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A “EmergênTITE” pode matar

Precisar de cuidados de saúde não significa necessariamente precisar de socorro urgente. Esta distinção, que deveria ser elementar, parece estar cada vez mais diluída na perceção coletiva.

Cláudio Costa
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Quando tudo é uma “emergência”, a verdadeira emergência deixa de o ser. Ambulâncias enviadas para situações sem gravidade, urgências hospitalares transformadas em centros de saúde e recursos cada vez mais escassos criam um problema que raramente é discutido com frontalidade: o abuso do sistema de emergência pode custar vidas.

A doença que não existe… mas está a contaminar o País

Existe uma nova doença a espalhar-se pelo país. Não consta dos manuais de Medicina, não tem código internacional de diagnóstico e dificilmente será objeto de investigação científica. Ainda assim, afeta milhares de pessoas todos os dias e produz consequências reais no funcionamento do sistema de saúde. Chamo-lhe “EmergênTITE”.

A “EmergênTITE” manifesta-se através da convicção de que qualquer problema de saúde deve ser tratado como uma emergência. Uma febre ligeira, uma dor lombar com vários dias de evolução, uma indisposição gastrointestinal, uma receita médica terminada ou uma simples preocupação transformam-se rapidamente em motivos para recorrer a um serviço de urgência ou até para acionar meios de emergência pré-hospitalar.

O fenómeno não surgiu do nada. Foi crescendo ao longo de anos, alimentado pela dificuldade de acesso aos cuidados de saúde primários, pela crescente iliteracia em saúde e também por um sistema que, demasiadas vezes, optou pela solução mais fácil: encaminhar para a urgência aquilo que deveria ter sido resolvido noutro nível de cuidados.

Quando a ambulância deixa de estar disponível

A maioria dos cidadãos olha para uma ambulância e vê um veículo. Quem trabalha em socorro pré-hospitalar vê algo diferente: vê um recurso escasso, composto por profissionais altamente qualificados, equipamento especializado e tempo limitado.

Ao contrário da perceção de muitos, as ambulâncias não existem em número ilimitado. Cada vez que uma equipa é mobilizada para uma situação sem gravidade, deixa de poder responder a outra ocorrência. Esta realidade, tão simples quanto desconfortável, raramente entra no debate público.

Quando uma ambulância é enviada para transportar um doente sem qualquer critério de urgência ou emergência, ninguém vê aquilo que deixou de acontecer. Ninguém vê o “enfarte” que aguarda mais alguns minutos por assistência, o “AVC” que perde uma janela terapêutica preciosa ou a vítima de trauma grave que espera por recursos que se encontram ocupados noutro local.

A tragédia da má utilização dos meios de emergência reside precisamente nisso: os seus efeitos são invisíveis. Não surgem na ocorrência inadequada que mobilizou a ambulância. Surgem na emergência verdadeira que surge, entretanto.

O hospital não é um centro de saúde gigante

Durante anos, foi sendo construída uma ideia errada de que o hospital representa a resposta universal para todos os problemas relacionados com a saúde. Na ausência de médico de família, vai-se ao hospital. Quando não existe consulta disponível, vai-se ao hospital. Quando surge uma dúvida clínica, vai-se ao hospital.

Esta visão transformou progressivamente os serviços de urgência em estruturas híbridas, obrigadas a responder simultaneamente a situações de risco de vida e a problemas que deveriam ser resolvidos nos cuidados de saúde primários.

O resultado é conhecido de todos: salas de espera sobrelotadas, profissionais exaustos, tempos de espera crescentes e uma permanente sensação de insuficiência de recursos.

Contudo, talvez seja importante reconhecer uma verdade incómoda: nenhum sistema de saúde do mundo consegue responder adequadamente quando os seus recursos especializados são utilizados para funções para as quais nunca foram concebidos.

Histórias que parecem saídas de ficção científica

Quem trabalha em socorro pré-hospitalar acumula histórias que poderiam ser cómicas se não tivessem consequências tão sérias.

Todos os dias são mobilizados recursos de emergência para situações que nada têm de emergente e que, muitas vezes, nem sequer justificariam observação hospitalar.

Recentemente, uma senhora foi observada no centro de saúde no dia anterior, ficando com o diagnóstico de amigdalite, medicação prescrita e orientação clínica adequada. No entanto, não levantou a receita nem iniciou qualquer tratamento. Na manhã seguinte acionou o 112 porque entendia que seria preferível ser observada por um otorrinolaringologista num hospital localizado a dezenas de quilómetros da sua residência. A senhora referiu em chamada que tinha uma dor no peito, e uma ambulância acabou por ser mobilizada para esta situação que, na prática, correspondia a uma segunda opinião procurada por conveniência.

Noutra ocorrência, foram mobilizados meios de emergência e forças policiais para uma escola, motivado por comportamento agressivo de uma criança de oito anos. Após avaliação, não existia qualquer problema médico agudo. Existia, isso sim, um problema disciplinar e educativo que dificilmente seria resolvido por uma ambulância ou por uma ida ao serviço de urgência.

