A pequena televisão quase esquecida em cima de um frigorífico no restaurante Marinhas transmite o folclore da atuação de Shakira e, depois, um intenso jogo de abertura do Mundial 2026. Nenhuma das pessoas sentadas se preocupa em levantar os olhos para o ecrã. Não pela sua dimensão, mas porque em mãos muitos têm a missão mais entusiasmante de provar o arroz de polvo da melhor tasca do País.
A poucos quilómetros do centro de Aveiro, Rafael e Fátima Almeida encontraram um pequeno espaço para investir na tradição, após vários anos emigrados na Suíça. Deste destino habitual de muitos portugueses trouxeram, além de dois filhos, conhecimento e vontade de colocá-lo em prática.
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O Marinhas é um restaurante português, de Aveiro e do mar. E a decoração confirma-o: quadros de barcos, azulejos na parede e imagens da ria. O logo do estabelecimento está em todo o lado: prato, guardanapo, toalha e até no tapete da entrada. Em cima da mesa, a portugalidade reafirma-se, com um tacho cheio de uma dose recheada de arroz de polvo (46 euros para duas pessoas, ou mais uma).


Esta quinta-feira, mesmo estando numa rua mais escondida da cidade dos canais, a casa está quase cheia, com pouco mais de duas dezenas de pessoas. “Temos notado mais movimento desde que nos candidatámos ao concurso [Tascando]”, explica Rafael ao Observador. E a procura está a ser maior agora, após a notícia da vitória.
“Não estávamos à espera, mas começámos a ver pelas pessoas que votaram, outras que diziam ‘o polvo é bom, eu acredito que vão longe’. Começaram a dizer isso, eu ouvi e o entusiasmo e a fé cresceram”, admite o dono.
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O concurso que chegou este ano à terceira edição procura “celebrar a autenticidade e o sabor da cozinha de raiz popular portuguesa”. Rafael descreve o processo desde a candidatura até ao prémio com a mesma facilidade com que relata a receita de arroz de polvo com gambas e camarão.
Fátima, mulher de Rafael e também gerente do Marinhas, foi a primeira a conhecer o concurso, quando um homem passou pelo restaurante e perguntou ao casal se não queria apresentar a candidatura. “Foi um dia engraçado, porque eu estava bastante apressado. Fui à Gafanha [da Nazaré] buscar os congelados, parei aqui e o senhor tinha estado a falar com a minha mulher”.




O gerente ainda avisou que estava atrasado, mas o senhor desconhecido insistiu. “Falámos pela porta do carro e ele anunciou-me por alto o que era. Passados dois meses voltou a contactar-me e veio cá, já com a programação toda de quem ia competir”.
Passo seguinte? Escolher um prato. Cada concorrente tem que escolher uma iguaria para ser representado na prova e Rafael tinha a decisão tomada. “Queria arrancar com a caldeirada de enguias, que é um prato da casa e de Aveiro”. Mas assim que informou a organização, disseram-lhe que outra tasca já tinha definido essa opção.
Restava o plano B, o arroz de polvo, um dos pratos implementados pelo casal quando comprou o restaurante. “Estive 15 anos na Suíça, sempre ligado ao ramo do peixe e do peixe congelado. Viemos em 2023. Vimos o anúncio de trespasse do Restaurante Marinhas e fechámos negócio. Trabalhando no peixe congelado, uma das coisas que mais gostava de mexer era o arroz de polvo”.
“Uma das bases essenciais era comprar o restaurante, mantendo a equipa, porque todos são precisos e era uma equipa que estava aqui há alguns anos e continua. É pena que para muitos deles a reforma já vai começar este ano. Portanto, começa-se a renovar, já temos contratações mais jovens feitas, começam em agosto”.


Na estreita cozinha, enquanto prepara “carapauzinhos” (3,5 euros), Arménio reforça a importância de passar os conhecimentos aos mais novos, para não se perder a tradição, mas admite que já não vê os “jovens de hoje em dia”, com vontade de passar o que ele passou, assumindo ser uma profissão cansativa. “Vim da aldeia muito novo, comecei a aprender o básico, coisas ligeiras, pratos ligeiros. Com os anos comecei a aprender e a fazer outros pratos. Depois vim para esta casa e mais difícil foi, mais complicado, mas nada que não se pudesse ultrapassar”.
Enquanto recorda o percurso, Arménio vai controlando os carapaus e o último tacho de arroz de polvo que ainda vai sair diretamente do lume para a mesa. No novo Restaurante Marinhas, desde que este foi trespassado para as mãos do casal Almeida, o cozinheiro acrescentou ao reportório “um ou outro” prato de carne (que representam cerca de um terço das vendas da tasca), destacando-se a “espetada terra e mar” (56 euros para duas pessoas) com carne, lula, ananás, polvo e gamba-tigre.
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Rafael não tem dúvidas de que a atenção angariada nas redes sociais tem ajudado, ultimamente, a tornar o restaurante mais conhecido. “Fizemos muita publicidade”, concorda Fátima, que salienta a confiança da equipa no prato que foi a concurso. “Estávamos confiantes no produto que estamos a propor. Tanto o meu marido como o cozinheiro são duas pessoas que conhecem a cozinha. Não vou dizer que era um valor seguro, mas foi um prato que desde o início teve boas críticas. Ser um prato familiar, com aquele sabor, já é 90% ganho”, acrescenta a gerente. Segredo? “Não há. Há o saber fazer. A vontade de fazer para partilhar”.

Aos 59 anos, Arménio continua atento às redes sociais e foi ele mesmo que ficou surpreendido quando viu publicado o vídeo de uma cliente brasileira que somou muitas visualizações.
Mas a votação no concurso não passava pelas redes sociais. Os votos dividiam-se entre um júri selecionado e os clientes normais. Estes últimos só precisavam de pedir o prato eleito (neste caso, o arroz de polvo) e no final, além da sobremesa, recebiam um boletim para avaliar a refeição.
Se só o concurso já trouxe ao Marinhas a atenção que nunca teve, os seus proprietários esperam que a atenção mediática com o prémio seja o reconhecimento que têm procurado nos últimos anos, marcados por alguns momentos menos positivos. “Estamos aqui há dois anos, estamos contentes. Tivemos alguns baixos, mas foi mais este ano, com as tempestades, as guerras… a conjuntura internacional não está boa, toda a gente sabe”, reconhece Rafael.
Por esse motivo, a tentação de subir preços é sempre alta, mas o gerente garante que, se o fizer, perderá muitos clientes. Além da tensão geopolítica, que faz aumentar muitos preços, um restaurante fora das grandes cidades portuguesas enfrenta outros problemas.
“Não querendo rebaixar Aveiro, [Porto e Lisboa] são cidades com muitos mais habitantes, mais cultura, mais estatuto, mais tudo… Têm sempre mais variedade, até acredito que algumas qualidades de produtos para restaurantes seja mais fácil adquirir no Porto e em Lisboa. Por exemplo, os melhores robalos que param hoje na lota de Aveiro estão quase todos vendidos para o estrangeiro, aquilo já vai para mercados de Madrid e depois Lisboa e Porto”, admite o gerente.
Desta vez, Aveiro levou a melhor, na primeira vez que o prémio contemplou tascas fora do Porto e de Lisboa. O júri visitou 120 espaços: 40 em Lisboa, 40 no Porto, 20 em Braga e 20 em Aveiro.