O conceito de utopia tem uma longa carreira na História das ideias políticas. Desde os pais fundadores gregos, passando pelo incontornável São Thomas More (que cunhou o termo), chegando às modernas conceções marxistas, representa uma sociedade política última e otimizada. A obra Utopia (1516) do canonizado inglês relata uma ficção, ou seja, serve como exercício intelectual e como resposta crítica aos modos do seu tempo (tempo esse liderado pelo irascível Henrique VIII). Igual que Platão na sua República, não visava uma Revolução, sendo destinada somente ao plano das ideias. De facto, até 1626, ano em que o título de Francis Bacon, New Atlantis, viu a luz do dia, este tipo de livros era destinado unicamente à reflexão e à contemplação, obliterando nas suas páginas qualquer tentativa de conspiração.
Na modernidade, a esquerda sitiou o conceito, monopolizando-o e reivindicando-o com o beneplácito da direita. Em sua posse, utopia passou definitivamente a designar uma realidade não só atingível, mas desejável, pelo menos a longo prazo, desde que os atores revolucionários levassem a sua obrigação a sério. A seriedade destes últimos não poderia jamais ser questionada ou obstaculizada por reacionários e cobardes, devendo, no limite, haver uma apropriação do poder e da força institucionalizada por forma a eliminar qualquer obstáculo humano no caminho para o paraíso.
O céu na terra, éden totalmente despido de características sobrenaturais, passa a ser encarado como um espaço de convívio fraternal, no qual, liderados pelos iluminados e esclarecidos, a Humanidade (já expurgada de refratários) entraria racionalmente no êxtase. Pelo contrário, caberia à parte direita do espectro político, de uma forma ao mesmo tempo desapaixonada e pragmática, refrear, contrariando-os, esses ímpetos maximalistas, entretendo uma relação de proximidade com o terreno, inseguro e imprevisível, do frágil quotidiano e do fogo das paixões humanas. Assim, não será de causar estranheza os epítetos de traidor e de reacionário perante tais indivíduos tão cheios de freios e de reformas tímidas e embaraçadas num mundo pronto e maduro para a implantação da nova sociedade.
Ao primeiro olhar, nada mais afastado destes trâmites (da utopia) do que a conceção libertarianista do Estado-mínimo. Colocando a defesa do indivíduo e das suas posses na vanguarda e na retaguarda da ideologia, caberia ao Estado, assim concebido, salvaguardá-los a qualquer custo, numa economia individualista e individualizada. Capitalismo e democracia são as colunas em que se agiganta o libertário, não devendo o Estado imiscuir-se na vida privada dos cidadãos. Restam a essa entidade obtida por contrato (contratualismo) três simples funções, exercidas pelos distintivos agentes: nas palavras de Nozick, assegurar a coesão e ordem internas (autoridades policiais), manter as fronteiras invioláveis (manu militari) e respeito pelos contratos estabelecidos entre as partes (tribunais). A tradicional função socialista de justiça distributiva não teria lugar nesta sociedade que, se para uns representaria um retrocesso civilizacional e um pesadelo, para outros, uma utopia pela qual valeria a pena debater e convencer.
Em vez da Utopia única dos socialismos, esta corrente filosófica e política radica no chão-comum e democrático da sociedade civil e civilizada, onde cabem todas as utopias possíveis (uma meta-utopia), pois individuais. A não-violabilidade do ser humano impede todo e qualquer afoite agressivo ou medida imposta abusivamente. A liberdade individual permanece no cerne do sistema, o seu óleo e roldanas. Este apelo a uma liberdade responsável, apoia-se na legalidade e jamais na golpada. De acordo com a necessidade e o desejo dos cidadãos, é perseguido o ideal de vida-boa, produzindo e trabalhando cada um para esse fim. Abolindo um Estado intrusivo, estamos perante uma visão que respeita verdadeiramente a diferença, pois permite a todos a busca da recompensa.
Provavelmente nunca haverá um sistema político sustido nesta conceção de Estado guarda-noturno. Não afirmamos sequer que deveria haver. Somente chamamos a atenção para alternativas possíveis num país historicamente de raiz económica socialista.