Há um telescópio que olha para o princípio do tempo e há algoritmos que prometem dizer-nos quem somos. Nunca dispusemos de tantos instrumentos para explicar a existência, e raramente nos sentimos tão estranhos dentro dela. Talvez porque confundimos explicar com compreender, e compreender com viver.
A compulsão de significar
O ser humano não suporta o silêncio do sentido. Diante de um fenómeno, a primeira reação não é contemplá-lo, é nomeá-lo, medi-lo, encaixá-lo numa teoria que o torne nosso. Significamos tudo: a origem do universo, a forma do espaço, a expansão que talvez não seja expansão, a consciência, a emoção, a morte e aquilo que possa, ou não, vir depois dela. Significamos compulsivamente, como se a posse do sentido nos protegesse da vertigem de existir sem garantias.
Esta pulsão tem uma raiz antiga e uma ambição imensa: quisemos sempre ser omniscientes, omnipresentes, omnipotentes. Quisemos ser Omni tudo. E é precisamente aí, no excesso da ambição, que se prepara a queda para o quase nada.
Os deuses que nunca fomos
Durante milénios, projetámos essa ambição nos mitos e nas religiões. Inventámos divindades que sabiam tudo, estavam em todo o lado e podiam tudo, porque não tolerávamos ser o que somos: finitos, situados, frágeis. Os deuses foram a primeira tentativa de fugir à nossa dimensão real.
Depois veio a ciência, e com ela uma nova prepotência. Trocámos o altar pelo modelo matemático. Construímos equações para descrever a criação, leis da física para domesticar fenómenos que nos escapam, edifícios teóricos na psicologia, na sociologia, na filosofia, todos a conferir cientificidade a aquilo que, no fundo, continuamos sem compreender. A linguagem mudou; a ambição permaneceu intacta.
O mapa que tomámos pelo território
Convém lembrar uma evidência incómoda: nenhuma das imagens que produzimos do real é o real. A representação do Big Bang, o diagrama do espaço-tempo curvo, a fórmula que descreve a expansão do universo, são mapas, não territórios. São próteses cognitivas que nos permitem operar, não janelas para a verdade última das coisas.
E há uma dificuldade ainda mais funda: nem sequer sabemos com segurança o que é real. Tentamos compreender o universo sem conhecer a sua forma. Tentamos explicar o cérebro com o próprio cérebro. Tentamos definir a consciência usando a consciência como instrumento de medida. O observador é parte daquilo que observa, e essa circularidade impõe um limite que nenhum supercomputador anula. As nossas limitações não são apenas técnicas, são cognitivas e fisiológicas. Há um teto na perceção humana, e nenhuma quantidade de dados o levanta.
O presente que deixamos passar
O custo desta obsessão não é abstrato. Enquanto exigimos uma explicação total para tudo o que existe, deixamos escapar aquilo que de facto possuímos: o presente. A palavra é feliz na sua dupla aceção. O presente é o instante e o presente é a dádiva. Vivê-lo é a única forma de presença plena que nos está realmente ao alcance.
Quem quer ser Omni tudo acaba a não estar em lado nenhum. Disperso no esforço de abarcar a totalidade, perde a única coisa concreta: o momento, a relação, o gesto, a experiência direta de estar vivo. Na ânsia de tudo compreender, compreendemos quase nada. Na vontade de tudo abarcar, tornamo-nos um Omni nada.
A lucidez de uma dimensão justa
A saída não é o abandono da ciência nem o regresso à superstição. É uma correção de escala. É abandonar o egocentrismo com que olhamos para fora e para dentro de nós, como se o universo nos devesse uma explicação à medida da nossa vaidade. É aceitar a nossa verdadeira dimensão dentro do real, sem a humilhação de quem se diminui, mas também sem a arrogância de quem se imagina centro.
Talvez a maturidade, individual e civilizacional, comece quando deixamos de querer ser Omni tudo. Quando trocamos a posse do sentido pela presença naquilo que somos. Porque é exatamente nesse momento, ao renunciar à omnipotência impossível, que deixamos de ser um Omni nada e passamos, finalmente, a ser alguma coisa: o “nós” vivendo o presente que é o tudo do real que devemos alcançar.