“Se algum de vocês só está aqui porque um amigo ou parceiro vos arrastou e vocês não estão a entender nada do que estamos a dizer, não se preocupem, ninguém entende”, admitiram os Kneecap durante o seu concerto. É normal, já que fazem rimas em irlandês, uma língua que apenas se fala na ilha que a batizou e quase se extinguiu por influência do governo britânico. No entanto, pelo contrário, o que demonstraram a encerrar o palco Vodafone no primeiro dia do Primavera Sound Porto, no Parque da Cidade, é que cada vez mais gente os compreende, não obstante polémicas ou tomadas de posição polarizantes.
Naturais de Belfast, os norte-irlandeses tinham razões fecundas para gerar infâmia. Não só são republicanos que querem a reunião da Irlanda, como, desde a sua génese, em 2017, têm estado sistematicamente a provocar o governo britânico. E mesmo no seio daquele que seria o seu público mais próximo criam anticorpos, por rimar de forma crua e gozona sobre marginalidade, violência, tráfico e consumo de estupefacientes — “estamos sem drogas, quem as tiver mande-as para aqui, é para o vosso bem e para bem do vosso país”, brincaram esta noite. No entanto, é muito provável que tenha apenas travado conhecimento com o trio composto por Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí no verão do ano passado.
Ao longo de 2025, o grupo desencadeou uma tempestade política no Reino Unido pelo seu forte apoio público à Palestina e pela sua condenação igualmente veemente não só a Israel como a todos agentes políticos e estados que apoiam o país. O exemplo que correu mundo foi a atuação no festival Glastonbury, onde inclusive pediram ao público para dirigir palavras pouco simpáticas ao primeiro-ministro britânico, Keir Starmer. Mais grave ainda, Mo Chara foi acusado de apoio ao terrorismo por levantar uma bandeira do Hezbollah num concerto em 2024.

Volvido um ano, não só todos os casos legais contra os Kneecap caíram por terra como tiveram o efeito de tornar o grupo altamente popular além-fronteiras, embalando-os para o lançamento de FENIAN, o seu segundo disco, em maio. A prova é que, mesmo não enchendo — de resto, este primeiro dia, 11 de junho, não esgotou —, o palco Vodafone viu-se polvilhado de fãs jovens e mais velhos com camisolas e t-shirts alusivas ora à banda, ora à Palestina, ora à causa republicana irlandesa. E, para celebrar o fim do calvário judicial, a banda afirmou que queria parar de meter-se em apuros, pedindo logo de seguida ao público português para gritar “que se f**a o governo britânico”.
“Como irlandeses, entendemos o que é sofrer colonialismo. Entendemos a importância da solidariedade internacional e de usarmos a nossa plataforma para poder ajudar, estamo-nos nas tintas para as repercussões”, afirmou Mo Chara noutro momento do concerto. Isso ficou plasmado ainda antes da atuação ter início, quando surgiram mensagens no ecrã como “Israel está a cometer um genocídio contra o povo da Palestina e do Líbano”.
Por esta altura, até o leitor mais inclinado a ter simpatia pela banda e as suas causas poderá pensar “mas isto foi um concerto ou um comício?” Assumamos que foi os dois, mas de pouco valeria estarem em cima de um palco de um festival se não tivessem as canções para justificá-lo. E se as têm. Em completo contraciclo aos rumos sonoros que o hip-hop tem vindo a trilhar a nível internacional, os Kneecap baseiam-se na música eletrónica, mais especificamente nas vertentes da cultura rave dos anos 90 e 2000, do techno ao acid house, do garage ao UK hardcore. Basta recordarmos Guilty Conscience — com linha de baixo pós punk mas com batida de pistão hidráulico — ou a maníaca Sayōnara e os efeitos que tiveram no público, levando gente a saltar até no topo da colina e inúmeros focos de mosh, no que a banda descreveu como “rebaldaria positiva”.