Isto a juntar a inúmeras ambulâncias que são acionadas para pessoas que apenas estão a dormir na via pública, pessoas etilizadas, situações clínicas com várias semanas de evolução, pessoas que apenas querem aconselhamento clinico ou terapêutico…

Estes exemplos não são exceções. Representam uma realidade diária que consome recursos, desgasta profissionais e ocupa meios que podem fazer falta, minutos depois, a uma verdadeira emergência.

A questão que importa colocar é simples: quando a ambulância é utilizada para resolver problemas de conveniência, quem fica sem resposta quando surge uma situação de risco de vida?

O país onde tudo parece justificar uma ambulância

Portugal construiu, ao longo de décadas, uma relação peculiar com os serviços de emergência. Em vez de serem encarados como recursos excecionais, destinados a situações graves e potencialmente fatais, passaram gradualmente a ser vistos como uma porta de acesso privilegiada ao sistema de saúde.

Esta cultura não afeta apenas os portugueses. Afeta todos aqueles que vivem entre nós.

Muitas pessoas chegam de países onde os recursos de emergência são escassos, onde o acesso a ambulâncias é extremamente limitado e onde recorrer a um hospital sem motivo sério seria impensável. No entanto, poucos meses depois de viverem em Portugal, adotam exatamente os mesmos comportamentos que observam à sua volta.

E isso deveria fazer-nos refletir.

Se alguém chega de uma realidade onde os recursos são utilizados com parcimónia e rapidamente aprende que em Portugal se chama uma ambulância por uma dor de garganta, uma indisposição ligeira ou uma situação que poderia ser resolvida no centro de saúde, talvez o problema não esteja nas pessoas. Talvez esteja na cultura que fomos criando.

O sistema habituou os cidadãos à ideia de que a urgência é a resposta para tudo e de que a ambulância representa uma forma rápida de ultrapassar dificuldades de acesso aos cuidados de saúde.

Com o tempo, esta mentalidade tornou-se contagiosa:

– Quem chega aprende.

– Quem observa repete.

– Quem utiliza sem necessidade dificilmente percebe o impacto das suas escolhas.

Mas esse impacto existe. E mede-se nas ambulâncias indisponíveis, nos profissionais sobrecarregados e nos doentes graves que aguardam por recursos que deveriam estar livres para eles.

A “EmergênTITE” não distingue nacionalidades, profissões ou classes sociais. É uma doença cultural. E, como todas as doenças culturais, combate-se sobretudo com educação, responsabilidade e bom senso.

A responsabilidade não é apenas dos cidadãos

Seria fácil atribuir a culpa exclusivamente à população. Seria também injusto.

Os cidadãos recorrem aos serviços que encontram disponíveis. Quando os cuidados de saúde primários falham, quando as consultas são insuficientes ou quando a resposta comunitária é incapaz de resolver problemas simples, as pessoas procuram alternativas. E encontram-nas nas urgências hospitalares e nos sistemas de emergência médica.

Por isso, a discussão não pode limitar-se à crítica dos utilizadores. É necessário reforçar os cuidados de proximidade, melhorar o acesso aos centros de saúde e investir seriamente na literacia em saúde da população.

Mas também é necessário ter a coragem de dizer algo que parece ter-se tornado politicamente incorreto: nem todos os problemas de saúde justificam uma ambulância e nem todos os problemas de saúde devem ser observados num serviço de urgência.

A diferença entre precisar de cuidados e precisar de socorro

Precisar de cuidados de saúde não significa necessariamente precisar de socorro urgente. Esta distinção, que deveria ser elementar, parece estar cada vez mais diluída na perceção coletiva.

Uma pessoa pode necessitar legitimamente de observação médica, tratamento ou acompanhamento sem que exista qualquer risco imediato para a sua vida ou para a sua integridade física. Nesses casos, a resposta adequada dificilmente será uma ambulância ou um serviço de urgência hospitalar.

O problema surge quando esta diferença desaparece e tudo passa a ser encarado sob a mesma lente da emergência. Nessa altura, os recursos deixam de ser distribuídos segundo a gravidade clínica e passam a ser consumidos segundo a capacidade de cada um aceder ao sistema.

E isso não é apenas ineficiente. É perigoso.

A “EmergênTITE” é um risco para o País

A “EmergênTITE” não mata diretamente. Não provoca hemorragias, não causa paragens cardiorrespiratórias nem desencadeia AVC.

Mas pode matar de forma indireta:

– Pode matar quando uma ambulância necessária não está disponível.

– Pode matar quando um recurso diferenciado chega tarde demais.

– Pode matar quando a banalização da emergência impede a identificação rápida das situações verdadeiramente críticas.

Num sistema onde os recursos são inevitavelmente limitados, cada utilização inadequada tem consequências. Talvez não para quem solicitou a ajuda. Talvez nem sequer para quem a prestou. Mas certamente para alguém que, naquele mesmo momento, precisava desesperadamente dela.

E é precisamente por isso que este flagelo deve preocupar-nos a todos.

Amanhã podes ser tu a precisar de uma ambulância que está indisponível numa “EmergenTITE”