1.A viagem do Papa a Espanha tocou numa ferida, incentivou uma resposta e suscita uma cautela. Mas, antes de tudo, deve lançar um aviso sobre o espaço público: é possível que as democracias necessitem, estruturalmente, da religião para sobreviver. Não porque a religião defenda um código moral ou preste um serviço social, mas porque a democracia assenta numa promessa de redenção que, só por si, não consegue cultivar. Se o mundo moderno promete controlar o incontrolável, a religião, enquanto cultura da transcendência, possui, por um lado, uma disposição para modos de vida que não participam na lógica da aceleração e, por outro, uma capacidade de abordar a alteridade e a diferença preservando a disponibilidade para reconhecer o incognoscível. A ideia não é nova. Tocqueville já tratou o assunto de forma sumarenta, mas, mais recentemente, Hartmut Rosa sintetizou esta conclusão falando de “ressonância”. Por isso, os líderes e os membros do espaço público têm uma decisão a tomar: continuar a procurar relevância, aceitando as lógicas alienantes que sustentam a vida moderna; incentivar o ressentimento e a raiva diante dos excessos, procurando um tipo de controlo regressivo; ou responder ao momento com uma sensibilidade dialógica, encontrando novas vozes na conversa, novas complexidades e novos conceitos.
2.Nesse sentido, importa voltar à ferida, à resposta e à cautela. No discurso, no Parlamento espanhol, que esteve longe do tom próprio de um concurso de Miss Universo, Leão XIV referiu, a certo passo, “a questão de Salamanca”. Trata-se, de facto, de um dos capítulos quase não escritos da história do pensamento político, e a inclusão do tema no discurso papal parece-me pouco inocente. Efetivamente, algo afastada dos centros da Renascença europeia e da Reforma, a universidade espanhola de Salamanca foi palco, entre os séculos XVI e XVII, de uma renovação e reformulação do pensamento escolástico, a partir dos novos problemas suscitados pelo início da Idade Moderna, como a questão colonial e as tensões entre a jurisdição papal e os soberanos “civis”. Se não estou em erro, Leão XIV está a tentar diagnosticar uma ferida: a transição histórica que estamos a viver passa por transfigurações que tanto tensionam o próprio conceito e a própria prática do poder, como criam novas formas de colonialismo. A referência a Francisco de Vitória, um dos maiores representantes desta escola de pensamento, também não me parece inócua: por um lado, porque as suas ideias ajudam a examinar a moralidade do poder; por outro, porque o estudo das suas obras permite descomplexar o Ocidente de «dívidas» eternas perante a justiça e o bem universal.
De facto, no seu tratado sobre o poder civil, Vitória concluiu que o soberano está limitado pela lei natural, pela lei divina e pelos costumes, de tal modo que “um país não existe para o seu rei, mas o rei para o seu país”. Mas Francisco de Vitória vai mais longe. No seu entendimento do poder, defendia que, ainda que o soberano fosse, de algum modo, “senhor do mundo”, não teria o direito de se apropriar de territórios alheios, o que lhe permitia concluir que os povos indígenas eram verdadeiros donos das suas terras e tinham governantes legítimos antes da chegada dos espanhóis.
Nós, no entanto, presos ao imediatismo e à pressa, temos perdido a capacidade de ler os clássicos do pensamento e da literatura, e isso tem-nos custado não só profundidade intelectual, mas também profundidade estratégica. E há mais: esta falta de linguagem tem impossibilitado a perceção do que realmente está em jogo. A transição epocal que estamos a viver não tem que ver, no seu âmago, com os temas do entretenimento nacional ou internacional. A transformação histórica que estamos a atravessar — o Papa disse-o claramente no Parlamento espanhol — tem que ver com um problema antropológico de fundo, que nós já não temos pachorra para discutir.
3.A cobertura mediática da visita do Papa tem tido alguma dificuldade em descortinar a profundidade dos pronunciamentos de Leão XIV. Ainda se continuam a ver títulos anedóticos como “Papa celebra homilia”. Mas, ainda assim, com mais ou menos dificuldade, há uma resposta que sobressai, nem que seja a partir da imagem da Sagrada Família.
Em 2019, João Miguel Tavares proferiu um importante discurso no 10 de Junho, onde, a certo passo, dizia: “Deem-nos alguma coisa em que acreditar”. E embora os destinatários da afirmação fossem, em grande medida, a classe política, não estou certo de que o mesmo não possa ser dirigido à Igreja no seu todo. É certo que os crentes acreditam que “Deus existe” — só esta formulação exigiria um ano de artigos explicativos no Observador — e que a mensagem do Evangelho é verdadeira, mas não sei se, muitos, acreditam em “alguma coisa” de verdadeiramente substancial. Ou melhor: tenho dúvidas de que muita gente não olhe para a Igreja e não lhe diga: por detrás de fantochadas, falsas promessas e conversa de chacha, “deem-nos alguma coisa em que acreditar”. Ora, num tempo em que o cristianismo parece intelectualmente pouco estimulante, a referência à Sagrada Família, em Barcelona, é uma forma visível de tentar responder a esse abismo e a essa inquietação.
Na filosofia antiga, a beleza era um dos conceitos universais, juntamente com a verdade, a bondade e a unidade. Mas, sob influência de certa modernidade, a verdade ficou isolada e começámos a suspeitar dos restantes termos. A Sagrada Família é uma alternativa — ou, se quisermos, uma «correção» da modernidade dentro da própria modernidade — que pretende levar-nos para fora de nós. Se, como escreveu Hans Urs von Balthasar, um dos mais fundamentais teólogos do século XX, “o amor sem limites de Deus é tão pobre como sem poder”, o templo catalão é uma derradeira possibilidade de um tipo de mistério, tão impotente como esmagador, reorientar o horizonte histórico. Balthasar, na sua obra-prima teológica, intitulada Glória, postulou que nós, seres humanos, somos “seres-já-sempre-saídos de si mesmos” e “seres-presentes-diante de um outro”, tal como não somos “palavra original”, mas “palavra resposta”, “ditado” e não “orador”. E é precisamente por nos mostrar isso mesmo que a Sagrada Família é relevante hoje.
4.Mas há uma cautela a formular. Tem-se confundido o sucesso da viagem papal com as multidões registadas nos eventos públicos com a presença de Leão XIV. É preciso ter cuidado. Embora se fale de um “regresso ao religioso” e até à “religião institucional”, ainda não sabemos o que isso significa. É um erro pensar que está tudo bem, como é um erro ler apressadamente estes dados. Neste momento, ainda não sabemos o que significam, exatamente, “regresso” e “religião”. Há até quem comece a alertar para um “drama do desumanismo religioso”, e o recente artigo da New Yorker sobre a manosfera e Andrew Tate pode dar algumas pistas nesse sentido. Fica, no entanto, o alerta: ainda é tudo muito difuso. É preciso ter calma.