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(A) :: Ibéria for the boys 

Ibéria for the boys 

Seja em Moncloa ou no Rato, o padrão é o mesmo: para os socialistas ibéricos, os recursos públicos são propriedade privada das clientelas partidárias. 

Madalena Martins Pereira
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Entre tantas outras coisas, quer o PSOE quer o PS auto proclamam-se como fundadores da democracia dos seus respectivos países. Não só fundadores como também os sábios guardiões face às ameaças da extrema direita. Desde Zapatero a Sánchez, desde Sócrates a Costa, o socialismo pouco mais tem feito pela democracia se não manchá-la e corroê-la a partir de dentro.

Durante uma visita a Barcelona, José Luís Carneiro deixou escapar que via em Pedro Sánchez uma inspiração. Confesso que tal declaração me deixou surpresa e como tal não resisto a conjecturar sobre as razões que poderão estar por trás desta grande admiração.

Talvez Carneiro admire a extraordinária capacidade de Sánchez para transformar a política espanhola numa série interminável de episódios judiciais. Afinal, poucos líderes conseguem reunir à sua volta um elenco tão diversificado de protagonistas. Temos a investigação à sua esposa, Begoña Gómez, por alegados crimes relacionados com tráfico de influências e corrupção; o processo que envolve o seu irmão, David Sánchez, por alegadas irregularidades na sua contratação para um cargo público; os sucessivos escândalos que atingiram figuras próximas do PSOE; e ainda a notável habilidade para denunciar conspirações sempre que um juiz resolve mostrar excessiva curiosidade pelos assuntos da família socialista.

Talvez José Luís Carneiro se reveja também na arte de apresentar cada investigação como um atentado à democracia, cada crítica como uma ameaça ao Estado de Direito e cada problema político como uma manifestação particularmente inconveniente da extrema-direita. É um talento raro: transformar suspeitas em perseguições, escrutínio em vitimização e responsabilidade política em martírio institucional.

Mas desengane-se, caro leitor, se pensa que é preciso pisar território vizinho para nos depararmos com tamanha inépcia. Alguns líderes do Partido Socialista também presentearam os portugueses com casos caricatos.

José Sócrates, por exemplo, elevou a criatividade política a novos patamares. Ficou associado ao caso Freeport, ao caso Face Oculta, às dúvidas em torno da sua licenciatura e, sobretudo, à Operação Marquês, que continua a marcar indelevelmente o debate político português. Durante anos, os portugueses assistiram ao espectáculo singular de um antigo primeiro-ministro que alegadamente desconhecia a origem de avultados recursos financeiros que sustentavam um estilo de vida particularmente confortável. Um verdadeiro mistério económico digno de estudo académico.

António Costa, por sua vez, optou por uma abordagem mais subtil. O seu legado ficou marcado por uma sucessão quase industrial de demissões, polémicas e casos governativos. Da TAP aos sucessivos secretários de Estado e ministros forçados a sair, passando pelo episódio que culminou na Operação Influencer e na sua própria demissão, Costa conseguiu a proeza de transformar um governo de maioria absoluta numa máquina permanente de gestão de crises. Mesmo sem ter sido constituído arguido, o simples facto de o Ministério Público considerar necessário investigar suspeitas relacionadas com o seu círculo governativo bastou para encerrar prematuramente uma legislatura que prometia estabilidade.

Talvez seja esta a inspiração de que falava José Luís Carneiro: a extraordinária capacidade do socialismo ibérico para se apresentar simultaneamente como vítima, juiz e guardião da democracia, enquanto acumula escândalos suficientes para ocupar tribunais, manchetes e comissões parlamentares durante anos a fio.

Seja em Moncloa ou no Rato, o padrão é o mesmo: para os socialistas ibéricos, os recursos públicos são propriedade privada das clientelas partidárias.