A isto junta-se a enorme destreza de Mo Chara e Móglaí Bap não só a cuspir barras numa cadência frenética — e sem backing tracks — que já empolga se entendermos uma palavra do que está a ser dito, como com a facilidade camaleónica com que alternam entre o inglês e o irlandês. Gaelphonics foi, como o nome sugere, um curso intensivo de calão gaélico, Your Sniffer Dogs Are Shite aliou provocações à polícia a um refrão irresistível e Get Your Brits Out jogou com uma expressão irreproduzível aqui e com sentimento anti-britânico — não se via tanto português a desejar mal ao nosso mais antigo aliado desde o Ultimato de 1890.
Após uma Parful a servir de interlúdio e a mostrar como a cultura rave ajudou a sarar feridas durante os Troubles — demonstrando que os Kneecap, mais do que sectários, que dizem não ser, são provocadores —, o público entrou em ebulição com H.O.O.D, canção que torna um insulto num distintivo de honra. Para encerrar, The Recap, ainda mais apoteótica, com DJ Próvaí a enfiar-se num mosh e a ser devolvido ao palco em crowd surfing. Esse gesto de simpatia do público português foi apenas um de vários que levaram o trio a declarar sem cerimónias que o Primavera Sound Porto é melhor do que o de Barcelona. Será? Acreditemos pelo menos durante uma noite que sim.
Música, uma nação de várias linguagens
O irlandês, não foi, naturalmente, o único idioma que se ouviu no Parque da Cidade ao longo do dia. Cada vez mais internacional, o Primavera Sound está cada vez mais babélico, bastando aguardar junto ao público com as antenas no ar para se ouvir inglês, espanhol, alemão ou alguma língua nórdica indecifrável. Este não é um exemplo efabulado, mas o que constatámos na espera para ouvir os Nation of Language no palco Estrella Damm (o palco principal, anteriormente designado palco Porto).
Ao contrário do que é tradição, a chuva não parece vir a abençoar esta edição do festival, sendo substituída por um calor de ananazes que levou toda a gente ao longo do dia a concentrar-se nas sombras como iguanas amontoadas nas ilhas Galápagos. “Tudo bem, what’s going on”, perguntou Richard Devaney quando o trio de Nova Iorque subiu ao palco, frase billing que até podia ser desorientadora se não fosse assim como toda a gente fala agora.


De regresso a este festival, a banda relembrou um dos seus concertos favoritos de sempre, tocado neste mesmo recinto em 2023, mas no agora palco Primavera. Desde então, lançou Dance Called Memory, um álbum que inaugurou uma fase introspetiva e soturna da banda. Essa, todavia, ficou à porta desta vez. Os Nation of Language nunca deixam de ser uma banda com uma melancolia típica das suas referências — a synthpop dos anos 80, o pós-punk mais mavioso, a new wave —, mas optaram por um alinhamento mais soalheiro, a fazer jus ao verão que invadiu esta primavera.
This Fractured Mind e On Division St. trouxeram sintetizadores galopantes, Sole Obsession e The Wall and I mostraram porque é que os New Order continuam a ser uma referência incontornável e Across that Fine Line teve Devaney a pegar na guitarra e a enfeitiçar-nos com um ritmo motorik. “A minha família veio da América para ver este espetáculo”, revelou o vocalista. Não teve a serendipidade de 2023, onde a languidez da sua música enquadrou-se no pôr do sol que caia sobre o Porto, mas não faz mal; a família deve ter dado por bem empregue o seu dinheiro.
Se os Nation of Language unem o léxico musical ao verbal para produzir reações em todos nós, os Sensible Soccers ficam-se pela primeira parte. Mas demonstrando que a música é das poucas linguagens verdadeiramente universais, o grupo formado no Porto consegue chegar ao mesmo fim, sem que tenha sido proferida uma palavra. Depois de uma paragem de três anos, o quinteto voltou em força, não só com concertos, mas com mais do que um projeto musical: um álbum lançado em setembro e, antes disso, um EP de remisturas a cargo do lendário produtor de dub Mad Professor.


