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(A) :: "Memória fresca" da crise inflacionista de 2022, os salários e as margens das empresas. Porque é que BCE achou tão "necessário" subir juros

"Memória fresca" da crise inflacionista de 2022, os salários e as margens das empresas. Porque é que BCE achou tão "necessário" subir juros

Em 2022 o BCE foi surpreendido pela subida de salários e margens das empresas. Eventuais progressos de paz podem aproximar BCE de cenário mais benigno e tornar subida de juros em julho menos provável.

Edgar Caetano
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Lagarde insistiu que esta subida das taxas de juro não foi uma decisão “preventiva”. Subir os juros por razões “preventivas” significaria tomar essa decisão não por ela ser necessária neste momento mas, sim, para evitar ter problemas no futuro, como quando se paga um seguro. Mas não foi nada disso que aconteceu, frisou a presidente do BCE, gerando algum ceticismo entre os analistas. Ao que apurou o Observador, esse ceticismo tem razão de ser porque, nos bastidores, a autoridade monetária não considera que a inflação está, neste momento, a descontrolar-se – mas existe preocupação até porque ainda está muito fresco na memória de todos o anterior surto inflacionista.

De acordo com fontes do Banco Central Europeu (BCE), os economistas da autoridade monetária estão especialmente preocupados com dois riscos capazes, aí sim, de gerar novamente um problema de inflação cujo controlo se pode tornar doloroso, como aconteceu há poucos anos.

O primeiro desses riscos está ligado aos salários, tendo em conta que dentro do próprio BCE se admite que, em 2022, se subestimou a rapidez com que os salários subiram para “correr atrás do prejuízo” relacionado com a perda de poder de compra causada pelo choque energético associado à invasão da Ucrânia pela Rússia. Lagarde preferiu não falar nisso, concentrando-se (sem “vaidade”) no ano de 2025 ao longo do qual a inflação se manteve no objetivo de 2%, mas internamente reconhece-se que o BCE não foi capaz de prever, atempadamente, esse aumento insustentável dos salários.

Esse foi o primeiro fator que levou a que a anterior crise inflacionista – que começou com um choque exógeno, vindo do exterior, relacionado com os preços da energia (sobretudo gás e eletricidade) – tenha rapidamente produzido os chamados “efeitos de segunda ordem”. Isso acontece quando, a partir de um choque inicial, os agentes económicos – dos trabalhadores às empresas – começam a presumir que a inflação irá manter-se elevada durante muito tempo. É esse o pior pesadelo dos bancos centrais.

Há um segundo fator, porém, que está a preocupar os economistas do BCE e que está relacionado com as lições aprendidas na crise inflacionista de 2022/2023. Tão ou mais importante para que a inflação tenha disparado para mais de 10%, nessa altura, foi o facto de as empresas terem dilatado as suas margens de lucro. Fizeram-no para acumular “almofadas” para o futuro mas fizeram-no, sobretudo, porque puderam fazê-lo – existia forte procura pelos seus bens e serviços, de um modo geral, depois de os consumidores terem acumulado disponibilidades financeiras durante a pandemia, valores que, depois, ao serem gastos com a reabertura das economias, deram “terreno fértil” para a subida da inflação.

Ao que o Observador apurou junto de fonte próxima de Frankfurt, a convicção neste momento é que, tanto no primeiro risco como no segundo, não há tantos motivos para preocupação porque o contexto não é o mesmo que existia em 2021 e no início de 2022. O mercado de trabalho, embora robusto e resiliente, “não está numa situação tão apertada” como naquela altura, disse uma fonte. Ou seja, existe maior oferta de trabalho, em comparação com a procura, pelo que o poder negocial dos trabalhadores, que queiram melhores salários, é inferior.

Os dados atuais comprovam isso mesmo: ainda não há evidências claras de que os salários estejam a subir em demasia, embora se acautele que é normal que esse efeito demore um pouco a manifestar-se – normalmente, quando se manifesta de forma muito óbvia, já é tarde para reagir. Ou seja, embora já tenham decorrido alguns meses na guerra que desestabilizou novamente os mercados de energia, poderá ainda ser cedo para que esse risco se manifeste.

Por outro lado, a perceção dentro do BCE é que também “as empresas não terão, agora, as mesmas condições para subir preços e margens com a facilidade que tiveram em 2022″. A mesma fonte salienta que há indicadores que apontam no sentido de as famílias, de um modo geral, já estarem a cortar nos gastos, desde bens duradouros, como automóveis, até bens não duradouros, como produtos eletrónicos e serviços. As empresas, sobretudo as indústrias, estão a ter um comportamento diferente mas isso poderá estar relacionado com a acumulação de stocks de matérias-primas essenciais como plásticos e outras.

Em suma, embora Lagarde tenha garantido publicamente que a subida dos juros decidida nesta quinta-feira é compatível com os vários cenários previstos pelo BCE (para a economia e para a inflação), existe nos corredores e nos gabinetes de Frankfurt uma preocupação de que o primeiro risco ou o segundo (ou ambos) podem voltar a apanhar a autoridade monetária desprevenida.

