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Universidade Católica: quando a missão fica para depois

A Universidade Católica pode continuar a crescer e, ao mesmo tempo, tornar-se menos necessária; chamar-se Católica e, pouco a pouco, deixar de o ser no modo como ensina, investe e trata as pessoas.

P.e João Miguel da Silva Soares
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Há instituições que não precisam de renegar a sua identidade para a perder. Basta irem adiando-a. Um dia, adiam um curso. Noutro dia, adiam uma prioridade. Depois, adiam uma resposta, uma escuta, uma presença, uma decisão. E, quando se dá por isso, a missão continua escrita nos documentos, mas já não se sente na vida concreta.

A Universidade Católica Portuguesa tem um nome exigente. Não é uma universidade privada qualquer com uma designação simpática. Não é apenas uma marca académica bem posicionada no mercado do ensino superior. Chamar-se Católica significa assumir uma determinada visão da pessoa, da cultura, da educação, da verdade, da beleza e do serviço. Significa formar bons profissionais, sim, mas não só. Significa formar pessoas inteiras. Significa saber que uma universidade não existe apenas para vender cursos, captar alunos e entregar diplomas.

A pergunta incómoda é esta: a Universidade Católica quer continuar a ser uma universidade com missão ou aceita tornar-se um mercado de cursos com vocabulário humanista?

Não há problema nenhum em investir na Business School, na gestão, na economia ou em áreas que atraem mais alunos e mais prestígio. Nenhuma universidade vive de vento e piedosas intenções. É legítimo procurar sustentabilidade, reconhecimento, empregabilidade e qualidade. O problema começa quando os cursos mais rentáveis e mais vistosos passam a determinar a lógica interna da instituição, enquanto as áreas que mais se ligam à sua identidade ficam empurradas para a margem.

Uma universidade católica não se mede apenas pelas escolas que dão mais retorno. Mede-se também pelo modo como cuida daquilo que não é imediatamente lucrativo, mas é essencial: teologia, artes, humanidades, música sacra, conservação e restauro, património, pensamento crítico, cultura cristã. É aí que uma instituição católica devia mostrar a sua diferença. Se apenas repetir o que todas as outras repetem — inovação, mercado, impacto, internacionalização, empregabilidade — então talvez seja eficiente, mas dificilmente será necessária.

A Escola das Artes é, neste ponto, um caso simbólico. A Universidade Católica teve uma formação em Música Sacra. Não era um luxo académico. Era uma necessidade cultural, litúrgica e eclesial. Num país onde tantas comunidades cristãs vivem uma pobreza musical evidente, onde a liturgia tantas vezes oscila entre o improviso e o mau gosto, onde faltam organistas, directores de coro e formação séria, seria de esperar que uma universidade da Igreja defendesse esta área como prioridade. Em vez disso, a Música Sacra desapareceu da oferta visível e o centro da atenção deslocou-se para outros campos: Som e Imagem, Cinema, audiovisual, galerias, exposições, linguagens contemporâneas.

Repito: não há nada de errado com o Cinema. Não há nada de errado com Som e Imagem. Não há nada de errado com a criação contemporânea. Uma Escola das Artes não deve viver fechada numa sacristia estética, nem transformar a arte numa estampinha devocional. Mas uma escola de artes da Universidade Católica também não pode agir como se a sua identidade fosse irrelevante. A abertura ao contemporâneo não pode significar a perda de critérios. A modernidade não é uma absolvição automática. A provocação não é, por si só, profundidade. A visibilidade exterior não substitui uma verdadeira visão cultural.

Há opções estéticas e expositivas que, numa instituição católica, deviam ao menos suscitar perguntas. Não por moralismo barato. Não por medo da arte. Não por vontade de censura. Mas porque uma universidade com identidade deve perguntar que ideia de pessoa, de beleza, de corpo, de transcendência, de memória e de cultura está a promover. Nem tudo o que parece sofisticado é profundo. Nem tudo o que se apresenta como ousado é inteligente. Nem tudo o que circula bem nos ambientes culturais corresponde aos valores que uma Universidade Católica diz defender.

A questão não é exigir arte religiosa. A questão é exigir pensamento. A questão é perguntar se uma instituição católica pode limitar-se a importar linguagens, agendas e modas culturais sem um mínimo de discernimento. Uma universidade não é uma galeria qualquer. E uma Universidade Católica não deveria ter medo de perguntar se aquilo que mostra, ensina e promove está de acordo com a sua própria missão.

O mesmo se passa com Conservação e Restauro. O curso existe e continua a ser uma das áreas mais importantes que a Escola das Artes oferece. Mas existir não chega. Uma área destas exige investimento, meios, laboratórios, equipamentos, projectos, protocolos e contacto real com obra real. Não basta manter um curso no papel. É preciso dar-lhe músculo. É preciso ligá-lo à Igreja, aos museus, às dioceses, às paróquias, aos santuários e às instituições que possuem património.

Portugal está cheio de património religioso em risco: igrejas, retábulos, esculturas, pinturas, órgãos, paramentos, arquivos, livros litúrgicos, documentos gráficos, imaginária devocional. Há peças mal inventariadas, mal acondicionadas, mal estudadas e, por vezes, intervencionadas com boa vontade e pouca ciência. A Igreja tem este património. A Universidade Católica tem, ou deveria ter, a competência para formar quem o cuide. Então por que razão esta ponte é tão frágil?

