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(A) :: "Se achava que íamos conseguir ver clarões de impacto na Lua? Não, fiquei em choque". Kelsey Young, a responsável científica da Artemis II

"Se achava que íamos conseguir ver clarões de impacto na Lua? Não, fiquei em choque". Kelsey Young, a responsável científica da Artemis II

Kelsey Young coordenou a ciência da primeira missão lunar tripulada em 50 anos. Em entrevista ao Observador, recorda o choque dos clarões, o apagão de 40 minutos e o "Moon joy" que ficará para sempre.

Martim Andrade
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Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen foram os primeiros seres humanos a ver o que nunca antes se tinha visto a olho nu: o lado oculto da Lua. A missão Artemis II marcou o regresso da humanidade à Lua após uma pausa de mais de 50 anos e os quatro astronautas puderam ver fenómenos nunca antes vistos, num fly-by lunar sem precedentes que os deixou 40 minutos sem quaisquer comunicações com a equipa em Terra.

Esse momento foi a exceção. Enquanto passavam onde nunca alguém tinha ido até abril, os astronautas identificavam os diferentes pontos de interesse na superfície da Lua anteriormente definidos pela equipa científica da agência espacial norte-americana. A muitos milhares de quilómetros, ditavam os nomes de cada cratera e mare (planície) lunar encontrados pelo caminho aos responsáveis pela coordenação da missão no Johnson Space Center. Quem os ouviu, guiou e assegurou que iam na direção certa foi Kelsey Young, a responsável científica pela missão e por definir o rumo de todo o programa neste setor.

Pouco mais de dois meses depois, a geóloga norte-americana recorda ao Observador a experiência “muito dura, mas imensamente gratificante” da Artemis II. Dos vários momentos que se tornaram virais nas redes sociais, um teve Kelsey como protagonista. Foi quando o comandante Reid Wiseman relatou ter visto as luzes resultantes do impacto de vários pequenos asteroides na superfície lunar que a responsável científica da missão “se desmanchou”. Apesar de os ter estudado muitos anos antes de ser destacada para este papel, admite ao Observador que não estava à espera desta revelação que lhe suscitou uma reação “muito humana” em plena transmissão da NASA.

E apesar de o foco agora estar na próxima missão do programa, a Artemis III — cujos astronautas foram revelados esta terça-feira —, Kelsey Young admite que o trabalho relacionado com a missão que regressou à Terra no início de abril ainda está longe de terminar. “São mais de 10 mil imagens” que a equipa científica da NASA tem para analisar, que ainda não foram divulgadas ao público e que, até ao mês de outubro, serão compiladas num relatório e instaladas num grande arquivo que será de acesso totalmente livre, com horas e horas de ficheiros de áudio de descrições da tripulação sobre os diferentes fenómenos observados quando se tornaram os humanos que mais se afastaram do nosso planeta.

https://www.youtube.com/watch?v=pCX55m4kfg8

“Temos mais de 10 mil imagens para triagem agora. É a nossa área de investigação mais ativa: procurar corroboração visual para esses clarões”

A transmissão da NASA de cobertura da missão durou mais de 240 horas, mas entre a descolagem e a aterragem dez dias depois, um dos momentos mais marcantes foi a sua reação perante o relato do comandante Reid Wiseman ao ter visto “flashes” de impacto na superfície lunar quando estavam a contorná-la. O que motivou este entusiasmo?
Sempre me disseram que tenho um rosto muito expressivo, o que viram na emissão foi choque puro. Tínhamos dez objetivos científicos lunares para a missão, divididos em três níveis de prioridade, com base na relevância que tinham para a comunidade científica internacional, mas também no que a missão poderia alcançar com o seu perfil único de ter quatro pessoas a esta distância da Lua. Tínhamos dois objetivos no nível de prioridade máxima, e um deles era os clarões de impacto [rápidas emissões de luz quando um meteorito ou um pequeno asteroide colide com a superfície lunar]. Sabíamos que a tripulação tinha hipótese de os ver, pois astronautas da Apollo já os tinham relatado, mas se me perguntar se eu achava que os íamos conseguir ver? Não. Pensei que veríamos zero. Quando o Reid [Wiseman] confirmou que tinha visto, fiquei obviamente em choque. E não viram só um, viram vários.

