O Mundial 2026 começou esta quinta-feira, mas parece que já começou há meses. Entre os 15 vistos do Irão que não foram concedidos, o árbitro da Somália que foi deportado e o internacional pelo Iraque que foi interrogado durante sete horas, muito está a correr mal na antecâmara do Campeonato do Mundo. Quanto ao que vai correndo bem, sobra pouco — ainda que o jogo inaugural, com dois golos e três cartões vermelhos entre México e África do Sul no Estádio Azteca, tenha prometido.
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Irão. Os vistos, os pins, os bilhetes
Como não podia deixar de ser, a presença do Irão no Campeonato do Mundo está a ser um dos principais pontos de tensão do Mundial 2026. Os iranianos só entram em campo no dia 16 de junho, em Los Angeles e contra a Nova Zelândia, mas tudo o que tem acontecido nos últimos dias deixa antever que o que se passa no Médio Oriente vai transparecer para os EUA — e em larga escala.
Depois de semanas de incerteza devido ao atraso na concessão dos vistos para toda a comitiva, o Irão aterrou no México no passado domingo. Apesar de disputar os três jogos da fase de grupos nos EUA, a seleção iraniana vai ficar sediada na cidade mexicana de Tijuana, muito perto da fronteira entre os dois países. O facto de a concentração do Irão ser no México é um dado adquirido desde o fim de maio, altura em que a FIFA pediu ao país que recebesse a comitiva iraniana — alegadamente porque os EUA tinham exigido não albergar os iranianos, que inicialmente iriam ficar em Tucson, no Arizona.
Nos últimos dias, porém, o assunto ganhou uma nova dimensão quando surgiram dúvidas sobre os vistos que os EUA concederam a todos os representantes do Irão. Os iranianos passaram as últimas três semanas na Turquia e pretendiam ter chegado ao México no final da semana passada. Contudo, os EUA só concederam os vistos de entrada na passada sexta-feira, num atraso que tem sido essencialmente atribuído ao facto de vários internacionais iranianos servido nas forças militares do país.
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Ainda assim, existem agora versões contraditórias sobre a dimensão dos vistos concedidos: alguns responsáveis iranianos garantiram que a seleção só poderá entrar nos EUA nos dias de jogo, tendo de sair do país logo no mesmo dia, enquanto que outros adiantaram que a seleção poderá entrar em território norte-americano na véspera dos dias de jogo, tendo sempre de sair logo no mesmo dia. “Eles podem entrar de manhã e têm de sair no mesmo dia”, indicou Abolfazl Pasandideh, embaixador do Irão no México. “Os vistos atribuídos à seleção nacional são vistos de entrada-múltipla. A seleção nacional vai chegar à cidade do jogo no dia anterior, no caso do primeiro jogo, e dois dias antes no caso dos dois jogos seguintes”, referiu Amir Mahdi Alavi, o porta-voz da Federação Iraniana de Futebol. Seja como for, o Irão será obrigado a uma logística nunca antes vista num Campeonato do Mundo.
Apesar de a maioria dos iranianos já terem aterrado no México, onde foram recebidos no Aeroporto Internacional de Tijuana com muita segurança e policiamento e apenas alguns funcionários com bandeiras do país, a Federação Iraniana de Futebol garante que 15 elementos da comitiva não receberam os vistos necessários para viajar — incluindo o diretor de futebol da Federação e o seu adjunto, para além do diretor de comunicação do organismo.
“Devíamos ter chegado na semana passada. Uma diferença horária de 12 horas precisa de duas semanas de adaptação. Normalmente, nestas competições, antes das questões técnicas estão as considerações éticas e humanas que têm de ser respeitadas. E acho que isso não aconteceu no nosso caso. Estamos chateados com este comportamento. De certeza que nunca aconteceu antes”, disse Amir Ghalenoei, selecionador do Irão, na chegada a Tijuana. De recordar que os iranianos estão inseridos no Grupo G do Mundial 2026, estreando-se no dia 16 de junho contra a Nova Zelândia, em Los Angeles, e defrontando depois a Bélgica (21 de junho, Los Angeles) e o Egito (27 de junho, Seattle).

Entretanto, atrasos à parte, a comitiva do Irão já conseguiu causar impacto à chegada. À saída do avião, todos os elementos da delegação traziam o mesmo pin na lapela do casaco do fato, onde se lia #168 — numa referência ao ataque de EUA e Israel à escola de raparigas Shajareh Tayyebeh, a 28 de fevereiro e na cidade de Minab, que culminou na morte de 168 pessoas entre crianças, professoras e pais. No final de março, num jogo particular contra a Nigéria, os jogadores iranianos já tinham recordado a escola de Minab ao surgirem em campo com mochilas escolares.
Na terça-feira, os bilhetes para o Mundial 2026 que estavam reservados para os adeptos do Irão terão sido revogados. De acordo com um comunicado da Federação Iraniana de Futebol citado pela BBC, o organismo já tinha começado a vender os bilhetes, mas está impedido de os providenciar aos adeptos — sendo que muitos desses adeptos já tinham comprado as viagens de avião e marcado hotéis.
