Há dias em que penso que o Gato de Cheshire trabalharia numa urgência hospitalar.
Não como doente. Não como médico. Talvez apenas sentado em cima de um armário qualquer, com aquele sorriso enigmático, a observar-nos a correr de um lado para o outro.
E, quando alguém lhe perguntasse se enlouquecemos, responderia com a maior naturalidade:
— Claro que enlouquecemos. Somos todos loucos aqui.
Há uma certa lógica própria nas urgências hospitalares. Uma lógica que, vista de fora, parece completamente absurda, mas que nós, habitantes deste pequeno País das Maravilhas, aceitamos como se fosse a única forma possível de existir.
Uma ambulância fica retida porque não há uma maca disponível no hospital. Entretanto, a poucos metros de distância, um doente com alta continua numa maca porque não existe uma ambulância disponível para o levar para casa.
Se o Cheshire estivesse presente, provavelmente inclinaria a cabeça e sorriria.
Eu também sorriria, se não tivesse uma lista de dezenas de doentes para ver antes de o turno terminar.
Há computadores por todo o lado. Três, quatro, cinco janelas abertas em simultâneo. Programas que não comunicam entre si. Passwords que expiraram no momento menos oportuno. Impressoras de etiquetas com uma personalidade própria e uma curiosa tendência para entrar em greve nos dias mais caóticos.
O sistema pede-nos que sejamos rápidos, eficientes e humanos.
Por esta ordem, por vezes.
E nós tentamos. Mesmo quando o computador demora mais tempo a abrir uma janela do que aquele que gostaríamos de dedicar a ouvir um doente. Mesmo quando nos transformamos em especialistas em contornar sistemas que deveriam ajudar-nos.
O mais assustador na loucura não é ela existir.
É deixarmos de a ver.
É o dia em que deixamos de estranhar que uma impressora tenha mais influência no funcionamento de uma urgência do que deveria. Que um programa informático criado para ajudar nos roube tempo que deveria pertencer aos doentes. Que passemos a chamar “normal” ao que, visto de fora, seria motivo de espanto.
Talvez seja por isso que precisamos do Gato de Cheshire.
Alguém que, de vez em quando, apareça no meio da confusão, se sente num canto da sala de observações e nos lembre, com um sorriso quase cruel, aquilo que esquecemos: Isto não é normal.
Porque o verdadeiro perigo dos lugares onde todos enlouquecem é que, ao fim de algum tempo, a loucura passa a chamar-se rotina.