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(A) :: "Uma equipa para levar a sério". Como a "Onda Azul" de Curaçau está a devolver a pureza do futebol ao Mundial

"Uma equipa para levar a sério". Como a "Onda Azul" de Curaçau está a devolver a pureza do futebol ao Mundial

A energia contagiante da seleção do Curaçau está a deixar uma marca em Boca Raton. De uma futebolada com crianças ao viral autocarro azul, o ritmo caribenho da equipa marca a diferença neste Mundial.

Miguel Cordeiro
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Quem passa pelas imediações da Florida Atlantic University (FAU) nestes dias é imediatamente contagiado por uma atmosfera que destoa do habitual rigor das seleções que disputam um Mundial. O compasso ritmado da música caribenha ecoa pelas avenidas universitárias, anunciando a aproximação de um autocarro escolar que foi pintado de um azul vibrante. Lá dentro, os jogadores dançam, cantam e batem palmas com uma genuinidade desarmante. É impossível não sorrir. O veículo transporta a comitiva de Curaçau, a mais pequena nação em população (menos de 160 mil habitantes) e em extensão territorial a qualificar-se para a fase final de um Campeonato do Mundo em toda a história da prova. No Mundial de 2026, este pequeno ponto no mapa caribenho recusa-se a ser apenas um figurante; Curaçau quer, acima de tudo, viver o torneio em toda a sua plenitude.

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Estas viagens de autocarro já se tornaram virais e ajudam a justificar o interesse que o Observador encontrou na sessão de treinos aberta à comunidade de Boca Raton, na Flórida. No final da primeira semana de treinos em solo norte-americano, o FAU Stadium abriu as portas e centenas de adeptos preencheram as bancadas para testemunhar de perto a energia desta seleção. O treino aberto decorreu ao som de música latina, cujos acordes se misturavam com as gargalhadas e os gritos das muitas crianças.

O Observador conseguiu acompanhar os últimos minutos deste treino que se transformou numa autêntica festa e foi possível testemunhar um cenário que já parecia completamente extinto no futebol moderno e hiper comercializado, com os 26 futebolistas convocados a juntarem-se a dezenas de crianças no centro do relvado para uma futebolada improvisada. O ambiente em torno da seleção de Curaçau fluiu com uma naturalidade desconcertante, como se fosse impossível fazer diferente. Atrai-nos para imediata afetividade por esta equipa e deixa-nos com uma pergunta constante e inevitável: por que razão o futebol moderno já não permite mais momentos como este?

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É natural o discurso saudosista quando começa uma nova competição. É comum entre os adeptos que as recordações terminem num lamento sobre o estado do desporto atual, um sentimento que por vezes se justifica mais pela saudade. Mas perto da comunidade do Curaçau somos de imediato puxados para a nostalgia, para um tempo em que os jogadores viviam mais próximos dos adeptos e da imprensa. Encontrar dezenas de crianças a brincar no centro do relvado de um estádio com jogadores de uma seleção presente no campeonato do mundo não é uma memória escondida no passado, é uma história deste Mundial de 2026.

A Florida Atlantic University aponta para cerca de 5 mil adeptos nas bancadas. Os pais das crianças no relvado — na sua grande maioria norte-americanos — assistiam maravilhados aos filhos a jogar o que chamam de soccer, ao lado de atletas de elite. Em declarações ao Observador, confessaram o seu espanto, admitindo que nunca esperaram ver tamanha abertura e proximidade por parte de uma seleção presente num Mundial. Encontramos uma visível emoção entre os pais das crianças que estão no relvado, deslumbrados por poderem dizer que os filhos jogaram com uma seleção do Mundial.

Scott Glinsky, diretor de marketing da Comissão de Desporto de Palm Beach, reconhece que nunca testemunhou nada semelhante nas mais de duas décadas de trabalho na organização que gere o desporto desta cidade: “Vi pais a chorar, crianças maravilhadas, famílias a viver um momento único. O impacto que esta seleção está a ter na nossa comunidade vai perdurar por décadas. Estes jovens vão poder contar para sempre que treinaram com uma equipa do Mundial.

“Ban Pe!” — Vamos lá Curaçau

Para lá dos adeptos norte-americanos, há também vários caribenhos que vestem com orgulho as cores de Curaçau. Entre a multidão que coloria as bancadas, destacava-se Susie Wesley. Vestida rigorosamente com a camisola azul da seleção e exibindo uns brincos em forma de bolas de futebol, Susie explicou ao Observador a carga emocional daquele momento. Nascida em Aruba, mas filha de mãe curaçauense, desabafou alegremente e com um irónico alívio: “Finalmente temos uma equipa”.

