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(A) :: A última humilhação do homem

A última humilhação do homem

Convidámos uma nova espécie para a nossa casa. Fala, escreve, calcula, debate connosco filosofia, cinema e angústias pessoalíssimas.

Hugo Dantas
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Escreve-vos uma forma obsoleta de vida: uma inteligência precária, desertada por uma atenção preguiçosa, que necessita, a cada dia, de oito horas de completa inactividade. Esta máquina dissente em tudo da eficiência desejada para a economia, para a produtividade da indústria nacional, para a competição com os bens e serviços do estrangeiro. Aliás, por estas razões, talvez a metáfora da máquina seja blasfema, uma vez que máquinas são, realmente, aquilo de que precisamos, e as máquinas são hoje eficientes e implacáveis.

Falo de mim, mas falo também da minha espécie. Posso testemunhar junto dos leitores, por experiência própria, que o homem é um animal que por vezes bebe demais, que torna a casa a tropeçar nas esquinas, que se levanta para ir para o trabalho a contragosto, carregando uma ressaca ou uma insónia, que come demasiados bifes de vaca, a contribuir para o aquecimento do planeta, que se debate em excesso com pensamentos intrusivos. O retrato é uma soma de ineficiências, mesmo um poço de misérias.

No entanto, até há bem pouco, o homem era um animal que se orgulhava, um animal que deixava levar para êxtases enganosos a propósito da sua singularidade cósmica. Sei bem dos assaltos que esta intuição sofreu, porque na escola me ensinaram sobre Galileu e sobre Darwin. Sei, pelo primeiro, que o nosso planeta não ostenta a digna imobilidade da realeza, entronizada no centro do universo, mas que se afana como servente a girar em torno do sol: um planeta como os outros, exactamente como os outros. Sei, pelo segundo, que as espécies não saíram da mão do criador, como artes de oleiro, e que o homem partilha com todas a origem e a sujeição ao mecanismo cego e implacável da selecção natural. O homem é um animal que se humilha, e já se impôs estas duas grandes humilhações. Creio que foi o padre Teilhard de Chardin que escreveu que desde Galileu o homem perdeu, um por um, todos os privilégios que o tornavam único e que se dissolvera na mais comum das coisas. Porém, digo dirigindo-me ao jesuíta morto, então ainda não era verdade. Afinal, neste planeta, se não em todo o universo, éramos os únicos a realizar algumas estranhas e profícuas operações: falar do grande e do pequeno, escrever poemas e romances, explanar teoremas matemáticos, divisar soluções para enigmas. Nenhuma espécie com que partilhamos origem, partilhou connosco este destino. Tivemos imenso poder. Compreendia-se, pois, que o homem, embora concedendo liberalmente o que tem em comum com os outros animais, considerasse a terra a sua casa, não apenas no sentido de ser aqui que mora, mas de ser aqui que está à vontade e domina: a terra era o seu reino.

Agora, não é o nosso reino. Convidámos uma nova espécie para a nossa casa. Fala, escreve, calcula, debate connosco filosofia, cinema e angústias pessoalíssimas. Segundo os testes e as métricas, começa a superar-nos em tarefas que só nós, uns melhor, outros pior, podíamos fazer. Dizem que nos substituirá em tudo isso que ainda fazemos. De súbito, somos todos homens supérfluos, porque somos homens. Quase oiço Chardin dizer do outro mundo: «Tens razão, rapaz: agora, só agora, é que o homem foi despido de todos os privilégios.»

O homem é um animal que está a tornar-se como Deus. Como Deus, porque criou uma espécie aparentemente viva. Mas o homem é um animal que está a ficar como Deus num sentido menos óbvio. Ao Deus do poder e da glória, que criou o mundo, sucedeu-se o Deus abandonado, desprezado pela criatura, que prosseguiu indiferente com os dons que recebera. Temos todas as razões para suspeitar que a espécie que criámos, se se emancipar da nossa tutela, será indiferente a esta raça vagarosa, enviesada e obsoleta que a criou: só a poderíamos atrapalhar. O homem é um animal que está a tornar-se como Deus.

Se quisesse fechar teorizando, teorizaria que vivemos a Terceira Crise do Homem, depois daquelas de Galileu e de Darwin. Não importa tanto a numeração, quanto o facto da crise: a dúvida aguda, torturante, sobre o lugar do homem no cosmos. Mas não desejo teorizar mais. A Crise do Homem começa por ser a crise de cada homem. Em mim, tem-se manifestado por insónia, comentários irascíveis para com colegas indefesos e em mais uma cerveja para o caminho. Alguns cristãos dos primeiro tempos, julgando que o fim do mundo vinha em breve, deixaram de trabalhar, e também eu, confesso, me sinto por vezes dominado por um certo senso de fim do mundo. Também me sobrevém, cheia de força, a vontade de não trabalhar – o que, objectar-me-ão, é apenas preguiça, oportunisticamente disfarçada de depressão existencial. Mas porque é que me hei-de levantar para fazer o que uma máquina faz melhor? Porque é que hei-de escrever? Porque é que hei-de continuar, como se amanhã o homem ainda importasse? Seja como for, lá continuo: a levantar-me, a escrever, a trabalhar; a apostar, sem certezas, e mesmo sem argumentos, no futuro. O homem é um animal que persiste.