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À Procura da Oferta

Que bem que os apresentadores apresentam e os editores editam; e que os escritores, no fundo, escrevem.  Ao fim da tarde cheira a grelhados. 

Miguel Tamen
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Agora que está quase a acabar a grande Feira do Livro do Oklahoma é possível reconhecer o que lhe devemos.  O plano inclinado em que se desenrola facilita os momentos da procura (observáveis em quem sobe a rampa) e da oferta (observáveis em quem desce a rampa).   Os dois movimentos do público são os favores que a orografia e o talento arquitectónico fazem ao comércio; mas a condição para que tudo funcione na perfeição são as praças das ideias: e ei-las, arrumadas por cores como as ideias.  Entre as praças destaca-se a Praça Vermelha.

A quem procura e a quem oferece, a primeira impressão é a da náusea que as massas compactas associam à cultura por lapso.  Vistos de fora, os livros são todos um pouco parecidos.   Não podemos, diz a tradição, julgá-los sem dificuldade pelas suas capas; e alguns vêem na repetição de tantas cores um pedido de ajuda.  É um exagero: a capa de um livro indica apenas que o que se encontra do lado de dentro foi posto do lado de fora.   A experiência mostra por regra que o conteúdo de “A fruteira de Buchenwald” é parecido com a sua capa.

O sucesso mundial de “A fruteira de Buchenwald” (e da produção recente franco-argentina) animou os escritores a escreverem “O clarinetista de Buchenwald” (pela autora de “O clarinetista de Gaza” e de “O vôo do clarinete”), “O dançarino de Buchenwald” (pela autora de “Dança, meu irmão!”) e “O angariador de seguros de Buchenwald” (uma primeira obra).  Em todos estes livros o título aparece com a imagem perfeita: respectivamente um ananás, um clarinete, um tutu e um impresso de participação de sinistro.   Não tinha razão quem escrevera que não pode haver poesia depois de Buchenwald.

À sombra das torres do Kremlin, sentam-se os passeantes uns minutos a examinar os sacos, e a namoriscar na restolhada.  As vozes do palco transmitem segurança: que bem que os apresentadores apresentam e os editores editam; e que os escritores, no fundo, escrevem.  Ao fim da tarde cheira a grelhados.  Mas a oferta nem sempre é o que parece; e o cheiro não engana os leitores astutos.   Provém na realidade dos fritos: farturas, croquetes, batatas, e até, numa pequena editora de poesia (e só a poesia nos salva), peixe-espada.

À medida que a noite cai há um sentimento de fim de romaria e de encanto.  Com sacos cheios de livros o público sobe uma última vez a ladeira em direcção ao Santuário.  Vão assistir ao acontecimento do dia que os altifalantes não deixaram esquecer durante esse dia.  Esta noite ir-se-á deplorar a inteligência artificial.  Como é que isto tudo, pergunta-se na imprensa presente, vai acabar se já não houver ninguém?  Irão acaso os cavalos dançar a valsa? E quem ficará para saltar os barris em chamas? Se ao menos as pessoas lessem outras coisas no Brasil.