Onde estão os protocolos consistentes com dioceses? Onde estão os estágios estruturados? Onde está uma estratégia nacional de diagnóstico, inventário, conservação preventiva e valorização do património religioso? Onde está a ligação entre a formação universitária e as necessidades concretas da Igreja? Onde está o apoio à inserção profissional dos alunos formados nestas áreas?

Aqui, a responsabilidade é dupla. A Igreja não aproveita suficientemente aquilo que tem ao seu alcance. Muitas dioceses e instituições eclesiais continuam a olhar para a conservação do património como um problema ocasional, resolvido quando há dinheiro, urgência ou escândalo. Falta visão. Falta planeamento. Falta perceber que cuidar do património não é vaidade cultural: é responsabilidade pastoral, histórica e espiritual.

Mas a Universidade também não pode lavar as mãos. Se forma alunos para cuidar desse património, tem de criar condições para que essa formação tenha consequência. Uma universidade não pode limitar-se a formar bons alunos e depois deixá-los abandonados à sorte do mercado. A missão universitária não termina na sala de aula; começa aí. Formar é também abrir caminhos, criar redes, estabelecer pontes, garantir oportunidades, acompanhar a transição para o mundo profissional.

Um mercado vende cursos. Uma universidade forma pessoas. Um mercado entrega diplomas. Uma universidade constrói futuro. Um mercado pergunta o que atrai mais alunos. Uma universidade pergunta que missão deve servir. Quando esta distinção se perde, a instituição pode continuar a funcionar muito bem administrativamente, mas começa a empobrecer por dentro.

E depois há a vida concreta dos alunos. Numa universidade privada, há uma ambiguidade que se tornou quase normal: os alunos são clientes quando pagam, mas deixam de o ser quando pedem voz. São estudantes quando devem aceitar decisões, mas tornam-se receita quando convém à gestão. Esta duplicidade já seria problemática em qualquer instituição. Numa universidade católica é ainda mais grave. Porque uma universidade católica deve tratar cada aluno como pessoa, não como número, nem como propina, nem como incómodo.

Não se trata de pedir facilidades. Pelo contrário. A Universidade Católica devia ser exigente. Devia ser muito exigente. Mas a exigência verdadeira não se confunde com desorganização, distância ou silêncio. Exigência não é deixar problemas por resolver. Exigência não é medir todos por baixo. Exigência não é ignorar contributos maduros porque dão trabalho. Exigência é critério, clareza, acompanhamento, justiça e seriedade.

Há alunos mais velhos, trabalhadores-estudantes, pessoas com experiência profissional, humana e cultural, que chegam à universidade não para comprar um diploma, mas para aprender. Não pedem privilégios. Pedem que a sua maturidade não seja tratada como ruído. Pedem que a sua percepção seja escutada. Pedem que a universidade reconheça que a experiência de vida também pode enriquecer uma sala de aula, uma oficina, um curso e uma escola. Ignorar isso é desperdiçar uma riqueza. É mais fácil uniformizar tudo e fingir que todos chegam iguais. Mas isso não é excelência. É comodismo.

A excelência não se faz apenas com rankings, campanhas, eventos, exposições ou escolas de prestígio. Faz-se na forma como se responde a um aluno. Na forma como se acompanha um curso. Na forma como se investe num laboratório. Na forma como se cria um estágio. Na forma como se escuta uma crítica. Na forma como se assume uma falha. Na forma como se evita que a casa por dentro fique mais pobre enquanto a montra por fora brilha.

Há, por vezes, a sensação de que certos projectos exteriores, certas agendas culturais, certas opções pessoais ou certos circuitos de prestígio recebem mais atenção do que a vida quotidiana dos cursos. A instituição aparece, circula, expõe, comunica, inaugura, anuncia. Mas uma universidade não se mede apenas pelo que inaugura. Mede-se pelo que acompanha. Não basta estar presente nos lugares certos. É preciso estar presente onde a missão se joga todos os dias: nas aulas, nas oficinas, nos corredores, nos problemas concretos, nas inquietações dos alunos, na vida real da escola.

A Universidade Católica não precisa de ser menos moderna para ser mais católica. Precisa de ser mais coerente. Precisa de perceber que a sua identidade não é um adorno antigo, nem uma palavra útil para cerimónias. É uma responsabilidade. Se abdicar dela, será apenas mais uma instituição privada a disputar alunos no mercado. Talvez com bons edifícios, bons cursos, bons contactos e boa reputação. Mas sem diferença verdadeira.

Uma Universidade Católica não pode ter vergonha da teologia, da música sacra, do património, das artes, da conservação, das humanidades, da beleza, da cultura cristã. Não pode tratar estas áreas como restos de uma identidade antiga enquanto investe apenas no que dá retorno imediato. Não pode falar da pessoa inteira e depois tratar os alunos como números. Não pode falar de missão e depois agir como mercado. Não pode falar de valores e depois não os viver internamente.

Talvez ainda vá a tempo. Mas isso exige menos discurso e mais verdade. Menos montra e mais casa. Menos mercado e mais universidade. Menos medo da identidade e mais coragem de a viver.

Porque o risco é este: a Universidade Católica pode continuar a crescer e, ao mesmo tempo, tornar-se menos necessária. Pode ganhar visibilidade e perder densidade. Pode modernizar-se e empobrecer. Pode chamar-se Católica e, pouco a pouco, deixar de o ser no modo como ensina, decide, investe e trata as pessoas.

No fim, o problema não é o nome. É a coerência. E uma Universidade Católica sem coerência talvez ainda seja universidade. Mas já não é a universidade que prometeu ser.