E conseguiram captar esses momentos?
Estamos a analisar os dados, especialmente os das câmaras do veículo. Temos mais de 10 mil imagens para triagem agora. É a nossa área de investigação mais ativa: procurar corroboração visual para esses clarões. A líder científica desta área está a analisar todo o áudio, não apenas o que o público ouviu, mas as descrições que a tripulação gravou nos seus tablets. Sabemos, pelas comparações de áudio, que vários membros da tripulação viram o mesmo clarão ao mesmo tempo, o que ajuda a confirmar a observação.

O período de análise dos dados está previsto durar cerca de seis meses. Já se tendo passado dois, em que fase do processo estão neste momento?
A NASA tem o compromisso de tornar públicos todos os dados científicos até seis meses após a missão. No nosso caso, isso inclui o arquivo de dados, um guia para utilizadores e dois relatórios: um de operações e o relatório científico pós-missão. O guia vai ser crítico para garantir que qualquer cientista ou pessoa interessada no mundo pode ter acesso aos dados e perceber o que lá está, como encontrá-los e como trabalhá-los. O relatório científico terá uma secção dedicada e pormenorizada para cada um dos dez objetivos. Esperamos ter tudo disponível até meados de outubro, mas com o objetivo de ver as coisas incríveis que o resto da comunidade consegue fazer com os dados que fomos recolhendo.

Há algum aspeto em particular que esteja mais entusiasmada por partilhar com a comunidade?
Definitivamente os clarões de impacto. Temos recebido muitas perguntas sobre se temos fotos e onde ocorreram exatamente. Por isso estamos a tentar não esperar até outubro para essa investigação específica. Além disso, os ficheiros de áudio têm dados fascinantes. Ao longo do sobrevoo, em todos os momentos, dois membros da tripulação estavam a gravar ficheiros de áudio. Há dezenas de ficheiros de áudio com vários minutos de duração que são dados científicos puros, bem como alguns momentos humanos muito felizes e entusiasmantes, porque também são pessoas e estão a experienciar esta coisa incrível. Acho que isso vai trazer muita alegria às pessoas quando os publicarmos. Tem sido ótimo ouvir aquilo, pela ciência, mas também pelo lado humano.

Como é que definiram a lista de dez objetivos científicos?
A nossa “estrela-guia” foram os documentos orientados pela própria comunidade. O Science Mission Directorate [a divisão de ciência da NASA ou SMD], por exemplo, publica a cada década os Decadal Surveys [ou planos decadais], que reúnem as questões em aberto com maior prioridade em cada uma das cinco divisões do SMD. Esse esforço dos inquéritos mobiliza toda a comunidade científica. Para qualquer missão em que o SMD participe, esses são a “estrela-guia”. Esse foi o ponto número um. Também temos os objetivos Moon to Mars, que a NASA assume enquanto agência. E tínhamos uma série de outros documentos mais específicos sobre a Lua, elaborados pela comunidade científica internacional. Por isso, tentámos realmente manter-nos fiéis a essas prioridades. Por exemplo, um dos objetivos lunares de maior prioridade — na verdade, um dos maiores objetivos planetários para o SMD — é recolher uma amostra da Bacia Aitken, no Polo Sul da Lua, trazê-la de volta para os laboratórios e descobrir a sua idade. Mas não pudemos fazer isso nesta missão, porque não alunámos — e assim não conseguimos trazer amostras de volta. Pegámos nos objetivos de alta prioridade e pensámos: “Muito bem, temos quatro pessoas. Elas dispõem destas câmaras, com estas lentes. Vão estar a esta distância da Lua e a mover-se a esta velocidade. Por conseguinte, de que forma podemos desenvolver os nossos objetivos para honrar aquela ‘estrela-guia’ e, ao mesmo tempo, maximizar o tempo da tripulação nesta missão tão única?”.

