O Mundial de 1950 chegou ao Brasil com menos seleções do que estava previsto. A Alemanha e o Japão estavam afastados da FIFA na sequência da Segunda Guerra Mundial e não participaram. Escócia e Turquia, já classificadas, desistiram de vir, tal como a Índia, enquanto França e Portugal recusaram convites recebidos depois de outras seleções terem desistido — o torneio acabou disputado por 13 equipas em vez de 16.
Para a ocasião, o Brasil construiu de propósito um dos maiores estádios do mundo. O Maracanã, com capacidade para 200 mil espectadores, foi erguido especificamente para o Mundial de 1950. O formato também era diferente de tudo o que se viu depois: esta foi a única edição da história sem uma final tradicional, decidida por um grupo final de quatro seleções, em sistema de todos contra todos.
O caminho do Brasil até ao jogo decisivo não deixava margem para dúvidas sobre quem era o favorito. Na abertura desse grupo final, o Brasil goleou a Suécia por 7-1 — ainda hoje a maior vitória da sua história em Mundiais —, com quatro golos de Ademir de Menezes. Três dias depois, repetiu o espetáculo contra a Espanha, vencendo por 6-1. O nível exibido impressionou os adversários: o chefe da delegação espanhola, Munhoz Calero, admitiu ao jornal O Povo: “Perdemos — é certo — mas diante de um onze que apresenta um futebol que nós espanhóis nunca vimos antes igual”, admitiu.
https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/1281177527168442368
Chegava-se, assim, ao jogo decisivo com o Brasil confortavelmente em vantagem na classificação. Bastava um empate ao anfitrião para ser campeão pela primeira vez, ao contrário do Uruguai, que precisava obrigatoriamente da vitória. No dia 16 de julho, quase 200 mil pessoas — 199.854, segundo o jornal O Povo — encheram o Maracanã, na expectativa de assistir à consagração do Brasil como campeão mundial em casa.
https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/1194608352308989952
Foi nesse cenário que se escreveu o capítulo mais dramático da história dos Mundiais. Friaça abriu o marcador aos dois minutos do segundo tempo, mas o Uruguai empatou com Schiaffino e, a onze minutos do fim, virou o resultado com um golo de Ghiggia, tornando-se campeão do mundo pela segunda vez. Ficou conhecido como o Maracanazo.
https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/1003616202231558150
Uma história. Um Mundial sem final também é um Mundial
O Mundial de 1950 continua a ser, até hoje, o único da história sem uma final propriamente dita. A redução do número de seleções participantes obrigou a FIFA a alterar o formato, e o torneio terminou com aquele grupo final de quatro equipas em sistema de todos contra todos – uma decisão que nunca mais voltou a repetir-se. O jogo Brasil-Uruguai era, na prática, a última jornada desse grupo – e funcionou como uma “final” apenas porque o calendário e os resultados anteriores assim o ditaram.
Um herói. O capitão Obdulio pedia que não se olhasse para as bancadas
O melhor jogador do Mundial de 1950 não foi nenhum dos avançados brasileiros, nem o melhor marcador do torneio – foi o capitão uruguaio Obdulio Varela. Antes do jogo decisivo, pediu aos companheiros que não olhassem para as bancadas em festa: dentro de campo seriam apenas onze contra onze, e era ali e só ali que o jogo se decidia.
Uma curiosidade. Do branco para o amarelo
Antes do apito inicial, o estádio já estava decorado com faixas a homenagear os “campeões” e a banda presente no recinto nem chegou a receber a partitura do hino do Uruguai – considerada desnecessária face à iminência do triunfo brasileiro. O uniforme branco que o Brasil usava até então nunca mais voltou a vestir a seleção: a partir daí adotou-se a camisola amarela que ainda hoje a representa. Do lado contrário ao da festa uruguaia ficou Moacir Barbosa, guarda-redes do Brasil e um dos melhores da sua geração. Com o resultado empatado – suficiente para o título brasileiro –, Barbosa viu Ghiggia rematar cruzado para o seu canto, um remate que entrou junto ao poste mais próximo. Ghiggia estaria, mais tarde, na seleção italiana.
O que se seguiu a esse lance perseguiu Barbosa para o resto da vida. “Qual é a pena máxima no Brasil? Não são 30 anos?”, perguntou décadas mais tarde, numa entrevista ao jornalista Helvídio Mattos. Passou por grandes dificuldades financeiras nos últimos anos de vida, dependente da ajuda de amigos. Morreu em 2000 – e só muito mais tarde a história lhe fez justiça, reconhecendo nele um dos melhores guarda-redes do seu tempo, vítima de uma decisão de Ghiggia que ninguém podia ter previsto. Do lado uruguaio, o reverso dessa tragédia teve um nome: o próprio Obdulio Varela. Anos depois, ao recordar aquele dia, o capitão confessou: “Se soubesse o que era um povo inteiro a chorar não sei se teria querido ganhar aquele jogo”.
Como foram os resultados no Mundial de 1950
- 24 de junho (fase de grupos): Brasil-México, 4-0
- 25 de junho (fase de grupos): Jugoslávia-Suíça, 3-0, Inglaterra-Chile, 2-0, Espanha-EUA, 3-1 e Suécia-Itália, 3-2
- 28 de junho (fase de grupos): Brasil-Suíça, 2-2 e Jugoslávia-México, 4-1
- 29 de junho (fase de grupos): Espanha-Chile, 2-0, EUA-Inglaterra, 1-0 e Suécia-Paraguai, 2-2
- 1 de julho (fase de grupos): Brasil-Jugoslávia, 2-0
- 2 de julho (fase de grupos): Suíça-México, 2-1, Espanha-Inglaterra, 1-0, Chile-EUA, 5-2, Itália-Paraguai, 2-0 e Uruguai-Bolívia, 8-0
- 9 de julho (grupo final): Uruguai-Espanha, 2-2 e Brasil-Suécia, 7-1
- 13 de julho (grupo final): Brasil-Espanha, 6-1 e Uruguai-Suécia, 3-2
- 16 de julho (grupo final): Suécia-Espanha, 3-2 e Uruguai-Brasil, 2-1