A SpaceX chegou à bolsa de valores de Nova Iorque. Entrou avaliada em 1,8 biliões de dólares (1,6 biliões de euros), fazendo a maior oferta pública inicial de sempre. Tornou-se na sétima maior empresa em termos de capitalização bolsista e permitiu que Elon Musk se ficasse mais rico.
Conhecido como “o senhor IPO” [sigla para a designação anglo-saxónica da oferta pública inicial — initial public offering] — porque tem estudado estas operações ao longo da sua vida –, Jay Ritter, professor do Warrington College of Business e diretor da IPO Initiative, admite que a SpaceX é de facto algo única no mercado de capitais e, por isso, a enorme avaliação da empresa. Mas se entra já com essa capitalização há, neste caso, o risco de não conseguir os ganhos para os investidores que se desejaria ou que foram habituados nas ações tecnológicas. No entanto, Jay Ritter não parece ter dúvidas: os investidores estão a comprar o futuro.
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A pergunta de mais de um bilião de dólares. Há alguma coisa que justifique uma avaliação de 1,8 biliões de dólares (1,6 biliões de euros) para uma empresa?
A razão pela qual os mercados privados e públicos estão dispostos a dar avaliações tão enormes à SpaceX, à Anthropic e à OpenAI é o facto de a indústria tecnológica ser diferente. Atenção, nem todos os nichos da tecnologia são diferentes, alguns são muito mais concorrenciais. Mas outros, devido aos chamados efeitos de rede, funcionam numa lógica de ‘o vencedor leva tudo’. Com o Facebook, por exemplo, se apenas algumas pessoas no mundo o usassem, não seria muito útil. Mas quanto mais amigos seus têm conta no Facebook, mais desejável é para si usá-lo, porque pode comunicar e partilhar fotos com todos eles. Por isso, tende a ser um mercado onde o ‘vencedor leva tudo’. Ou então, acontece quando uma empresa tem a melhor tecnologia e é incrivelmente caro replicá-la. Isso pode levar a uma situação em que a empresa consegue ter uma margem de lucro muito alta sem que a concorrência esmague essas margens. Por exemplo, construir aviões comerciais grandes é super complicado. Ninguém no mundo foi capaz de o fazer como a Airbus e a Boeing. No entanto, as duas continuam a lutar por quota de mercado e nenhuma delas é verdadeiramente lucrativa.
E esse é o caso da SpaceX?
Exatamente. A SpaceX está nessa categoria onde a tecnologia deles é tão boa e é tão caro competir que é possível que venham a ter lucros enormes no futuro — em particular com o sistema de acesso à internet via satélite da Starlink —, sem que os concorrentes consigam competir e baixar as margens de lucro. É por isso que o mercado está disposto a dar a estas empresas avaliações tão altas.
Considera a SpaceX uma empresa de tecnologia ou uma empresa aeroespacial e de defesa?
É as duas coisas.
Com quem deveríamos comparar a SpaceX?
A empresa é bastante única. Quem mais lança foguetões? Há um consórcio europeu mas que não consegue fazê-lo de forma tão barata; a Blue Origin, a empresa do Jeff Bezos; a Rocket Lab, da Nova Zelândia — são bastante boas. As empresas tradicionais dos EUA, como a Boeing, não conseguem fazê-lo com tanta eficiência. A SpaceX já tem custos muito mais baixos para colocar um quilograma no espaço do que as outras empresas. E com o seu novo foguetão, o Starship, os custos de lançamento vão baixar ainda mais, o que lhes permitirá colocar os satélites Starlink no espaço a um custo menor e oferecer o acesso à internet Starlink a um preço mais baixo.
A SpaceX já passou esse teste do mercado? É uma empresa viável?
Em termos de lançamentos de foguetões e do Starlink, absolutamente. Em termos de centros de dados na terra estão a sair-se muito bem.
Não é uma startup sem provas dadas.
Certo. Tem produtos demonstrados. Agora, a empresa espera conseguir criar centros de dados no espaço. Não sou especialista nessa tecnologia, mas o que tenho lido é que é realmente difícil, em particular devido aos problemas de dissipação de calor no vácuo. O espaço sideral é um vácuo. Trata-se de um grande problema tecnológico e as probabilidades estão contra a SpaceX no que toca a ter sucesso nessa área.