Aí, poderia gerar-se uma espiral inflacionista que, depois, teria de ser controlada com uma política monetária ainda mais agressiva do que seria necessário se se tivesse atuado mais cedo. No ciclo de subidas de taxas de 2022/2023, o BCE aumentou os juros até um pico de 4%, um nível no qual permaneceram mais de um ano (entre setembro de 2023 e junho de 2024).

Para o ministro das Finanças português, estes receios não são mais do que um gato escaldado que de água fria tem medo. Joaquim Miranda Sarmento considerou que a subida das taxas de juro anunciada pelo BCE, justificada pelas pressões inflacionistas causadas pela guerra no Médio Oriente, “não era absolutamente necessária”, já que esta é uma “crise diferente da de 2022”.

“Naturalmente há uma preocupação do BCE, que teve uma ação muito importante em 2022”, reconheceu Miranda Sarmento, acrescentando que a autoridade monetária “entendeu dar este primeiro sinal ao mercado”. Mas terá sido uma decisão correta? “Veremos nos próximos meses”, afirmou.

Eu mantenho a minha opinião de que [o BCE] podia não ter dado este sinal e não era absolutamente necessário, mas respeito naturalmente o mandato e a independência do BCE”, disse o ministro das Finanças, poucos dias depois de o Estado português ter tido que pagar taxas de juro mais elevadas para se financiar nos mercados, devido à expectativa – confirmada na quinta-feira – de que o BCE iria subir os juros nesta quinta-feira.

Miranda Sarmento está longe de ser o único a pensar desta forma. Os analistas do banco holandês não falam em gatos escaldados nem em água fria mas, sim, em “fantasmas do passado”.

“Não conseguimos afastar a ideia de que o BCE está, na verdade, a lutar contra fantasmas do passado – mais concretamente, a sua reação tardia ao choque inflacionista de 2021 e 2022″, escreveu o banco holandês, lembrando que, “na altura, a autoridade monetária se agarrou demasiado à ideia de que um aumento da inflação impulsionado por choques de oferta era ‘transitório’ e podia ser ignorado”.

Aparentes progressos no Médio Oriente tornam menos provável nova subida em julho

A (mais recente) comunicação pública de Donald Trump de que poderia estar perto um acordo para um cessar-fogo no Médio Oriente surgiu poucas horas após o final da conferência de imprensa do BCE em Frankfurt. Na manhã seguinte, as notícias apontavam para a possibilidade de esse acordo ser assinado nos próximos dias numa cidade europeia como Genebra, o que apontava para o fim do conflito.

Todas estas notícias foram recebidas com muita desconfiança em Frankfurt. Já houve outros momentos em que o conflito parecia estar à beira do fim e acabou por ter novos reveses. Ainda assim, as fontes ouvidas pelo Observador em Frankfurt não consideram que, caso a guerra termine mesmo nos próximos dias, isso signifique que a subida dos juros desta quinta-feira tenha sido desnecessária (ou, pior, um erro).

Como já foi amplamente alertado pelos especialistas nesta área, mesmo que exista uma reabertura total do Estreito de Ormuz – o que está longe de ser uma certeza, nesta fase – irá levar muito tempo até que o fornecimento de petróleo ao resto do mundo seja normalizado. Ainda assim, foi para precaver uma possível resolução do conflito nas próximas semanas que o BCE decidiu publicar, além do seu cenário-base (evolução mais provável da economia e da inflação), um “cenário mais benigno”. Isto além, claro, dos dois cenários mais negativos do que o cenário-base (o cenário adverso e o severo).

Nesse cenário mais positivo, que é aquele do qual a economia europeia se poderá aproximar caso o conflito realmente esteja a terminar, a inflação nunca alcança os 3% em nenhum dos próximos anos. Isso contrasta com a inflação de 5,3% que pode existir (em 2027) no cenário mais severo. Se assim for, confirmou fonte próxima do processo, ficará praticamente eliminada a hipótese de uma nova subida das taxas de juro em julho.

Mas Lagarde sublinhou que até mesmo nesse cenário mais benigno, a subida de juros desta quinta-feira – de 2% para 2,25% – tem justificação nas tendências que o BCE vê na inflação e para o crescimento económico. O que, por outras palavras, significa que também não será plausível esperar que o movimento desta quinta-feira seja revertido rapidamente.

Por outro lado, caso a guerra continue, a instabilidade nos mercados energéticos persista e a evolução da economia se mova mais no sentido dos cenários adverso ou severo, então uma subida dos juros em julho, mais uma, é uma possibilidade real. O governador do banco central alemão, Joachim Nagel, já veio defender isso mesmo, alegando que o impacto da guerra é tal que o BCE deve estar preparado para elevar as taxas de juro para 2,5% já no próximo dia 23 de julho.