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Suspeito do ataque em Belfast foi polícia no Sudão e obteve asilo no Reino Unido com questionário sem entrevista

Hadi Alodid, de 30 anos, serviu na polícia de Cartum antes de fugir via Líbia e Paris. Belfast continua palco de violência racista e autoridades reforçam meios de repressão dos desacatos.

João Paulo Godinho
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Hadi Alodid, o suspeito sudanês detido num caso de tentativa de homicídio que está a gerar protestos violentos na cidade de Belfast, terá sido polícia no Sudão. A informação foi avançada esta quinta-feira pelo jornal The Telegraph, que cita amigos do imigrante envolvido no ataque com faca a Stephen Ogilvie, um cidadão norte-irlandês de 44 anos que se encontra em coma, depois de ter perdido um olho e de sofrer ferimentos nas costas e na cabeça.

As imagens do violento ataque de segunda-feira circularam nos últimos dias na Internet e geraram desde então uma vaga de protestos de grande dimensão na capital da Irlanda do Norte, que já alastraram a outros pontos do Reino Unido, como a Escócia. Há relatos de carros incendiados nas ruas, o uso de balas de plástico e canhões de água pelas autoridades e a perseguição a imigrantes por parte de manifestantes.

https://observador.pt/2026/06/09/homem-sudanes-preso-apos-tentar-decapitar-uma-pessoa-em-belfast-starmer-considera-crime-repugante/

Stephen Ogilvie estava deitado no chão com o suspeito sentado sobre o seu corpo a atacá-lo com um objeto cortante, entretanto identificado como uma faca. Os moradores intervieram e travaram o ataque, que foi descrito pelas testemunhas no local como uma tentativa de decapitação.

De acordo com o diário britânico, Hadi Alodid, que ficou em prisão preventiva e viu o seu pedido de fiança recusado, terá servido como polícia em Cartum por alguns meses, antes de rumar ao Reino Unido. O suspeito, de 30 anos, pertencerá a uma família proeminente e com ligações políticas influentes na cidade de Karima, no Sudão.

Azheri Omer revelou ser amigo de Alodid desde 2022, então ainda na capital sudanesa, e contou que o suspeito entrou para a polícia de Cartum, mas ficou apenas alguns meses ao serviço das autoridades. Quando decidiu deixar o seu país de origem, em meados de 2023, Hadi Alodid terá sido acompanhado por outros dois irmãos, igualmente a viverem agora no Reino Unido.

https://twitter.com/Telegraph/status/2065094296693334263

O imigrante sudanês, que tem estatuto legal de permanência na Irlanda do Norte, saiu do Sudão através da Líbia e conseguiu chegar a Paris, de onde rumou depois a Dublin (Irlanda) e, finalmente, para Belfast. Alodid terá a companhia de um irmão na capital da Irlanda do Norte, enquanto o outro irmão viverá em Liverpool.

Alodid conseguiu obter asilo ao abrigo de um ‘regime expresso’, efetuado através de resposta a um questionário de 10 páginas e sem entrevista pessoal, obtendo uma autorização de permanência no Reino Unido válida por cinco anos, até 2028. Esse regime simplificado foi implementado em 2022 pelo governo liderado por Rishi Sunak e destinava-se aos imigrantes provenientes do Afeganistão, Eritreia, Líbia, Síria, Iémen e Sudão, com vista a desbloquear os atrasos em dezenas de milhares de pedidos de asilo.

Violência nas ruas, ataques racistas e tensão política

A violência dos protestos dos últimos dois dias em Belfast levou as autoridades britânicas a reforçar a resposta. Em causa estão ataques racistas que terão ocorrido nas últimas horas, como a perseguição a uma enfermeira imigrante ou um cerco a fiéis muçulmanos numa mesquita em Glasgow, relatados pela imprensa britânica.

Entre os sinais de uma resposta mais robusta, segundo o The Guardian, está o uso de balas de plástico e a chegada de mais 200 agentes para ajudar o Serviço de Polícia da Irlanda do Norte, na sequência de duas noites de desacatos. Os distúrbios registados traduziram-se em 12 agentes feridos e na detenção de 16 pessoas, com uma mulher de 24 anos a ser acusada de comportamento desordeiro e posse de um objeto com intenção de causar danos, e um homem de 28 anos a ser acusado de resistência e obstrução à autoridade.

https://observador.pt/2026/06/10/canhoes-de-agua-em-belfast-e-fieis-trancados-em-mesquita-em-glasgow-protestos-continuam-pelo-2o-dia-consecutivo/

“Os infratores violentos, racistas e fascistas não oferecem nada além de desesperança e vandalismo irracional”, denunciou Liam Kelly, presidente da Federação Policial da Irlanda do Norte, que fez ainda um apelo a penas duras para os responsáveis pelos motins na cidade de Belfast.

Por sua vez, Hilary Benn, secretário para a Irlanda do Norte, condenou as motivações raciais na base dos desacatos. “Se se está a atacar pessoas com base na sua cor, na sua pele, de que outra forma se pode descrever isso? Isso é violência racista”, frisou.

A mesma visão foi secundada pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, através da declaração de um porta-voz à imprensa: “Não há dúvida de que as cenas a que assistimos nos últimos dias são racistas”.

https://twitter.com/SkyNews/status/2065047287361929635

Já a líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, lembrou que não fazia parte do Governo de Rishi Sunak no período de concessão facilitada de asilo e pediu desculpa, apontando o dedo a Robert Jenrick e Suella Braverman, então responsáveis políticos que deixaram o seu partido e rumaram entretanto ao Reform, de Nigel Farage.

“Na altura, eu não era a responsável. Também não fazia parte do Ministério do Interior. Tudo o que posso fazer é pedir desculpa às pessoas. As pessoas que implementaram essa política passaram agora para o partido Reform e fingem que não tiveram nada a ver com isso. O resto de nós está aqui a tentar resolver a confusão. A nossa bondade foi explorada. Havia, sem dúvida, uma suposição entre a função pública, mas também dentro da classe política, de que todos os requerentes de asilo eram vulneráveis”, assumiu.