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Mundial 2026. Quem veste as seleções fora do relvado

Dos óculos de Cristiano Ronaldo, passando pelos motivos étnicos da Costa do Marfim e a alfaiataria de luxo do Japão: o airport style dos jogadores neste arranque do Campeonato Mundial de Futebol.

Sâmia Fiates
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A deixar a Cidade do Futebol esta sexta-feira, antes de a seleção partir para Palm Beach, Cristiano Ronaldo deu a sua “fórmula para o sucesso”, num discurso a representar a equipa perante a imprensa. “É ganhar o primeiro, o segundo e o terceiro jogo, ganhar confiança”, disse o capitão, que deu logo nas vistas — literalmente — com os seus óculos de sol. Um modelo retangular, com armação metálica e lente levemente translúcida, com as características do novo lançamento Gucci que custa aproximadamente 330 euros. A peça quase se destaca mais do que o brinco de brilhantes. O cabelo penteado para trás completa o estilo próprio do jogador, conhecido por admirar marcas de luxo internacionais.

A caminho de Miami, Ronaldo e os outros jogadores da seleção nacional incorporam a atmosfera da cidade (e até a vibração da série de culto Miami Vice, que lançou a moda que se segue): vestem um fato azul escuro ajustado com um alfinete na lapela combinado com uma T-shirt preta, look criado e pensado pela portuguesa Sacoor Brothers. A parceria da marca com a Federação Portuguesa de Futebol que vem desde o Mundial de 2018. A coleção foi desenhada especialmente para a equipa portuguesa. É composta por um travel suit “criado para proporcionar máxima liberdade de movimentos e conforto absoluto durante deslocações internacionais”, diz a marca em comunicado. As peças combinam técnicas de alfaiataria clássica com materiais inovadores. São feitas em tech wool, um tecido leve, elástico, resistente, que não amassa e seca rápido. O pin na lapela traz o galgo que é símbolo da marca — e cada blazer tem uma etiqueta interna com o nome de cada jogador. A coleção inclui ainda mocassins azuis com um estilo desportivo.

Já a seleção congolesa, que será um dos adversários de Portugal na fase de grupos da prova, causou impacto à chegada ao Mundial. Num look de homenagem à cultura sape do seu país, e aos Léopards de 1974, os leopardos de 2026 conjugaram os fatos escuros com faixas assimétricas ao estilo animal print e alfinetes de lapela dourados, desenhados por Alvin Junior Mak da JMAKxPARIS.

Moda high end fora do relvado

Se no relvado são as cores fortes e as marcas desportivas a dominar os uniformes das seleções, no airport style há espaço para alguma elegância, e as marcas premium e de luxo internacionais aproveitam a oportunidade. A própria Fifa apostou numa parceria com a italiana Boggi Milano, que veste todo o comité executivo e diretores.

Os espanhóis estreiam-se no dia 15 de junho contra Cabo Verde no estádio em Atlanta, mas fora de campo usam a etiqueta de luxo madrilena Loewe, sob a direção criativa de Jack McCollough e Lazaro Hernandez. A opção foi por um fato azul marinho com calças de corte amplo combinado com uma camisa polo azul. O monograma da Loewe vem bordado no interior da manga, que ainda tem um punho com tecido listado azul claro. As peças também estão disponíveis para o público em geral: o blazer custa cerca de 2300 euros, a polo 500 euros e as calças 1000 euros.

Na América Latina, o Brasil volta a recorrer ao alfaiate Ricardo Almeida pela terceira vez consecutiva. Os fatos da comissão técnica são feitos em lã fria italiana enquanto os jogadores usam peças da marca RA2, criada pelos filhos mais novos do alfaiate, Arthur e Ricardinho, com Gabriel Pascolato, que é sobrinho-neto da consultora de moda brasileira Costanza Pascolato. Dessa forma, o blazer dá lugar a uma espécie de casaco caban com o símbolo da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) bordado.