De recordar que, de acordo com a regulamentação da FIFA, cada Federação cuja seleção esteja apurada para o Campeonato do Mundo tem direito a 8% dos bilhetes para cada um dos respetivos jogos na competição, podendo depois distribuí-los aos adeptos do próprio país.
“Privar os adeptos iranianos do acesso aos bilhetes a que têm direito é uma ação contrária ao espírito das competições internacionais e ao princípio da igualdade entre os países participantes. Este episódio levanta questões sérias sobre a interferência de considerações não-desportivas e políticas na organização do maior evento de futebol do mundo”, pode ler-se no comunicado, que pede ainda à FIFA que “garanta os princípios da neutralidade, da justiça e das regras estabelecidas”.
O árbitro da Somália que recebeu a Supertaça Europeia depois de ficar fora do Mundial
É talvez a história mais mediática de um Mundial 2026 que só começou esta quinta-feira. Omar Artan, árbitro internacional natural da Somália que era um dos selecionados para estar no Campeonato do Mundo, foi intercetado no Aeroporto de Miami e não conseguiu entrar nos EUA, acabando por ser deportado — e impedido de participar no Mundial, onde seria o primeiro somali a arbitrar numa fase final da competição.
Os motivos da deportação de Omar Artan começaram por não ser conhecidos, com a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA a indicar apenas à AFP que “um cidadão somali chegou ao Aeroporto Internacional de Miami vindo do Aeroporto Internacional de Istambul e, durante os procedimentos, o viajante foi submetido a uma triagem adicional, uma etapa de rotina”. “Após a triagem, o viajante, árbitro do Mundial, foi considerado inadmissível devido a problemas com a sua verificação de antecedentes e foi-lhe negada a entrada”, acrescentava a nota, sendo que a Somália é um dos muitos países cujos cidadãos estão sujeitos à proibição de entrada nos EUA imposta pela administração de Donald Trump.
https://observador.pt/2026/06/11/mundial-2026-arbitro-somali-proibido-de-entrar-nos-eua-e-recebido-como-um-heroi-no-seu-pais/
Ainda assim, Ciise Aden Abshir, conselheiro sénior do Ministério da Juventude e Desporto da Somália, garantiu que Omar Artan tinha um visto válido para entrar no país. “Está entre os árbitros mais respeitados de África e negar-lhe a entrada nos Estados Unidos e impedi-lo de apitar não só o prejudica pessoalmente como também mina o compromisso do futebol com a justiça, o mérito e o espírito do fairplay. A comunidade futebolística deve apoiá-lo neste momento difícil”, lamentou.
A FIFA confirmou que Omar Artan não poderia arbitrar jogos no Mundial 2026, limitando-se a dizer que “não interfere nos procedimentos de imigração do país-anfitrião, incluindo a concessão de vistos”, e que foi informada pelas autoridades de que a situação não iria alterar-se. “De acordo com as competições anteriores da FIFA, o governo do país-anfitrião tem a palavra final sobre quem recebe um visto e é admitido no seu território”, acrescentou Gianni Infantino.
Já os EUA, através de uma fonte da administração Trump que falou com a comunicação social, referiram que Omar Artan não podia entrar no país devido a uma “associação com suspeitos de pertencerem a organizações terroristas”, já que foram encontradas “informações depreciativas” que o tornaram “inelegível para admissão nos EUA ao abrigo da Lei de Imigração e Nacionalidade”. “A administração do presidente Trump não permitirá que qualquer ameaça à segurança entre no nosso país. Ponto final”, concluiu.
Entretanto, numa clara tomada de posição, a UEFA já revelou que Omar Artan vai arbitrar a Supertaça Europeia entre o PSG e o Aston Villa e o árbitro de 34 anos foi recebido como um herói na Somália, com milhares de adeptos a recebê-lo num jogo em Mogadíscio, a capital do país, onde foi o convidado de honra.

O craque iraquiano que foi interrogado durante horas
Se a comitiva do Irão chegou sem grandes sobressaltos ao México, faltando ainda perceber o que acontece quando entrar nos EUA, o mesmo não aconteceu com o Iraque. Aymen Hussein, avançado do Al Karma que é a figura maior dos iraquianos, foi detido e interrogado durante sete horas na chegada ao Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago, com as autoridades a revistarem o jogador e o respetivo telemóvel.
A FIFA, os EUA e o próprio Iraque não se pronunciaram oficialmente sobre o caso, com a imprensa árabe a encabeçar a indignação face ao episódio, referindo que Aymen Hussein “foi tratado como se de um terrorista se tratasse”. Entretanto, um porta-voz iraquiano confirmou que a restante comitiva viajou para o hotel sem o jogador, que se juntou à concentração horas depois, enquanto que o fotógrafo da seleção — que também foi detido e interrogado durante horas a fio — não conseguiu ter o mesmo desfecho e acabou mesmo por ser deportado.