Investidores compram o futuro
As pessoas estão a comprar o presente ou o futuro na compra de ações da SpaceX?
O futuro. No ano passado, tiveram 18,7 mil milhões de dólares [cerca de 16,2 mil milhões de euros, ao câmbio atual] em receitas e deram prejuízo. Isso não justifica esta avaliação enorme. Muitas coisas têm de correr muito bem para justificar este valor.
E o que pode correr mal?
Por exemplo, os centros de dados no espaço; talvez os obstáculos tecnológicos com a dissipação de calor não consigam ser superados. Ou pode vir a revelar-se um mercado mais pequeno e menos lucrativo do que esperavam. No passado, não houve muitas empresas com receitas anuais de pelo menos 100 milhões de dólares a entrar em bolsa com um rácio preço/vendas superior a 40. A SpaceX está a entrar em bolsa com um rácio preço/vendas de 93. Algumas destas empresas viram o preço das suas ações subir, mas a maioria não. Muita coisa tem de correr bem. E, em média, as empresas que entram em bolsa com uma avaliação tão alta têm sido uma desilusão para os investidores.
Mencionou o facto de a SpaceX ser realmente única no mercado de capitais pelo tipo de produtos que tem. Essa exclusividade fez com que algumas pessoas quisessem comprar títulos da SpaceX. Qual é o papel de Elon Musk nesta corrida às ações? As pessoas podem ter ido comprar um bocado do “sonho de Elon Musk”?
Há claramente uma parte disso, especialmente no caso dos investidores particulares. Mas, de forma mais racional, ele tem demonstrado abertura para pensar fora da caixa. Por exemplo, lançar grandes foguetões para o espaço e depois apanhá-los na descida para os poder reutilizar, em vez de ter de construir um novo de cada vez. Isso é algo em que muitas empresas tradicionais de foguetões andavam a pensar. É complicado. E embora o Elon Musk fique com os louros, há um exército de excelentes engenheiros a fazer as coisas acontecerem.
Mas este IPO é ou não uma espécie de referendo a Elon Musk?
Em termos de avaliação da empresa, um dos cenários é que daqui a 10 anos esteja a gerar lucros anuais de 25 mil milhões de dólares [21,7 mil milhões de euros] por ano. Com um rácio preço/lucro de 20, teria uma capitalização de mercado de 500 mil milhões de dólares [433 milhões de euros], tornando-se numa das 100 empresas mais valiosas do mundo. Qualquer empresa, praticamente, consideraria isso um sucesso. Mas, se isso acontecer, uma capitalização de mercado de 500 mil milhões de dólares [na SpaceX] é uma grande queda face aos 1,8 biliões de dólares. Portanto, esta é uma empresa na qual expectativas tão otimistas já estão integradas no preço, pelo que muitas coisas têm de correr bem para evitar que seja uma desilusão para os investidores. No curto prazo, o entusiasmo dos investidores por Elon Musk pode certamente ter impacto no preço. Mas, mais cedo ou mais tarde, são os lucros da empresa que vão determinar o seu valor.
Haverá, por arrastamento, consequências para a Tesla no mercado de capitais?
Bem, tem havido muita especulação de que, a dada altura, a SpaceX e a Tesla se possam fundir.
Acredita nisso? Acha que é esse o caminho?
Poderá acontecer. Afinal de contas, Elon Musk tem o controlo de voto na SpaceX, por isso é algo que definitivamente poderá acontecer. Foi revelado, no prospeto do IPO, que 20% das vendas, no ano passado, da carrinha elétrica da Tesla, a Cybertruck, foram feitas pela SpaceX. A SpaceX andava a comprar muitas delas e a pagar o preço de tabela. Isto estava a dar um empurrão às receitas e aos lucros da Tesla. E não é claro que este tenha sido o melhor uso do dinheiro da SpaceX. Talvez tenha sido, talvez não. Mas há, sem dúvida, preocupações legítimas sobre a governação corporativa, além da visão otimista que se tem sobre Elon Musk.