E houve alguma coisa inesperada que a tripulação observou, que não estava prevista nos vossos planos — para além dos impactos na Lua — ou que deveriam ter visto e não conseguiram?
É uma ótima pergunta. Os dez objetivos que escolhemos eram independentes da data de lançamento. Ou seja, sabíamos que podíamos descolar a qualquer momento e, por isso, a face da Lua que iríamos encontrar quando lá chegássemos poderia estar sob qualquer condição de iluminação, uma vez que não sabíamos quais seriam os 180 graus da Lua que estariam iluminados. A partir dos objetivos escolhidos, criámos o “Almanaque”, que continha todos os alvos do nosso interesse para os 360 graus da Lua. Assim que a nave descolou, construímos o plano de alvos lunares e a primeira coisa que fizemos foi deitar fora metade do “Almanaque” — a metade que estaria às escuras quando a tripulação lá chegasse. Depois olhámos para a restante, que continuava a ter alvos a mais. Aí estruturámos o plano de alvos de forma a obter a melhor distribuição possível ao longo do terminador lunar [linha que divide o lado iluminado do escuro da Lua], tentando maximizar o retorno científico. Devido à metade da Lua que nos calhou, não conseguimos observar muitas estruturas tectónicas nem conseguimos ver a maior parte da região do Polo Sul. Em contrapartida, tivemos o eclipse. Eu diria que esse foi provavelmente o maior elemento inesperado, embora já soubéssemos que vinha a caminho. Permitiu-nos olhar não apenas para a ciência planetária — já que observámos fenómenos como a suspensão de poeira da superfície lunar —, mas também para processos interplanetários, como a luz zodiacal, que é a poeira que flutua constantemente pelo sistema solar. E, claro, permitiu-nos fazer heliofísica, uma vez que conseguimos observar a estrutura da coroa solar.

Quando se confirmou que o lançamento seria no dia 1 de abril e a missão ia coincidir com o eclipse, como é que foi a reação da equipa científica?
Quando começámos a ver que as oportunidades de eclipse surgiam em abril — porque não eram todos os dias da janela de abril que tinham direito a eclipse —, começámos a mergulhar a fundo na essência dos objetivos de heliofísica e também nas alterações ao treino da tripulação. Já os andávamos a treinar há três anos, especificamente focados em objetivos lunares, fotografia da Terra e fotografia de astrofísica. No entanto, tivemos de lhes dar bastante treino adicional para garantir que conseguiam extrair do eclipse as observações de que precisávamos. Honestamente, foi tão divertido. Lembro-me perfeitamente dessa semana em que mergulhámos no assunto a fundo. Entrei no trabalho na segunda-feira e, quando saí na sexta-feira, pensei: “O meu cérebro nunca esteve tão cansado e, ao mesmo tempo, tão inspirado”. É por isto que escolhemos trabalhar na exploração espacial. Foi fantástico.

Apagão de comunicações durante 40 minutos? Houston estava “totalmente calmo”

Durante 40 minutos do sobrevoo lunar, a tripulação perdeu todas as comunicações com o Johnson Space Center. Já estava previsto na missão, mas como estava o ambiente em Houston durante este período?
Estávamos totalmente calmos. Tínhamos tido tantos dias de verificações da nave espacial em operações que, a esse ponto, já conhecíamos a cápsula [Orion] e tínhamos validado os muitos e muitos anos de trabalho em modelação para o desempenho da nave. Como seres humanos que conhecem muito bem a tripulação, há obviamente este elemento de esperar que voltem a aparecer para podermos ouvir as suas vozes e saber com certeza que estão bem. Mas simulámos isso vezes sem conta. A modelação e a cronologia que tínhamos confirmaram-se. Estávamos preparados, tanto do lado da equipa de controlo de voo como da tripulação. A minha primeira reação foi: “Muito bem, vamos respirar um pouco”. Tinha estado num ritmo frenético, por isso pensei: “Vamos respirar. Quero fazer um ponto de situação com a equipa de ciência no andar de cima para ver se estamos a conseguir o que precisamos”. Foi uma oportunidade para fazermos um balanço, e para ir à casa de banho, o que soube bem. Acima de tudo, estava a sentir-me muito feliz pela tripulação. Sabia exatamente o que eles estavam a experienciar naquele momento, o que estavam a ver e a fazer, porque tínhamos o plano de alvos traçado. E agora eles estavam a fazê-lo, na aproximação máxima. Sabia para o que é que eles estavam a olhar, e sentia-me incrivelmente feliz, grata e com uma enorme confiança na equipa.