A alfaiataria de luxo britânica Dunhill veste os jogadores japoneses com a coleção Samurai Blue, composta por fatos sob medida e gravatas e lenços de bolso em seda de amoreira britânica. Os fatos sob medida foram disponibilizados na loja japonesa por cerca de 2300 euros, mas já estão esgotados. Já as gravatas e lenços custam entre 150 e 200 euros.

Os anfitriões Estados Unidos da América são vestidos pela alemã Hugo Boss, assim como a seleção do Panamá. A marca era responsável também pela equipa da Alemanha, entretanto nesta edição do Mundial os jogadores alemães passam a usar a Marc O’Polo, uma marca sueco-alemã premium, mas não de luxo. No mesmo segmento ficaram os Países Baixos, com a Cavallaro Napoli; a Bélgica, com a Zalando; e a Inglaterra, com a loja de departamento Marks & Spencer. A opção foi por uma linha que mistura alfaiataria e um estilo mais casual, e inclui blazers, bombers e polos de tricô — uma coleção limitada foi disponibilizada ao público e já se encontra esgotada.

Herança cultural

Há ainda as equipas que priorizam a herança cultural quando estão fora de campo. Num coordenado com calças brancas e um blazer laranja com um elefante bordado nas costas, a equipa da Costa do Marfim tem um dos visuais mais comentados até agora. Criadas pelo designer marfinense Ibrahim Fernandez, as peças têm padrões tradicionais do país e o savoir-faire local combinados com um corte mais contemporâneo.

Já a seleção da Tunísia é vestida pela Mazzara Milano, mas carrega a tradição tunisina em alguns detalhes. O fato cinzento apresenta-se como uma releitura do casaco dengri; a camisa polo branca tem uma gola que lembra a da túnica, ou jebba, e traz a caligrafia tunisina; e o lenço de bolso segue um padrão tradicional usado pelas mulheres do país.

Também o Uruguai segue a linha de valorizar o local, ao entregar os uniformes formais à designer Gabriela Hearst. Especializada em moda de luxo sustentável, Hearst foi criada numa quinta de produção de lã merino no interior do país, em Paysandú. “É uma verdadeira honra poder participar deste projeto ao lado da AUF. Não só porque estou a trabalhar com a minha fibra favorita, a lã Merino uruguaia, ou com a minha seleção nacional, mas porque é uma grande oportunidade para demonstrar que os valores uruguaios de qualidade, autenticidade e integridade merecem ser partilhados com o mundo. Tem sido um sonho trabalhar com a AUF e a seleção nacional”, disse a designer, em comunicado.

Oportunidades comerciais

Quase todas as marcas que se associaram às seleções neste Mundial oferecem opções de peças iguais ou similares para venda ao público. É o caso das já citadas Loewe e Dunhill, por exemplo, mas também da coleção criada para a seleção francesa. O país berço da alta-costura não anunciou o fornecedor oficial de peças de alfaiataria, mas tem destacado a parceria entre a Nike e a casa de moda Jacquemus. A camisola pré-jogo, azul às riscas, está à venda online por 70 euros, em versão masculina e feminina. Há ainda opções para crianças, um desenho inspirado nas peças de manga longa dos guarda-redes, e coordenados de fato de treino em azul escuro e branco.

O Mundial de Futebol é também uma oportunidade para outras marcas lançarem coleções temáticas. Foi o caso da portuguesa Isto, que lançou uma coleção inspirada no estilo dos uniformes retro, com polo, camisola de manga comprida e T-shirt. A norte-americana Old Navy também criou camisolas e T-shirts inspiradas na competição, destinadas aos adeptos de países como Inglaterra, Brasil, França, Argentina e Estados Unidos. E vale lembrar que um mês antes do Mundial, a Gap lançou a sua parceria com Victoria Beckham — que a internet elegeu há muito tempo “a rainha das WAG’s”.