Mulher adulta, ainda tinha esconderijos em casa. Escondia neles papéis, segredos, que podiam ser um maço de tabaco amachucado, um bloco de páginas azuis, um sabonete, um postal, a amostra de perfume que mantinha, secreta, na caixa de casquinha dentro do aparador, a pena verde que apanhara no chão, duas pedrinhas que trouxera da praia.
Ninguém sabia onde ficavam os esconderijos, apesar de a casa ser pequena. Era fundamental para ela preservar esses segredos, quando a sua vida era um livro aberto àqueles com quem vivia.
Era coisa que restara da infância. Dentro do vaso de uma planta, enterrara um anel. No fundo de uma gaveta, tinha dois garfos de prata de bebé.
Tratar a casa por tu passava por encontrar nela os mais perfeitos lugares para os seus segredos. Às vezes, os segredos eram modos de se tornar íntima do seu espaço, noutros momentos, coisas que subtraía ao convívio comum para de propósito se esquecer delas e reencontrá-las com alegria mais tarde.
De vez em quando, partilhava com o marido um dos seus objectos, todos sem importância, mas importantes para ela, dizendo-lhe, quase a adormecer, “queres que te conte um segredo?”, e dizia-lhe ao ouvido o que havia nesta e outra gaveta, nesta e naquela caixinha escondida, embrulhado num papel bonito ou num pano especial.
Quando penso na mulher que conheci uma vez, penso de onde lhe terá vindo a necessidade dessa intimidade com o seu espaço, a necessidade de encontrar um espaço íntimo no interior do espaço comum, considero a forma como as mulheres são quem melhor conhece as casas onde vivem, penso no modo como as habitam, as arrumam, mesmo quando não são muito dadas a limpezas.
Depois de começar a escrever, dei conta dos esconderijos a céu aberto que são os livros e os textos, nos quais, ainda que à vista de todos nos podemos encontrar a nu no lugar mais seguro. Nos livros assim como nas casas.
Vivi com mulheres cheias de mistérios, que escondiam amêndoas da Páscoa em lugares que só elas sabiam quais eram, dos quais as desencantavam, para alegria das crianças, em momentos inesperados. Mulheres que não se arranjavam muito, mas tinham um lugar secreto para as poucas jóias que tinham, que talvez experimentassem nuas, sozinhas em casa. Senhoras que escondiam dinheiro em caixas de cereais, ou guloseimas para os maridos debaixo da cama, no fim das festas de aniversário.
Não é que só as senhoras tenham segredos: a literatura e as páginas criminais estão cheias de cofres e portas falsas dentro de escritórios masculinos.
Mas apenas a mulheres conheci as profundezas do segredo na sua prática, que passa por transformar num tesouro a coisa mais sem importância, os pequenos nadas. Apenas a mulheres conheci o dom de transformar as casas em casas, lugares onde choramos, rimos, sonhamos, nos escondemos, nos encontramos.