A transmissão da NASA, nesse sexto dia de missão, acabou por volta das 3h aqui em Portugal e lembro-me de pensar que o meu dia estava a acabar, mas que vocês, apesar de já terem passado um dia inteiro de trabalho no sobrevoo, ainda teriam uma longa noite pela frente para analisar os dados passados pela tripulação. O que recorda dessa noite?
Foi muito estranha. Nós estávamos a trabalhar de forma muito próxima há muito tempo, mas eu estive totalmente separada da equipa durante a missão, porque estavam todos juntos num sítio e eu não. Felizmente, tínhamos uma transmissão de vídeo. Isso ajudou-me não só a sentir-me ligada a eles, mas também a ver no que estavam a trabalhar. Depois de cada turno, eu subia e sentava-me na parte de trás da sala só para absorver o que a equipa de ciência estava a fazer. Como líder, tinha a responsabilidade de garantir que todos estavam felizes, saudáveis, a conseguir fazer o que precisavam e também de reportar o estado das coisas ao longo de toda a hierarquia. Mas as minhas funções operacionais eram lá em baixo. No dia do sobrevoo, fui lá acima durante um bom bocado só para absorver o entusiasmo e a felicidade. Mas sabia que tinha de dormir e de me levantar e estar em turno novamente. E esse turno seguinte era crucial, porque tínhamos o debriefing de ciência com a tripulação — aquele momento de discussão científica que, para nós, continuava a ser recolha de dados e ciência ativa. Assim que os dados começaram a descer — o que demorou um par de horas —, utilizámos outra sala, que fica noutro edifício do campus. Foi lá que a minha equipa entrou para olhar para as centenas e centenas de ficheiros que estavam a chegar. Tiveram uma noite cheia, estiveram a analisar dados durante horas e depois a empacotá-los para que na manhã seguinte tivessem os pacotes de dados prontos para analisar e fornecer-me perguntas e informações para a conferência com a tripulação. Pareceu ter sido um turno incrível para todos eles — muito duro, muito stressante, com muito trabalho, mas imensamente gratificante. Todos descreveram aquele turno específico como uma experiência transformadora. E eu estava a dormir.

E quando é que viu as primeiras imagens que chegaram da nave espacial Integrity?
Acordei na manhã seguinte e vi as fotografias nas redes sociais como toda a gente, porque estava a dormir. É uma história marcante num espaço de 24 horas, porque enfatiza o quanto isto é um esforço de equipa. O meu trabalho não era ficar ali sentada a noite toda a olhar para os dados. Eu tinha de dormir e estar focada para o dia seguinte, por muito que quisesse fazer parte. E por muito que eles quisessem ter feito parte do apoio à tripulação durante o sobrevoo, tiveram de fazer o trabalho realmente duro durante a noite.

O que acabámos por fazer foi isto: de cada vez que, em qualquer atividade com eles — e houve muitas, na sala de aula, nas simulações, em múltiplos pontos de contacto —, eles descreviam a Lua, nós pegávamos nos ficheiros de áudio e mapeávamos tudo o que eles tinham dito que fosse cientificamente relevante.
Kelsey Young, responsável científica pelo programa Artemis

“O nosso conjunto de dados mais valioso a nível científico não foram as imagens, foram as descrições da tripulação”

Também foi impressionante ver os quatro astronautas a identificar com facilidade todos os alvos definidos, todas as crateras e elementos da superfície lunar — e até nomearam algumas que não tinham nome até à data —, sempre com muito entusiasmo na descrição de cada detalhe. Como foi o processo de aprendizagem de cada um? Aprenderam rápido?
Definitivamente sim. Aprendem de maneiras diferentes, não podíamos esperar que os quatro, mais os dois suplentes — porque fomos muito rigorosos em mantê-los totalmente treinados também —, que os cérebros dos seis funcionassem da mesma forma, porque todos funcionam de maneira diferente. Tivemos o luxo do tempo para perceber quando algo que lhes estávamos a dizer não estava a fazer sentido para alguns, e pensar em como podíamos voltar atrás e fazer melhor da próxima vez. Conseguimos estruturar um plano de treino muito diversificado que não só se adequava aos seis, mas que incluía um conjunto muito diferente de ambientes de treino. Tínhamos formação em sala de aula, onde tentámos não dar apenas palestras com slides; há slides, claro, mas é tudo muito prático e experimental. Tínhamos simulações de múltiplos tipos: integradas com a equipa de controlo de voo onde a responsável científica dava apoio, mas os astronautas também entraram no modelo da Orion; e tínhamos algumas simulações onde eles se sentavam literalmente à volta de uma mesa a olhar para visualizações e a analisar as coisas com o equipamento. Também os levámos para o terreno, colocámo-los na réplica da Orion e instalámos um globo insuflável gigante da Lua do lado de fora da janela para usarem e tirarem fotografias. E foi toda essa visão de conjunto que realmente lhes permitiu construir aquela base de conhecimento.

