O pintor britânico David Hockney morreu na última quinta-feira, aos 88 anos, anunciou a porta-voz do artista, num comunicado que o descreve como sendo “uma das figuras mais importantes da arte contemporânea” dos séculos XX e XXI.
Hockney morreu “pacificamente em sua casa”, em Londres, a um mês do seu 89.º aniversário. David Hockney nasceu e cresceu no norte de Inglaterra, na cidade de Bradford, onde se popularizou como um artista que saía da veia convencional da sociedade britânica, seja pelo estilo das suas pinturas, como pelos diferentes visuais que ele próprio assumia — o cabelo oxidado e um casaco brilhante, que depressa se tornaram sinónimos da arte que produzia.
Foi em Londres que deu continuidade à sua jovem carreira artística e que começou a aparecer fortemente associado a estrelas britânicas, como o vocalista Mick Jagger. Mas eram os artistas norte-americanos que o inspiravam e, em 1961, com o dinheiro que conseguiu angariar através da venda dos seus quadros, visitou Nova Iorque pela primeira vez, onde acabaria por encontrar o colega de profissão Andy Warhol, com quem desenvolveu uma relação de amizade. E, três anos mais tarde, Hockney tornaria os Estados Unidos da América a sua residência permanente.
“Passei os primeiros 20 anos da minha vida na penumbra gótica do Norte. Aqui sentia-me livre”, descreveu o artista ao autor da sua biografia Peter Adam, após se ter mudado para a Califórnia. “Pensei que as pessoas que criavam obras assim deviam viver a cores, por isso fui à procura disso”, cita a agência Reuters. Foi este o estilo que adotou. Quadros repletos de sol, luz e cor, pintados entre Los Angeles, Londres e Paris.
Em 1985, foi convidado pelo Presidente Ronald Reagan para um jantar com o Príncipe Carlos e a Princesa Diana na Casa Branca. Antes de entrar pelos portões do edifício mais conhecido da capital norte-americana, foi retido pela segurança presidencial durante meia hora por ter sido o único convidado a deslocar-se até à residência presidencial dos Estados Unidos a pé.
O seu quadro Retrato de um Artista (Piscina com Duas Figuras), pintado em 1972 e cujo nome ilustra literalmente a temática, tornou-se, em 2018, o quadro mais caro de sempre pintado por um artista ainda vivo, depois de ter sido leiloado por 90,3 milhões de dólares (77,9 milhões de euros), tornando-se o seu quadro mais valioso.
Esta inventividade esteve no centro da maior exposição que alguma vez lhe foi dedicada, em 2025, na Fundação Louis Vuitton, em Paris, um evento no qual David Hockney se envolveu profundamente, segundo entrevistas da altura.
Risonho e malicioso por trás dos seus célebres óculos redondos, este “fumador feliz”, avesso a “lições de moral”, mostrava-se maravilhado em abril de 2025 por ter conseguido inaugurar o evento, apesar dos seus problemas de saúde, relata a AFP sobre o momento da abertura da exposição.
As suas obras emblemáticas, com cores audazes e uma perspetiva original, entraram na cultura popular, como é o caso de A Bigger Splash (1967), com o salpico na piscina de uma vivenda californiana banhada pelo sol, símbolo de prazer e de sensualidade.
Em 1985, o Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, e a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, mostraram a produção fotográfica do artista na exposição “David Hockney Fotógrafo”, que reunia 101 grandes montagens, produzidas entre 1968 e 1984, com páginas de álbuns, polaroids e colagens.
A primeira apresentação de David Hockney em Portugal, na Gulbenkian, data de 1977, com a exposição “David Hockney. Gravura e Desenho”, seguida de “The Rake’s Progress”, em 1984, que combinava ciclos satíricos de obras de Hockney e de William Hogarth (1697-1764).
A coleção de arte contemporânea da Gulbenkian possui obras do artista como Renaissance Head, Pigs escaping from a hot dog machine e Figure in Helmet and Cloak.
Outras obras de Hockney foram expostas em Portugal, sobretudo em mostras coletivas, desde a sua presença na Coleção Berardo, à exposição “Canção Contemporânea — Obras da Coleção Mário Teixeira da Silva na Coleção de Serralves”, onde surgiu a par dos portugueses Helena Almeida, Paula Rego e Julião Sarmento, entre outros artistas.
Livros do artista como Secret Knowledge – Rediscovering the lost techniques of the old masters e História da Imagem, em colaboração com Martin Gayford e Rose Blake (obra pensada para crianças, editada em Portugal pela Edicare), testemunham a reflexão de David Hockney sobre arte e a pintura, em particular, como expressão da humanidade.
Hockney “deixa o seu companheiro de longa data, Jean-Pierre Gonçalves de Lima, o seu sobrinho-neto Richard, que trabalhou como seu assistente de estúdio nos últimos anos de vida, os seus irmãos Philip e John, assim como muitos sobrinhos, sobrinhas, sobrinhos-netos e sobrinhas-netas”, conclui o comunicado hoje divulgado pela sua agente.