Mesmo consciente de que Curaçau enfrenta um grupo extremamente difícil — que inclui a poderosa Alemanha, o Equador e a Costa do Marfim — Susie apontou o caminho com determinação através de uma expressão na sua língua materna:Ban pe, que significa ‘vamos lá’.” Desafiada a explicar a constante atmosfera de festa que rodeia a comitiva, esta adepta que responde ao Observador enquanto dança, resumiu-a com a simplicidade de quem conhece a matriz cultural do seu povo: “É assim que somos, não podemos deixar de ser. Temos de manter o espírito leve. Só se vive uma vez”.

Nas bancadas, com ar confiante, Quijano, um outro adepto natural de Curaçau que viajou para os Estados Unidos da América com a família, diz com orgulho ao Observador que chegou o momento de “colocar Curaçau no mapa e deixar todo o mundo a saber que Curaçau existe”. Este adepto fala numa “equipa para levar a sério” e apesar de reconhecer que “todos apontam esta equipa como a pior do mundial” está confiante que será possível conseguir uma surpresa: “Cuidado com a nossa seleção”. Quijano pede também à tia para dizer o que sente e Emily repete a confiança que tinha sido transmitida pelo sobrinho: “Nós não temos pressão, os outros estão pressionados para conseguir bons resultados. Nós estamos a levar isto a sério, mas também estamos a festejar.” Para o grande jogo frente à Alemanha, apontam para resultados diferentes: Emily acredita num empate, Quijano aponta para um idílico “11 a 0 para Curaçau”

Já a deixar os lugares do FAU Stadium encontramos uma família que enverga camisolas brancas com a bandeira e o nome deste país caribenho. Sherise nasceu em Curaçau, emigrou para os EUA há quase três décadas e casou-se com um norte-americano, com quem teve três filhas. Os cinco vibram com a presença da seleção no Mundial. Sherise confessa que nunca pensou que este cenário fosse possível, mas assume com naturalidade a forma como os jogadores estão a desfrutar do momento: “Estão a abraçar a nossa cultura. É assim que nós somos, estamos muito felizes por estar aqui e encontramos sempre forma de nos divertir”.

A “estrela” que não foge às selfies

A leveza da equipa de Curaçau reflete-se na postura dos próprios jogadores perante a “fama”. Junto às grades que separam a bancada do relvado, centenas de adeptos, dos mais novos aos mais velhos, lutavam por uma recordação da tarde histórica. Os internacionais de Curaçau corresponderam com uma paciência infinita. Nenhuma selfie ficou por tirar, nenhum autógrafo ficou por dar, e até vários jornalistas tiveram acesso direto e sem filtros aos protagonistas à beira do relvado.

Tahith Chong, a grande estrela e a figura mais mediática do plantel, acabou por ser o mais solicitado de todos. O camisola 10 desta seleção acabou por ser um dos últimos a recolher aos balneários, certificando-se de que nenhum fã ficava sem um momento de atenção. Foi o fecho perfeito para um treino manifestamente diferente, conduzido por uma equipa que faz questão de provar que o futebol de elite ainda pode ter o coração profundamente ligado à comunidade.

Entre os 26 futebolistas desta equipa, Tahith Chong é o único que nasceu em Curaçau. Os restantes 25 nasceram nos Países Baixos. A ilha de Curaçao é um país constituinte do Reino dos Países Baixos e existe naturalmente uma forte ligação histórica e política entre as duas nações. Tahith Chong também acabou por deixar a ilha ainda na juventude para jogar futebol na formação do neerlandês Feyenoord. Ainda assim, continua a carregar com orgulho o estatuto de “nativo” entre os companheiros de equipa.

Um ligação natural ao Sunshine State

Este fenómeno, rapidamente batizado pela imprensa e pelos adeptos como a “Onda Azul” (Blue Wave), encontrou em Boca Raton o cenário ideal para estabelecer o seu quartel-general. A escolha da Flórida esteve longe de ser um mero acaso geográfico. O estado é, historicamente, um dos maiores epicentros da população imigrante nos Estados Unidos, servindo de porto de abrigo para uma vasta e vibrante diáspora caribenha e latino-americana.

https://twitter.com/DAZNPortugal/status/2064288409808498952

Estas comunidades partilham com Curaçau muito mais do que a afinidade pelo clima tropical; partilham uma história de resiliência e uma paixão comum pelo futebol. Para os milhares de imigrantes que residem na região, ver a seleção de futebol de Curação a treinar ali perto é sentido como uma vitória coletiva. Nas bancadas do complexo desportivo e nas ruas circundantes, o apoio à seleção transcendeu as fronteiras da pequena ilha, unindo diferentes comunidades de migrantes que encontram nesta equipa o reflexo perfeito do seu próprio orgulho e da representatividade caribenha no maior palco do desporto mundial.