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O Japão e a ironia de Pequim

O Japão não está a regressar ao passado, está a adaptar-se ao presente. O que mudou em Tóquio? A resposta conduz inevitavelmente a Pequim.

Miguel Salgueiro Meira
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A retórica aquece no Pacífico. Nos últimos dias, a China voltou a acusar o Japão de militarização.
O argumento é conhecido: Tóquio está a aumentar o orçamento da defesa, a rever a sua estratégia de segurança, a participar mais activamente em alianças regionais e a discutir alterações ao artigo 9.º da Constituição.
Para Pequim, tudo isto representa um afastamento do pacifismo que marcou o Japão do pós-guerra.

Mas há aqui uma ironia difícil de ignorar.
Aquilo que a China hoje denuncia não é a causa das tensões no Indo-Pacífico. É uma das suas consequências.
Durante décadas, o Japão foi uma excepção. Nenhuma outra grande potência económica aceitou durante tanto tempo limitações tão profundas às suas capacidades militares.
O artigo 9.º da Constituição tornou-se um símbolo do compromisso japonês com a paz e da rejeição do militarismo que marcou a primeira metade do século XX.

No entanto, existe uma diferença entre pacifismo e ingenuidade estratégica.
Durante anos, o Japão pôde manter uma postura militar limitada porque beneficiava da protecção dos Estados Unidos. A presença americana garantiu estabilidade regional e permitiu a Tóquio concentrar-se no crescimento económico e no fortalecimento das suas instituições democráticas.

Esse equilíbrio, porém, está hoje sob pressão.
A norte do arquipélago japonês encontra-se uma potência nuclear imprevisível.
A Coreia do Norte desenvolveu armas nucleares, aperfeiçoou mísseis balísticos de longo alcance e transformou a provocação militar numa ferramenta permanente da sua política externa.
Os japoneses habituaram-se a viver com notícias de lançamentos de mísseis que atravessam o espaço aéreo regional ou caem nas águas próximas do país.

Poucas democracias enfrentam uma realidade semelhante.
Ao mesmo tempo, a Coreia do Norte continua a beneficiar da protecção diplomática da única potência com verdadeira capacidade para influenciar o regime: a China.
Pequim apresenta-se frequentemente como um factor de estabilidade regional, mas continua a ser o principal aliado internacional de Pyongyang.

Paralelamente, a ascensão chinesa alterou profundamente o equilíbrio estratégico do Indo-Pacífico.
O problema nunca foi o crescimento económico da China. O problema foi o facto de esse crescimento passar a ser acompanhado por uma crescente projecção de poder militar e por uma postura cada vez mais incisiva nas disputas territoriais da região.
Taiwan tornou-se um foco permanente de tensão.
O Mar da China Meridional converteu-se num espaço de competição estratégica.
A actividade naval chinesa aumentou.
E os países vizinhos começaram a questionar se a ordem regional que garantiu décadas de estabilidade continuaria a existir nas mesmas condições.

Os acontecimentos dos últimos dias ilustram bem esta realidade.
Depois de Japão e Filipinas aprofundarem a cooperação em matéria de segurança marítima, Pequim respondeu com novas operações da guarda costeira chinesa a leste de Taiwan.
Ao mesmo tempo, o porta-aviões Liaoning e os seus grupos de escolta realizaram operações no Pacífico Ocidental, entre Taiwan e as Filipinas.
Não se trata de episódios isolados.
Sempre que países da região reforçam mecanismos de cooperação estratégica, a resposta chinesa tende a assumir a forma de patrulhas, exercícios militares ou demonstrações de força.

O resultado é paradoxal.
Aquilo que Pequim denuncia como uma política de contenção acaba muitas vezes por ser consequência das suas próprias acções.
Quanto maior a pressão sobre Taiwan, sobre o Mar da China Meridional ou sobre os países vizinhos, maior o incentivo para que esses Estados reforcem a cooperação entre si.

Foi neste contexto que os Estados Unidos aprofundaram a cooperação com os seus aliados regionais.
E foi também neste contexto que surgiram iniciativas como a QUAD, que reúne Japão, Estados Unidos, Índia e Austrália, ou a AUKUS, que junta Austrália, Reino Unido e Estados Unidos.
Estas alianças são frequentemente apresentadas como a origem dos problemas. Na realidade, surgem sobretudo como resposta a problemas já existentes.

O Japão percebeu isso mais cedo do que muitos observadores europeus.
E não foi o único.
Um dos sinais mais claros da transformação em curso é a aproximação entre Japão, Coreia do Sul e Filipinas.
Apesar das suas diferenças históricas e dos desafios específicos que enfrentam, estes países partilham hoje a percepção de que o ambiente estratégico da região se tornou mais instável.
O mesmo se aplica ao debate constitucional japonês.
Durante anos, qualquer discussão sobre a revisão do artigo 9.º era encarada com extrema cautela.
Hoje tornou-se uma questão central da política japonesa.
Não porque os japoneses desejem abandonar o seu compromisso com a paz, mas porque muitos consideram que as limitações herdadas do pós-guerra já não respondem às exigências de segurança do presente.
A pergunta que domina o debate em Tóquio não é como projectar poder.
É como garantir segurança.
E essas são questões muito diferentes.

Talvez seja precisamente essa distinção que a narrativa chinesa procure ocultar.
Ao concentrar a atenção no reforço das capacidades defensivas japonesas, Pequim evita discutir aquilo que motivou essa transformação. Evita discutir a pressão sobre Taiwan. Evita discutir a militarização crescente do espaço marítimo asiático. Evita discutir o papel da Coreia do Norte. E evita discutir porque razão tantos países da região passaram a procurar novas formas de cooperação estratégica.

Em suma, evita discutir as causas e concentra-se apenas nos efeitos. Mas os efeitos raramente surgem sem motivo.
Quando Japão e Filipinas aprofundam a cooperação marítima, a resposta surge sob a forma de patrulhas chinesas junto de Taiwan. Quando os aliados regionais reforçam a coordenação em matéria de segurança, multiplicam-se as demonstrações de força. E depois, as reacções desses países são apresentadas como sendo a origem do problema.

O Japão não está a regressar ao passado. Está a adaptar-se ao presente.
E se o país que durante décadas simbolizou a contenção estratégica concluiu que precisa de rever a sua política de segurança, talvez a questão não seja o que mudou em Tóquio.
Talvez a verdadeira questão seja outra: porque razão tantos países — do Japão às Filipinas, da Austrália à Índia, passando pela Coreia do Sul — chegaram simultaneamente à mesma conclusão?
A resposta, neste caso, conduz inevitavelmente a Pequim.