Depois de um percalço técnico que atrasou o concerto, os Sensible Soccers lançaram-se num misto de temas novos e ainda por lançar (pelo menos no que toca à versão não remisturada) com algumas das canções mais marcantes da sua carreira. Ainda não sabemos no que vão resultar os originais de Dub da Saia Travada e Berlaitada Dub, mas podemos constatar de imediato que o som cinemático do grupo casa tão bem com o espaçamento do dub que é de admitar como é que ainda não tinham experimentado isto. É natural que, com uma ambiência quase de discoteca, houve pessoas a começar a comportar-se como se estivessem numa, mas não foi o suficiente para contrapôr todos os outros a vibrar como nunca e como sempre, especialmente quando AFG — tão sublime como em 2014 — encerra as coisas.
Por fim, uma nota para Oklou, que infelizmente não permitiu que a imprensa tirasse fotografias, o que teria possibilitado demonstrar que a sua linguagem é tão musical quanto visual. Desde uma flauta a brilhar com luz vermelha até a um baloiço instalado no palco, o espetáculo da francesa Marylou Vanina Mayniel é pensado ao detalhe, ainda que em menor escala que as grandes produções. E, ao contrário do que por vezes acontece nesses casos, os artifícios não se sobrepõem à música, uma pop experimental que tanto encontra batidas à rock alternativo grungy (Blade Bird) como melodias entre o trance e o medieval (Harvest Sky). Esta última, tenha-se em conta, foi escolhida como a canção favorita de 2025 deste autor — ao vivo, só justificou ainda mais essa escolha.
Contra a América Proibida
Sendo talvez incalculáveis os danos reputacionais que Donald Trump tem vindo a causar no país que lidera, perguntamo-nos como exercício puramente especulativo como seria possível tentar recuperar essa reputação. Não havendo respostas fáceis (ou, quiçá, nenhuma), arrisquemos que talvez ouvir Adrianne Lenker a fazer aquele tipo de falsetto dolente da country, o chamado “high lonesome” break, sirva melhor a imagem dos EUA que mil presidentes. Ou a fazer da candura um programa, quando diz ao público: “eu fecho os meus olhos porque assim imagino que não há distância entre nós”.
Não podemos traçar conclusões muito para lá desta porque, em abono da verdade, não nos foi possível assistir a todo o concerto dos Big Thief, que Lenker lidera. No momento em que chegámos, a banda estava embrenhada num intenso reboliço sonoro, a terminar Christmas Day — canção por lançar — num freak-out cacofónico. A partir daí, ouvimos aquilo que era espectável da banda de Brooklyn, folk rock a variar entre o amargor e a doçura, a contar histórias passadas com saudade ou mágoa, como Incomprehensible, de Double Infinity, lançado em 2025. Mas, ainda assim, tivemos a sorte de ver história acontecer: pela primeira vez, o conjunto tocou Evol, da carreira a solo da sua vocalista e guitarrista ao vivo, com os seus jogos de palavras terrivelmente inteligentes. A encerrar, a já habitual Spud Infinity.


Houve, no entanto, nesta noite, uma outra praticante contemporânea da chamada música Americana, desta feita cuja mera existência é um desafio ainda maior à liderança conservadora do seu país. Apesar de ter nascido no seio de uma família evangélica batista do sul dos EUA, na Flórida, e tendo o pai como diácono, Ethel Cain assumiu-se como uma mulher trans aos 20 anos. Hoje, aos 28, é uma das maiores estrelas da pop alternativa do mundo, capaz de fazer salas esgotarem e fãs seguirem-na com devoção canina, sabendo todas as letras de cor e desalmando-se em choros quando a ouvem cantar.
Cain vai buscar o seu imaginário lírico não só às suas próprias experiências e traumas familiares, como a esse poço de horrores sem fundo que é o “Southern Gothic”. É por isso que, se a banda que a acompanha veste-se de forma relativamente sóbria, a cantora surge com um lenço a fazer de capote, como se fosse parte dos Amish — de resto, tal como no caso de Oklou, a artista não permitiu captação de fotos.
A música que acompanha tudo isto, em igual sentido, é um misto de ambiente, folk, indie rock, country e slowcore, cuja intensidade e distorção por vezes chegam a lembrar noise. No entanto, quem tivesse chegado logo no início do concerto sem qualquer espectativa prévia, poder-se-ia enganar a pensar que ia assistir a uma discípula de Florence Welch, dado o balanço acessível e até radiofónico de American Teenager. O problema foi depois.

