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Cibersegurança francesa acusa empresa israelita de interferir em eleições na Escócia, Nova Iorque e África

Relatório da agência francesa detalha quatro interferências pela "empresa de elite" BlackCore, "concebida para a era moderna da guerra de informação". Em março, era suspeita de interferir em França.

Mariana Furtado
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A agência francesa de cibersegurança acusou na quinta-feira a empresa israelita de tecnologia BlackCore de interferir nas eleições escocesas no início deste ano, tendo como alvo o primeiro-ministro John Swinney. A empresa, que já era suspeita de interferir nas eleições locais em França em março, é ainda acusada de interferir nas eleições municipais de Nova Iorque e de operar em Angola e no Togo. O Governo israelita já reagiu, afirmando que aguarda o relatório oficial francês antes de decidir se conduzirá a sua própria investigação, e negou qualquer interesse em interferir nas eleições de outros países.

As conclusões constam do relatório “Protegendo o Debate Público da Interferência Digital Estrangeira Durante as Eleições Municipais de 15 e 22 de março de 2026” da Viginum, publicado na quinta-feira e noticiado pela imprensa internacional. O documento analisa o trabalho da Rede de Coordenação e Proteção Eleitoral — uma estrutura criada especificamente para este período eleitoral — e documenta quatro casos de interferência digital estrangeira detetados.

Segundo as conclusões da agência, a BlackCore concentrou originalmente as suas operações nas eleições municipais em França, mas expandiu a sua atividade para outros cenários internacionais. Entre os alvos identificados estão as eleições autárquicas de 2025 em Nova Iorque — vencidas por Zohran Mamdani —, além das eleições na Escócia e em processos políticos no Togo e em Angola.

Relatório aponta mais de 1.000 ataques coordenados no X contra o primeiro-ministro escocês e o executivo de Edimburgo

A organização terá coordenado a publicação e a mobilização de pelo menos 256 contas na rede social X, o que permitiu a distribuição de cerca de 1.400 comentários. No caso escocês, a conta pessoal de John Swinney foi visada 652 vezes, a do Partido Nacional Escocês (SNP) 338 vezes e a do Governo escocês 112 vezes.

Apesar de a empresa israelita ter sido identificada como a executora dos ataques, o chefe de interferência digital da Viginum, Marc-Antoine Brillant, esclareceu que ainda não foi possível determinar os patrocinadores das operações. Falando ao lado do primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, Brillant explicou que as investigações confirmam que o “modus operandi” foi replicado em várias regiões, incluindo Angola, Togo, Escócia e Nova Iorque.

“Este modus operandi não se limitou às eleições municipais em França. Parece também ter sido usado para realizar operações de interferência digital estrangeira em outros países ou regiões, como Angola, Togo, as eleições na Escócia e as eleições municipais de 2025 em Nova Iorque”, explicou, acrescentando que as investigações “não possibilitaram identificar o(s) patrocinador(es), se de facto existirem, por trás dessa interferência digital estrangeira”.

O contexto político recente ajuda a contextualizar a escolha do alvo escocês, já que o primeiro-ministro John Swinney e os seus ministros têm sido vozes críticas em relação às ações do Governo israelita em Gaza e na Cisjordânia. Swinney chegou a descrever o conflito em Gaza como uma “catástrofe humanitária provocada pelo Homem” e sugeriu que pode estar em curso um genocídio perpetrado por Israel.

Mais do que críticas, o Executivo escocês chegou a impor sanções às Forças de Defesa de Israel, retendo subsídios estatais para empresas de armamento que fornecem armas e material a Telavive, e congelando o apoio às exportações para Israel.

Em reação às acusações, o Governo israelita afirmou que aguarda o relatório oficial francês antes de decidir se avançará com uma investigação própria, negando qualquer interesse em interferir em atos eleitorais de outros países. O Governo escocês e o gabinete do Governo do Reino Unido foram contactados pelo The Guardian para comentar o assunto, mas ainda não emitiram declarações oficiais.

Por sua vez, a agência Reuters avançou que a BlackCore removeu todo o conteúdo do seu site logo após ter sido contactada pelos jornalistas, não tendo igualmente respondido a pedidos de esclarecimento. Antes, descrevia-se no site como “uma empresa de elite especializada em influência, cibersegurança e tecnologia, concebida para a era moderna da guerra de informação”, segundo o The Times of Israel.

No mês passado, a Reuters já havia noticiado que as autoridades francesas estavam a investigar se a BlackCore tinha estado por trás de uma campanha difamatória online contra três candidatos do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI) antes das eleições municipais de março deste ano.