E o lado político do Elon Musk ficou para trás?
Essa é uma consideração que parece ter afetado as vendas de veículos da Tesla.
Mas não agora, no IPO da SpaceX.
Certo. Há dois anos, muitos dos compradores da Tesla eram progressistas e alguns deixaram de comprar Teslas por causa da política de Elon Musk. Mas, a longo prazo, é a tecnologia que valorizam em comparação com outros veículos; esse vai ser o principal motor. Mas a Tesla não é apenas uma empresa de automóveis. Também tem armazenamento e produção de baterias. O grande centro de dados no Texas é uma joint venture da SpaceX e da Tesla e por causa do armazenamento de baterias e de algumas outras coisas, pelos vistos, conseguiram um centro de dados muito bom.
Há dinheiro em Wall Street para mais mega-ofertas
Esta perspetiva de futuro faz-me pensar na bolha do “dotcom”. Acha que existe o risco de este IPO hiper-valorizado trazer de volta os receitos de uma bolha como a das tecnológicas?
Quando a bolha da internet estava a acontecer, não havia dúvidas na minha mente de que aquilo era uma bolha, de que as avaliações eram demasiado altas. E muitas das empresas que entravam em bolsa eram muito jovens. A maioria faliu. Muita gente achava que a maioria ia falir. A questão era apenas descobrir quais seriam. E uma das empresas que entrou em bolsa em janeiro de 1999 foi uma empresa de hardware chamada Nvidia que, embora a maior parte daquelas empresas “dotcom” tenha falido, acabou por se tornar a maior empresa de mercado do mundo. Quando a Nvidia entrou em bolsa, foi recebida com entusiasmo. O preço das ações saltou 60% no primeiro dia de negociação, para uma capitalização de mercado de quase 600 milhões de dólares. Tinha muito potencial de valorização. Quando se entra em bolsa com uma avaliação de 1,8 biliões de dólares, a margem percentual para subir é muito mais limitada. Como mencionei, se uma empresa valer 500 mil milhões é um enorme sucesso, mas [no caso da SpaceX será] uma desilusão face à avaliação atual. E se for mesmo bem-sucedida e crescer até igualar a Nvidia como a empresa mais valiosa do mundo, tal representa apenas um potencial de valorização de cerca de 200%. Portanto, quando se começa com uma avaliação tão alta, o potencial de subida é muito mais limitado.
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Qual pode ser o impacto deste IPO da SpaceX nos futuros IPO da Anthropic e da OpenAI?
Mais importante do que o que acontece no primeiro dia de negociação é o que acontecerá daqui a uns meses, quando a Anthropic provavelmente for para a bolsa, com a OpenAI a poder seguir-se pouco depois. A que preço estará a cotar a ação da SpaceX nessa altura? Se tiver caído substancialmente em relação ao preço de oferta, isso vai deixar os investidores menos entusiasmados com essas empresas. Se o preço der um salto e se mantiver alto, isso vai incentivar o entusiasmo dos investidores. Mas penso que, em termos de avaliação dessas empresas, uma preocupação atual é a de saber se vão entrar numa guerra de preços, reduzindo o preço dos tokens que são comprados pelos seus clientes. Será que vamos ter uma situação estilo Airbus contra Boeing, em que lutam por quota de mercado e não são altamente lucrativas? Ou terão diferenciação de produto suficiente para que a OpenAI, a Anthropic e, já agora, o Gemini da Google, e talvez a Mistral de França, sejam todas bem-sucedidas e lucrativas? Estão numa indústria onde treinar grandes modelos de linguagem é incrivelmente caro. Este é um exemplo de como, em várias partes da indústria tecnológica, os custos para fazer as coisas bem são tão monstruosos que nunca haverá um grande número de concorrentes, ao contrário do que acontece na restauração.
Há dinheiro suficiente no mercado de capitais para estes três grandes IPO?