Com a quase acústica Janie logo de seguida, toda e qualquer espectativa que este fosse apenas um projeto pop com uma patine de negrume foi para o lixo, sendo que Nettles e a sua metáfora dolente do eu como uma urtiga que magoa quem se aproxima seguiu igual bitola. No entanto, é preciso ter em conta que Ethel Cain não lançou apenas Willoughby Tucker, I’ll Always Love You, o seu segundo disco oficial, em 2025. No mesmo ano, saiu um projeto drone chamado Perverts, propositadamente torturoso e inacessível — e, claro, a artista trouxe algumas destas músicas para o espetáculo.
O resultado é que, entre uma palete de canções muito bem construídas e com temas altamente controversos e de difícil discussão, Cain, no meio do concerto, começou a tocar uma sequência de músicas progressivamente mais perturbadoras, desembocando num momento de punição auditiva em que cada martelada dada pela banda, em síncope, mais parecia vinda de um show de metal. Depois disso, foi um desfilar de canções onde Cain não precisou de grandes incentivos para que os fãs — especialmente aqueles junto às grades — cantassem partes acapella. Falamos da muito lasciva Gibson Girl, da apenas aparentemente inocente Crush ou da extraordinária Thoroughfare, onde sacou inclusive de uma harmónica com tal vigor que faria Bob Dylan corar.
Dia de reuniões e introduções
Seria incauto terminar um artigo do primeiro dia do Primavera sem incluir os cabeças de cartaz, que fizeram do palco Estrella Damm um ponto de encontro de toda uma geração de jovens adultos a relembrar os anos da adolescência. Ao fim de oito anos de paragem — a segunda de longa duração, já que eles fazem o que lhes apetece — os The XX vão voltar aos discos, mas antes, regressaram aos palcos.
No entanto, enquanto Oliver Sim, Romy Madley Croft e Jamie xx iniciavam uma reavaliação do passado e projetavam o seu futuro enquanto banda, fomos antes espreitar o presente da música pesada. O seu nome nada sugere que sejam uma banda de black metal eclético, mas os Agriculture tem cultivado um nível de atenção e maravilhamento que faz jus ao seu talento. No palco Primavera, o quarteto deu uma demonstração aprimorada dos rumos tão imprevisíveis quanto entusiasmantes que o metal extremo tem vindo a trilhar nos últimos anos, misturando descargas selváticas e grooves sísmicos com sensibilidades do indie rock e da folk — um dos momentos altos do concerto foram os lamúrios espirituais de Dan Meyer em Hallelujah, misto das ascensões hinduístas de George Harrison com a crueza descarnada dos Bon Iver dos primeiros tempos.

Apesar de tocar ao mesmo tempo que um dos nomes grandes deste ano, a banda de Los Angeles reuniu uma massa de público impressionante, sendo apenas prejudicada pelo excessivo entusiasmo de alguns dos espectadores, aos gritos nas partes contemplativas de Bodhidharma onde a única coisa que se devia ouvir era a voz segredada de Leah B. Levinson. Estes felizmente eram calados quando o conjunto volta a infligir um riff cataclísmico, gerando fortes contorsões no circle pit que entretanto se formou — e que os seguranças, a dado momento, quiseram a todo o custo parar. Cascalho do bom que entretanto deixámos em pousio para uma eventual segunda vinda dos Agriculture, já que no outro lado do recinto, havia outra cerimónia a decorrer.
Falar dos The XX em 2026 é como avaliar iconografia religiosa aos olhos de um estrato demográfico, dado o impacto paradigmático que tiveram na cena indie quando se estrearam com xx, em 2009. Que as músicas são excelentes, todos sabemos, mas será que o trio ainda tem estaleca? Pelo que assistimos tudo indica que sim. Dado o atraso em chegar a este palco, não assistimos a Crystalised ou Say Something Loving, chegando quando Jamie xx recordava Gil-Scott Heron em I’ll Take Care of U, canção superlativa que só pecou por ser apresentada num mero excerto. Seguiu-se Shelter, mas em versão puntz puntz remisturada pelo arquiteto sónico do grupo — e, convenhamos, aquele que mais vitalidade artística apresentou nos sucessivos interregnos do projeto. Por alguma razão é que Romy e Oliver tocaram cada um apenas uma das suas canções a solo, com destaque para a forma como o baixista e vocalista se entregou ao público em GMT, dançando de forma despudorada junto às grades.

“Não tomamos por garantido que ainda estejam aqui, tínhamos saudades vossas”, afirmou Romy, depois de uma Infinity com o seu travo inconfundível a Wicked Game e antes de VCR nos deixar nostálgicos por uma tecnologia que, francamente, foi corretamente substituída pelo DVD. On Hold ainda começou com um tropeção — pareceu-nos que cantada no tom errado —, mas de resto foi um concerto incólume e exatamente tudo aquilo que se esperava dos The XX nesta fase de carreira: uma banda amadurecida e no pico das suas capacidades. Venha de lá a música nova.
O Primavera Sound Porto 2026 continua esta sexta-feira, sábado e domingo, com nomes como Gorillaz, Slowdive, Idles, Jade ou Peggy Gou.
Notícia atualizada às 17:58 de 12 de junho — por lapso do autor, não foi incluída a última secção do artigo.