Houve alguma técnica de aprendizagem que tiveram de aplicar para garantir que um determinado conceito entrava na cabeça deles?
O nosso conjunto de dados mais valioso a nível científico não foram as imagens, foram as descrições da tripulação. O elemento verdadeiramente único nesta missão era, claro, a tripulação humana. No entanto, quando começámos o treino, eles não compreendiam o quão valiosas eram as suas observações e as suas palavras. Tentámos múltiplas abordagens para os fazer explicar as coisas e a ideia não estava a passar. Eles diziam: “Nós fazemos isso porque confiamos em vocês e sabemos que é importante, mas o que é que querem dizer com isso?”. Tentámos várias soluções; estavam a funcionar mais ou menos. O que acabámos por fazer foi isto: de cada vez que, em qualquer atividade com eles, descreviam a Lua, pegávamos nos ficheiros de áudio e mapeávamos tudo o que eles tinham dito que fosse cientificamente relevante. Nós mostrávamos: “Olha, quando disseste isto, isso transmitiu-nos isto, e aprendemos isto. E quando disseste aquilo…”. Foi um enorme esforço que as nossas incríveis equipas de ciência e de formação fizeram. Assim que começámos, conseguimos ver os “cliques” a acontecer na cabeça deles. Na altura do lançamento, já diziam: “Percebi”. Dessa forma, tentámos desde o início transmitir-lhes que eles faziam parte da equipa de ciência, que eram os cientistas de campo. Não estávamos apenas a dar-lhes algo para executarem como se fossem robôs. Demorou um pouco, mas quando lá chegámos, chegámos a sério.

Durante a transmissão da NASA, ouviram-se várias destas descrições “mais humanas” das observações. Mas uma coisa que reparei é que os astronautas iam introduzindo vários adjetivos como “lindo” ou “impressionante” para descrever determinada característica. De que forma é útil a nível científico?
Se calhar, os superlativos — à falta de melhor palavra — podem não ser tão valiosos a nível científico. Mas quando eles dizem coisas como a descrição que a Christina [Koch] fez em direto, e que toda a gente ouviu, em que disse: “Isto parece um abajur com a luz acesa e cheio de pequenos furos”… Aí nós pensamos: “OK, percebi”. Consigo compreender para onde é que ela está a olhar. E quantas vezes ouvimos em direto, e eu própria já ouvi da parte da tripulação muitas vezes desde que regressaram, dizerem: “As fotografias não contam a história toda”. Eles andam a rever todas as fotografias e dizem que aquilo simplesmente não faz justiça à realidade. Eles usam as palavras para nos dar pistas sobre o aspeto real daquilo que estão a ver. Além disso, conseguem fazer comparações, e foi uma componente verdadeiramente única nesta missão. Como estavam tão longe, dispunham de uma visão contextual de todo o disco lunar, o que é incrivelmente importante para os processos geológicos. Por exemplo, as crateras de impacto podem projetar materiais a centenas de quilómetros de distância, e eles conseguiam ver isso tudo. Como se moviam muito depressa, conseguiam também comparar uma zona com a outra. Ao longo do sobrevoo, ouvimo-los dizer coisas como: “Ah, nós achávamos que isto era a coisa mais escura, mas agora vejo que não é. Este mare lunar parece-se com este, mas não com aquele”. Todas essas observações são ciência. Isso diz-nos se as estruturas são iguais ou se são diferentes. E se não são iguais, porque é que são diferentes? É possível inferir alguma relação de idade a partir daí? E, a partir daí, conseguimos perceber quão ativos foram certos processos em determinadas áreas da Lua com base nos dados que eles nos dão?

É assim que se diferenciam de um satélite em órbita lunar…
Para nós, era muito importante não tentar substituir ou duplicar o trabalho da LRO [Lunar Reconnaissance Orbiter ou Câmara Orbital de Reconhecimento Lunar], porque isso seria ridículo. A LRO é fantástica e já nos dá imensa informação. O objetivo era acrescentar contexto a muitas das imagens que a LRO forneceu e que a tripulação captou. Assim, para os cientistas que estudam todas estas áreas, é mais um ponto de dados, mais uma ferramenta na sua caixa de ferramentas para avaliar a Lua. E é uma ferramenta única: não a conseguimos obter de mais lado nenhum.

