os atentos o conseguem distinguir.