A atriz e criadora Isabél Zuaa cancelou, esta quinta-feira, a apresentação do espetáculo Afro Sal.Oyá, que teria lugar no Centro Cultural Vila Flor (CCVF), em Guimarães. No momento em que a sessão deveria começar, a artista e a sua equipa subiram ao palco não para atuar, mas para denunciar publicamente o que afirmam ter sido um episódio de racismo que envolveu o diretor técnico do teatro.
O momento da denúncia pública foi filmado e divulgado na madrugada desta sexta-feira no YouTube por Paula Cardoso, fundadora da plataforma Afrolink, que avançou com a informação. Nas imagens, Zuaa surge rodeada pela sua equipa, denunciando o que classificam como um “evento lamentável”.
https://www.youtube.com/watch?v=n7xSYKKI6tU
“Foi muito óbvio que aconteceu racismo”, pode ouvir-se por parte dos elementos do espetáculo, que sublinham que “o que aconteceu foi grave e desta vez não foi silenciado”.
O Observador tentou contactar Isabél Zuaa, sem sucesso. Mas em declarações ao jornal Público após o espetáculo, a atriz e encenadora portuguesa de origem guineense e angolana detalhou o incidente que provocou o cancelamento da peça. Segundo a artista, a tensão começou três horas antes da estreia, durante o ensaio geral, quando uma técnica do teatro fez baixar um microfone de forma “abrupta”, quase atingindo a atriz na cabeça, o que motivou protestos da sua equipa.
Pouco depois, o diretor técnico d’A Oficina terá entrado intempestivamente no palco. “Aponta-me o dedo à cara e diz ‘Ou vais pedir desculpa agora à minha técnica ou não vai haver espetáculo’”, relatou Zuaa ao mesmo jornal. Embora clarifique que o responsável não proferiu insultos racistas nem ameaças verbais explícitas, a cofundadora do coletivo Aurora Negra — e que este ano integrou o elenco do filme brasileiro O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho — sublinha que foi a violência da atitude a carregar o viés discriminatório: “Sentimos que, se eu fosse uma pessoa branca, não iam interromper o ensaio geral e fazer ameaças com o dedo apontado na minha cara (…) Como era eu, artista, negra, sentiram-se legitimados”.
No vídeo divulgado online, dirigindo-se à audiência, Zuaa admite ter notado um tom particular nas interações dos últimos “dias”. “Nunca foi assim aqui em Guimarães, no Teatro Oficina, nunca fui tratada desta forma”, começou por dizer. “Nestes dias têm vindo a acontecer algumas coisas que são alertas para nós. Parece que, às vezes, algumas pessoas nos estão a fazer um favor, mais que um favor, caridade. Ninguém me está a fazer nenhum favor. Essas ameaças connosco não vão resultar. Estes pés vieram de muito longe”. A intervenção da criadora terminou com a decisão drástica: “Por honra de tudo aquilo que nós já vivemos e vivenciamos, nós não fazemos este espetáculo”. Perante a tomada de posição, o público presente reagiu com aplausos e gritos de “Brava, Isabél”.
Teatro diz “não ter sido identificada atitude de natureza racial”, mas abriu “processo de averiguação interno”
Contactada pelo Observador, a direção d’A Oficina emitiu um comunicado no final da manhã desta sexta-feira, lamentando “os acontecimentos que levaram ao cancelamento do espetáculo Afro Sal.Oyá (…) no âmbito dos Festivais Gil Vicente”, assegurando que “não tolera qualquer forma de racismo, sexismo ou assédio e leva muito a sério todas as alegações dessa natureza”.
“Face à denúncia ontem apresentada pela mesma artista, a direção executiva d’A Oficina instaurou de imediato um processo de averiguação interno”, adianta. Sublinha que “apesar de não ter sido identificada qualquer atitude, ato ou insinuação de natureza racial”, a instituição “decidiu enviar uma participação ao Ministério Público para que toda a situação possa ser cabalmente investigada, pedindo a maior celeridade possível”.
Contudo, a direção executiva da cooperativa cultural ressalvou que, até ao momento, “não foi identificada qualquer atitude, ato ou insinuação de natureza racial”. Ainda assim, face à gravidade das acusações, A Oficina informou que “decidiu enviar uma participação ao Ministério Público para que toda a situação possa ser cabalmente investigada, pedindo a maior celeridade possível”. O comunicado encerra manifestando “total empatia e compreensão para com todos aqueles que se sentiram afetados por esta situação, reafirmando o seu compromisso com os valores da igualdade, da inclusão, do respeito mútuo e da dignidade de todas as pessoas”.
Afro Sal.Oyá é descrito como “um espetáculo-concerto-pop-ritualístico, de uma artista afro-saloia que cresceu num subúrbio rural africano na periferia de Lisboa”. Após esta passagem por Guimarães, o espetáculo tem agendada uma apresentação de um excerto do trabalho em Castelo Branco, integrando a programação do Festival Singular. A apresentação da versão integral da peça está prevista para novembro, no Teatro Rivoli, no Porto, seguindo depois para Lisboa, onde subirá ao palco do São Luiz Teatro Municipal em janeiro do próximo ano.