Não acho que isso seja sequer um problema. Nos EUA, nos últimos anos, as empresas cotadas em bolsa têm distribuído cerca de 600 mil milhões de dólares por ano em dividendos em dinheiro, e têm recomprado ações a uma taxa de cerca de 1 bilião de dólares por ano. Junte as duas coisas e são 1,6 biliões de dólares de liquidez a serem distribuídos. Ora, por causa das quantias enormes que estão a ser gastas em centros de dados e outras coisas pelas hyperscalers — a Alphabet e a Meta Platforms têm distribuído muito dinheiro em anos recentes —, parece que este ano, em vez de distribuírem muito dinheiro, vão na verdade emitir ações. Não vai haver tanto dinheiro para ser reciclado, mas ainda há uma quantidade enorme de liquidez disponível para ser reinvestida nestas empresas. Os mercados de ações dos EUA são grandes.
Mas veremos uma correção no preço de outras ações como a Apple, a Alphabet, a Meta?
Com a IA, muitas pessoas e o mercado — tanto os investidores de capital de risco como os investidores do mercado público — estão preocupados que estas empresas de IA sejam uma ameaça para algumas das empresas de software tradicionais. Enquanto as empresas ligadas à IA viram as suas avaliações subir, muitas empresas de software tradicionais viram, na verdade, uma quebra nas suas avaliações.
Estes IPO são feitos principalmente para grandes fundos institucionais ou para investidores particulares, de retalho?
Assim que começam a negociar, qualquer pessoa pode comprar ou vender. Mas com a SpaceX, o caso é invulgar porque a empresa decidiu que queria uma alocação muito grande de ações para investidores particulares no IPO.
Por que razão?
A Tesla tem uma proporção muito elevada de investidores particulares, entre as grandes empresas tecnológicas. Elon Musk e a SpaceX decidiram: dado que é provável que haja um grande interesse dos particulares na SpaceX, por que haveríamos de os deixar de fora no IPO em vez de lhes dar a oportunidade de comprar ações logo no IPO? Num IPO típico nos Estados Unidos, quase todas as ações vão para investidores institucionais. E mesmo as que vão para investidores particulares vão maioritariamente para clientes com elevado património que têm uma conta de gestão de fortuna privada no coordenador principal. Portanto, os pequenos investidores particulares, “a mãe e o pai”, normalmente recebem zero ou muito poucas ações. Aqui, os clientes de elevado património dos 22 colocadores vão receber ações, mas há ações suficientes disponíveis também para investidores de retalho, para “a mãe e o pai”.

É conhecido como o “Sr. IPO”. Alguma vez imaginou um IPO desta magnitude?
Este é, de longe, o maior IPO da história do mundo.
Achou que era possível?
Sou velho o suficiente para me lembrar de quando se tinha de pagar por chamadas telefónicas de longa distância, e era caro, antes de as comunicações se tornarem gratuitas. As mudanças tecnológicas que ocorreram durante a nossa vida mudaram a forma como as empresas fazem negócios. Aumentaram o nosso nível de vida. Na medida em que a SpaceX está a tornar o acesso à internet mais barato, isso vai aumentar o nosso nível de vida. Na medida em que a IA (inteligência artificial) está a tornar muitas coisas mais eficientes, isso vai aumentar o nosso nível de vida. Ora, algumas destas tecnologias são disruptivas. A agricultura tem tido melhorias de produtividade há mais de 100 anos. São precisos muito menos agricultores para produzir muito mais alimentos do que antigamente. Para os investidores, a questão é saber quanto dos benefícios reverterá para os investidores e quanto reverterá para os indivíduos através de um nível de vida mais elevado, à medida que as empresas aprendem a fazer as coisas de forma mais eficiente.
Quando o Facebook foi para a bolsa, houve problemas no software do Nasdaq. Parece que desta vez nada falhou. O mercado aprendeu a lição? O Nasdaq aprendeu a lição?
Em 2012, quando o Facebook entrou em bolsa, o Nasdaq tinha feito testes de esforço ao seu sistema para prever, se bem me lembro, o que aconteceria se a operação de abertura tivesse 100 vezes mais volume do que qualquer outra que tivesse acontecido antes. Acabou por ser ainda mais do que 100 vezes. Houve algumas falhas técnicas. Tenho a certeza de que o Nasdaq se certificou de que os seus sistemas conseguem lidar com volumes mil vezes superiores aos do Facebook, porque não querem passar novamente pela vergonha de ter falhas técnicas.