Cannavaro e companhia com direito a cães farejadores
À entrada para o Icahn Stadium, em Nova Iorque e antes de um jogo particular contra os Países Baixos, a seleção do Uzbequistão foi recebida com um controlo de segurança apertado que incluiu cães farejadores. Logo depois de saírem do autocarro, todos os jogadores foram parados e direcionados para uma área de controlo, onde foram verificados individualmente.
Cada membro da comitiva uzbeque, que vai defrontar Portugal na segunda jornada do Grupo K do Mundial 2026, passou por scanners de deteção de metais e foi revistado, enquanto que as bagagens da equipa foram separadas e submetidas a inspeções detalhadas. Para a história, através dos vídeos, fica o semblante completamente estupefacto de Fabio Cannavaro, selecionador do Uzbequistão que foi campeão do mundo com Itália em 2006.
O (proibido) equipamento do Haiti
O Haiti foi forçado a mudar de equipamento depois de a FIFA considerar que certos elementos continham um cunho político. A Saeta, empresa que fez o design do uniforme, já comunicou que irá fazer as alterações devidas.
As camisolas da seleção haitiana são azuis, brancas e vermelhas, com o escudo da equipa no centro. No entanto, a contestação da FIFA baseou-se na lateral direita da camisola, onde estão silhuetas inspiradas na Revolução Haitiana, referiu o The Guardian. O momento retratado no equipamento é a Batalha de Vertières, em 1803, na qual o líder revolucionário Jean-Jacques Dessalines rasgou a faixa branca de uma bandeira francesa, para criar uma nova bandeira. O momento é comemorado a 18 de maio como o Dia da Bandeira Haitiana.
https://observador.pt/2026/06/11/mundial-2026-haiti-e-forcado-pela-fifa-a-mudar-de-equipamento-por-razoes-politicas/
De acordo com o regulamento da FIFA, os equipamentos desportivos não podem ter mensagens nem slogans políticos, religiosos ou pessoais, afirmou a BBC. Numa publicação no Instagram, a Saeta, empresa que desenvolveu as camisolas, explicou que o design apresentado foi um “tributo aos homens e mulheres que contribuem todos os dias para o futuro do Haiti”, destacando que nunca houve o objetivo de fazer uma declaração política. “Apesar de a interpretação (da FIFA) diferir da nossa intenção, a Saeta respeitou o processo e implementou os pedidos finais requeridos”, destacou.
Os elementos rejeitados pela FIFA aparecem nas três camisolas do Haiti, já esgotadas no site oficial da Saeta. A loja online da FIFA oferece apenas dois artigos específicos da equipa: um boné e um cachecol. Durante os jogos de preparação contra Nova Zelândia e Peru, na semana passada, o Haiti usou o equipamento agora proibido, mas, no site da FIFA, a equipa é apresentada sem fotos, ao contrário dos outros países.
A boa notícia: uma greve desconvocada
Entretanto, uma boa notícia. A poucas horas do arranque do Mundial 2026, um sindicato que representa cerca de 2.000 trabalhadores do SoFi Stadium, Los Angeles, cancelou uma greve que poderia inviabilizar a realização dos jogos naquele que é o estádio mais caro do mundo.
De acordo com a CBS News, o sindicato Unite Here Local, que representa empregados de mesa, cozinheiros, empregados de bar e elementos da lavagem de loiça do estádio, anunciou ter alcançado “o acordo mais vantajoso de sempre” ao conseguir aumentos salariais e a proteção contra eventuais ações anti-imigração do ICE depois de 96% dos seus associados terem votado a favor de uma greve.
https://observador.pt/2026/06/11/trabalhadores-do-estadio-de-los-angeles-cancelam-greve-a-poucas-horas-do-arranque-do-mundial-2026/
“Em termos económicos, este é o acordo mais vantajoso alguma vez celebrado num estádio”, afirmou Kurt Petersen, co-presidente da secção local 11 do sindicato, a propósito das negociações com a operadora do estádio Legends Hospitality (subsidiária da empresa Legends Global), acrescentando: “Em resumo, saímos vencedores em todos os pontos importantes que levantámos”.
Por exemplo, os cozinheiros que trabalham no SoFi Stadium vão passar a auferir cerca de 40 dólares por hora de trabalho, colocando-os entre os mais bem pagos dos EUA para aquelas funções. Os trabalhadores garantiram também a reserva do direito a fazer greve caso sejam alvo de ações anti-imigração do ICE ou de outras forças do Departamento de Segurança Nacional no seu local de trabalho, bem como algumas medidas de proteção contra subcontratação e a contribuição da entidade patronal para a construção de habitações para os funcionários.
O SoFi Stadium vai receber na próxima sexta-feira a estreia dos EUA no Campeonato do Mundo, contra o Paraguai. Com capacidade para cerca de 70 mil pessoas, o SoFi Stadium foi inaugurado em 2020, custou cinco mil milhões de dólares (cerca de 4,3 mil milhões de euros, pelo câmbio atual) e recebe os jogos dos LA Rams e dos LA Chargers da NFL.