“O voo espacial humano é um desporto de equipa, temos de ir juntos ou não chegaremos a lado nenhum”: o futuro do programa Artemis

Esta semana ficámos a conhecer a tripulação da Artemis III. Apesar de esta missão ser dedicada ao teste de uma componente muito mais tecnológica — o funcionamento dos módulos lunares desenvolvidos pela Blue Origin e SpaceX —, insere-se alguma componente científica nestes planos?
Teremos uma série de objetivos. Os astronautas vão conseguir ver a Terra a partir de uma perspetiva única. Será uma órbita ligeiramente diferente da Estação Espacial Internacional (ISS), pelo que conseguirão acrescentar contexto à observação da Terra. Também temos alguns objetivos de heliofísica e esperamos mitigar o risco científico para as próximas missões na superfície através da recolha de dados sobre possíveis fontes de contaminação das futuras amostras lunares. O objetivo é caracterizar exaustivamente o ambiente dentro da Orion para conseguirmos dizer: “Queremos compreender o que acontece a estas amostras desde o momento em que entram na Orion, na primeira missão à superfície, até ao momento em que chegam ao navio de recuperação”. Permite-nos condicionar e controlar totalmente a contaminação das amostras. Vamos tirar partido de alguns dos fluxos do veículo Orion para caracterizar — e sublinho, não se trata de um risco para o veículo Orion ou para a tripulação, mas sim para a ciência — o aspeto deste ambiente em redor do Orion e de que forma ele afeta os restantes dados que estamos a recolher. Quanto mais desenvolvimento e prática conseguirmos fazer em torno dos objetivos de demonstração tecnológica — que, como é evidente, são a prioridade aqui —, mais nós, enquanto comunidade científica, vamos aprender.

E estamos agora mais ou menos na mesma altura para a Artemis IV em que os astronautas da missão Artemis II foram anunciados. Em que altura é que começa o processo de aprendizagem para a nova tripulação que, em 2028, deverá pisar a superfície lunar e recolher amostras que serão extremamente valiosas?
Essa é uma excelente pergunta e, para ser sincera, não sei a resposta exata. No entanto, posso dizer que também faço parte da equipa de treino científico da tripulação e andámos a trabalhar durante anos no desenvolvimento dos conteúdos, porque estes pontos de contacto com a tripulação são tão valiosos que planeamos tudo com anos de antecedência e fazemos ensaios gerais e simulações de tudo. O nosso plano de treino está bem estruturado. Estamos prontos para dar a formação assim que os membros da tripulação se sentarem à nossa frente. Sei que a ciência não é a única disciplina em que eles recebem treino e que todos os líderes das várias áreas de treino têm estado totalmente focados na finalização dos conteúdos. A nossa postura básica é muito simples: nós estamos prontos assim que eles estiverem prontos.

Até porque imagino que a lista de objetivos seja superior à da última missão, por isso suponho que o tempo de formação seja mais longo…
Estivemos em trabalho de campo há apenas umas semanas com a nova turma de astronautas que entrou no ano passado. O que é mais importante é treinar competências. Fazemo-lo para que, independentemente do local onde aterrem ou de qual seja a sua órbita, consigam cumprir os objetivos científicos. Temos tido imenso sucesso com esta abordagem ao longo dos anos, deixando muito claro que são membros da nossa equipa de ciência e que os vamos levar até este nível de base onde serão capazes de cumprir quaisquer que sejam os objetivos da sua missão. Claro que há um treino específico para a missão que, para nós na ciência, surge normalmente um pouco mais à frente no processo. Isto acontece porque primeiro treinamos a base — ou seja, criamos os cientistas, os geólogos — e só depois dizemos: “Muito bem, agora vão àquele local fazer estas tarefas e recolher estas amostras”.

O voo espacial humano é um desporto de equipa, temos de ir juntos ou não chegaremos a lado nenhum. E isso é visível nas contribuições das agências internacionais para estas missões, não apenas na tripulação, mas em elementos absolutamente críticos do equipamento.
Kelsey Young, responsável científica pelo programa Artemis

Estando os objetivos de missão já totalmente delineados, há algum que esteja mais entusiasmada por partilhar?
Quando alunarmos na região do Polo Sul, há aspetos específicos que são de altíssima prioridade para a comunidade científica: os elementos voláteis e a cronologia do Polo Sul, como a história de impactos, as questões da Bacia Aitken e o Grande Bombardeamento Tardio. Sabíamos que estas duas áreas seriam prioritárias porque o são para a comunidade internacional, e é algo realizável com estas missões. Não realizável no sentido de irmos resolver tudo numa única missão, mas conseguiremos fazer progressos reais nesses objetivos. Por isso, não há surpresas. É mais uma questão de adaptação, de forma semelhante ao que fizemos na Artemis II, mas mais complexo devido às amostras e ao retorno de amostras. Trata-se de ver o que podemos fazer para reduzir as incógnitas sobre estas questões de alta prioridade com o número de EVAs [atividades extraveiculares] que temos, quanto tempo temos nessas EVAs e qual é a capacidade de retorno de amostras da missão.

Na Artemis II, vimos a participação direta da Agência Espacial do Canadá, através do astronauta Jeremy Hansen. Para a Artemis III, a ESA será representada através do piloto da missão, Luca Parmitano e, seguramente, a Artemis IV também terá um astronauta estrangeiro. Além deste nível de colaboração internacional que se vê na tripulação e na preparação do equipamento, de que forma é que as diferentes agências participam a nível científico?
A NASA não consegue fazer isto sozinha. Nós temos de ir juntos. E mesmo antes de o Luca [Parmitano] ter sido destacado para a Artemis III, a ESA já desempenhava um papel fulcral no equipamento e no veículo que mantém toda a nossa tripulação em segurança. E os parceiros comerciais também, claro. Este é, sem dúvida, o meu aspeto favorito do meu trabalho: o voo espacial humano é um desporto de equipa, temos de ir juntos ou não chegaremos a lado nenhum. E isso é visível nas contribuições das agências internacionais para estas missões, não apenas na tripulação, mas em elementos absolutamente críticos do equipamento. Por exemplo, uma das cargas úteis [payloads] que está em desenvolvimento para as primeiras missões na superfície lunar é fornecida pela JAXA, a agência espacial japonesa. Além disso, a equipa de geologia que foi selecionada por concurso através de toda a comunidade científica — que recebeu uma série de propostas e acabou por escolher uma para ajudar a definir a fase de geologia de superfície das duas primeiras missões na Lua — inclui vários cientistas internacionais de múltiplos países.

Daqui a uns anos, especialmente quando olhamos para os planos futuros da NASA para a Lua, a Artemis II irá parecer apenas um pequeno passo inicial. No entanto, há um termo que se ouviu ao longo de toda a última missão. O que lhe vem à cabeça quando ouve o termo “Moon joy“?
Quando penso na minha experiência, não consigo isolar um único momento. Quando cheguei a casa, a minha família perguntou-me qual tinha sido a minha parte favorita e eu respondi: “Não tenho uma”. Tenho uma amálgama de memórias. E acontece o mesmo quando oiço a expressão “Moon joy“. Em primeiro lugar, o termo “Moon joy” nasceu de uma das nossas science officers, a Angela Garcia. Eu trabalho com a Angela há vários anos e ver o desenvolvimento da sua carreira e, acima de tudo, testemunhar o nível de competência, disciplina e rigor que ela traz para quem a rodeia foi algo incrivelmente marcante para mim ao longo de toda a missão. Por fim, há que somar a enorme onda global de apoio a toda a missão, mas especificamente às suas componentes científicas. Para mim, esse termo encapsula esse apoio, essa inspiração e esse impacto. Lembra-me todas as fotografias da equipa de ciência radiante, a sorrir de orelha a orelha e, em alguns casos, a chorar. Todas essas coisas. Acho que esse termo vai ter sempre um peso enorme para mim. Não apenas no sentido de dizer “uau, isto foi incrivelmente fixe e o culminar de tudo o que desejei para a minha carreira”, mas também pela equipa. Pelas pessoas à minha volta que apoiaram a missão e que são extraordinárias no que fazem, e pela inspiração global — por todas as crianças e pessoas de todo o mundo de quem temos recebido mensagens e para quem isto significou algo. Será sempre esse o significado que essas palavras terão para mim.